Porto de Santo: o maior corredor de exportação do Brasil, que sofrerá impacto. (Foto: Autoridade Portuária)


A partir desta quarta-feira (6), exportadores brasileiros enfrentam uma nova realidade: a entrada em vigor de uma tarifa de 50% sobre produtos nacionais nos Estados Unidos.

A medida, imposta pelo governo norte-americano, atinge diversos setores e gera especial preocupação entre micro e pequenos empreendedores, que representam 40% das empresas exportadoras do país, segundo o Sebrae.

Da moda praia aos molhos de pimenta gourmet, o sentimento é de incerteza. Gustavo Aquino, da Sabor das Índias, em Vinhedo (SP), relata que um de seus principais clientes nos EUA suspendeu as encomendas. “Está todo mundo em compasso de espera”, afirma. Sua empresa, que envia 17,3% da produção de molhos e chutneys para o mercado americano, precisou adiar investimentos e congelar contratações. “Parar, acho que não, mas vai reduzir o volume de vendas”, prevê.

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Setores estratégicos em alerta: café, carne e sal marinho

O impacto se estende a commodities essenciais. O setor cafeeiro, cujo principal mercado é os Estados Unidos, estima perdas de até US$ 481 milhões (R$ 2,6 bilhões ) em 2025.

Embora a China surja como alternativa, especialistas alertam para suas limitações. “O mercado da China não é como de outros, que já estão consolidados. Ele ainda está se estruturando”, explica Marcos Matos, diretor do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé). Ele reforça: “Assim como o Brasil é insubstituível para os Estados Unidos, os Estados Unidos são insubstituíveis para o Brasil”.

No setor de carnes, a situação é igualmente crítica. Os EUA são o segundo maior mercado para a carne bovina brasileira, absorvendo 12% das exportações.

A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec) projeta uma perda de US$ 1 bilhão em 2025. A produção destinada aos EUA já foi paralisada, e a busca por novos mercados enfrenta obstáculos de rentabilidade e preferências de consumo. “Os americanos compram mais a dianteira do boi, usada para hambúrgueres”, destaca a entidade.

O sal marinho e o pescado também estão entre os produtos mais afetados. No Rio Grande do Norte, responsável por 98% da produção nacional de sal marinho, o principal destino — os EUA — representa 47% dos negócios. “Nós não temos mais condições de mandar o nosso sal para os Estados Unidos”, afirma Airton Torres, presidente do Sindicato da Indústria de Extração do Sal do RN. A medida coloca em risco cerca de 4 mil empregos diretos. O setor pesqueiro também está em alerta, já que 80% do atum pescado na região é exportado para os EUA.

Efeitos colaterais: inflação nos EUA e incerteza no Brasil

A tarifa de 50% pode gerar consequências também para os próprios Estados Unidos. O país importa 99% do café que consome, sendo o Brasil responsável por cerca de 30% desse volume. A substituição não será simples. A indústria de hambúrgueres americana, dependente da carne bovina brasileira, também pode enfrentar inflação, agravada pela escassez de gado para abate.

No Brasil, a expectativa de queda nos preços com o redirecionamento dos produtos ao mercado interno pode não se concretizar. No caso da carne bovina, os produtores já estão reduzindo os abates, o que tende a diminuir a oferta e elevar os preços nos próximos meses.

A tentativa de redirecionar a produção para outros mercados é complexa. O café exige adaptação a normas sanitárias e padrões de qualidade distintos. O setor de tilápia, que envia mais de 90% da produção aos EUA, não tem mercados secundários capazes de absorver o volume. “Redirecionar para o mercado interno faria o preço ficar inexequível, quebrando a cadeia produtiva”, alerta Eduardo Lobo, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Pescado (Abipesca).