Diante da grave crise entre Estados Unidos e Brasil, desencadeada por Donald Trump com o aumento de tarifas e sanções ao Supremo Tribunal Federal, “o silêncio da comunidade internacional tem sido um dos aspectos mais chocantes”.
A avaliação é de Christopher Sabatini, pesquisador sênior da Chatham House, que em entrevista à BBC News Brasil, destacou a gravidade da situação.
O Chatham House é um “think tank” britânico sediado em Londres, focado em analisar e promover a compreensão de questões internacionais importantes. É considerado uma das principais organizações do mundo nesse campo.
Não houve manifestações de países da União Europeia ou de instituições como a ONU e a OEA, mesmo com Trump usando ferramentas econômicas para atacar a soberania e as instituições brasileiras.
Para Sabatini, a gravidade do que está acontecendo é sem precedentes e muito séria.
Contudo, líderes internacionais se mantêm em silêncio diante de uma “intervenção ou violação política flagrante, não apenas da soberania nacional, mas da integridade democrática das instituições”.
Esse silêncio reforça a antiga e perigosa noção de que a América Latina é o “quintal dos EUA”, lamenta o analista.
Muitos países e organismos se calaram por estarem eles próprios envolvidos em disputas com Trump, que conseguiu criar um clima de “cada um por si”.
O fato de a intervenção ocorrer na maior economia da América Latina é um sinal da força do governo Trump.
O pesquisador conversou com a BBC News Brasil após a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro.
Para ele, mesmo que o bolsonarismo ganhe algum impulso com a ajuda de Trump, parte da opinião pública brasileira deve se voltar contra Jair e Eduardo Bolsonaro quando o impacto econômico das tarifas começar a ser sentido.
“Isso favoreceria o presidente Lula e o surgimento de uma nova liderança no movimento bolsonarista, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas”.
Sabatini acredita que a pior crise na história das relações entre EUA e Brasil pode piorar ainda mais nos próximos meses, com o julgamento definitivo de Bolsonaro no STF e as eleições de 2026.
“Se Bolsonaro for condenado, os EUA poderiam aumentar a pressão contra o Brasil, usando ferramentas como sanções individuais a integrantes do governo Lula”.
O analista não vê uma saída para a crise por meio de negociações, pois nem Brasil nem EUA poderiam recuar sem sofrer perdas políticas enormes. Lula afirmou que não ligaria para Trump para tratar do tema, pois o norte-americano não estaria interessado. “A solução mais provável, segundo Sabatini, viria de senadores democratas, que tentariam impedir a guerra comercial de Trump no Congresso americano, retirando poderes do presidente dos EUA”.
Sabatini enfatizou que, embora o sistema judiciário brasileiro possa ser ativista, o uso de tarifas como sanção é sem precedentes e uma “intervenção política excepcional e assustadora”.
“O silêncio internacional, particularmente da Europa e das instituições multilaterais, é ainda mais chocante, pois são defensores da soberania nacional”.
O pesquisador conclui que o cenário atual reforça a percepção de que a visão de Trump sobre o Brasil está prevalecendo no cenário global, infelizmente.





