Por Adriana Blak (RJ)
O diretor e cineasta Bruno Murtinho anuncia o lançamento nacional de “Authentic Games – No Império Desconectado”, produção que combina animação e live-action e chega às salas brasileiras em 14 de maio.
O longa marca a estreia do youtuber Marco Túlio, criador do canal Authentic Games, no cinema. Seguido por mais de 20 milhões de inscritos, o influenciador leva para as telonas o universo digital que o consagrou.
Dirigido por Murtinho, o filme apresenta uma narrativa estruturada na lógica dos videogames.
Segundo o roteiro, Marco Túlio é sequestrado pelo vilão do Império Desconectado, mundo que busca se vingar da internet.
Por engano, quem acaba levado é a Família Craft, e cabe ao protagonista, transformado em sua versão animada, o Authentic, enfrentar fases e desafios para resgatar os aliados e derrotar o imperador.
A produção é fruto de parceria entre UOL, Rubi Produtora, Aya Produções, Urca Filmes, Riofilme e Prefeitura do Rio de Janeiro.
O elenco reúne nomes conhecidos do cenário gamer, como Spok (Andrei Soares) e Cauê Bueno, além da atriz Thay Bergamim e do cachorro Shake.
Assista aqui o trailer do filme:
A dublagem inclui ainda o criador de conteúdo Natan Lopes. A estética híbrida, que combina cenários digitais e atores reais, reforça a atmosfera de jogo e busca dialogar diretamente com crianças e adolescentes que acompanham o canal. “A proposta é oferecer humor leve e ação em ritmo acelerado”, afirma Murtinho.
O diretor destaca que a obra foi realizada sem o uso de Inteligência Artificial. “Apesar de ser altamente tecnológica, é um filme feito 100% sem IA”, diz.
A trajetória de Murtinho começou muito antes do projeto. Formado em direção e roteiro pela UCLA (University of California, Los Angeles), trabalhou com Fernando Meirelles e se consolidou como um dos mais criativos nomes do mercado de videoclipes no Brasil. Foi duas vezes vencedor do VMA MTV Brasil, nas categorias “Melhor Diretor” e “Melhor Vídeo de Música Pop”, e dirigiu clipes de artistas como Chico Buarque, Lulu Santos, Tiago Iorc, Ivan Lins, O Rappa, Vanessa da Mata, Nando Reis, Skank, Natiruts, Jota Quest, Djavan e Seu Jorge.
Na publicidade, conquistou a medalha de ouro no Prêmio Colunistas com o filme Copy, para a Volkswagen, e assinou campanhas para marcas como Santander, Dove, Coca-Cola, Oi, TAM e Ford.
Seu primeiro longa, Amazonia Groove, foi indicado ao Grande Prêmio do Cinema Brasileiro na categoria Melhor Edição de Documentário e recebeu o prêmio de “Best Cinematography” no South by Southwest Film Festival, nos Estados Unidos.
Com “Authentic Games – No Império Desconectado”, Bruno Murtinho amplia sua trajetória e reforça a tendência de influenciadores digitais migrarem para o cinema, fenômeno crescente no Brasil.

Bruno Murtinho foi o entrevistado do BC TV desta segunda-feira (4). Ele contou como surgiu a ideia desse longa, falou detalhes da produção e convocou o público a prestigiar a obra nos cinemas de todo o país a partir do dia 14.
A seguir, leia alguns dos principais trechos da entrevista:
Adriana Blak – Quem é Bruno Murtinho, o cineasta por trás desse projeto? E o que te motivou a entrar nesse universo?
Bruno Murtinho – Eu sempre fui fã de conteúdo infantil. Acho que os adultos tratam muito mal suas crianças internas. Diante dos problemas do planeta e da sociedade contemporânea, a gente acaba esquecendo que um dia foi criança, que teve aquela cabeça, que acreditou em certas coisas e se permitiu seguir caminhos menos óbvios.
Esse universo infantil sempre me encantou. Na verdade, fui convidado para dirigir um show do Marco Túlio, criador do canal Authentic Games, no Espaço das Américas, em 2017. Quando cheguei lá, me deparei com um cara super talentoso, com o teatro completamente lotado em duas sessões.
As crianças estavam enlouquecidas, parecia quase uma Beatlemania. Eu já tinha feito várias coisas, dirigido vários shows no Espaço das Américas, e sempre chegava bem mais cedo para ver as câmeras e falar com a equipe. Nunca tive problema nenhum. Mas, dessa vez, tinha uma fila dando voltas no quarteirão. Eu pensei: ‘caramba, o que está acontecendo aqui?’
Assisti ao show e pensei: esse cara é mais do que um youtuber ou um espetáculo. Tem um filme aqui dentro disso tudo. Vamos tentar pensar em como realizar essa ideia. E aí tudo começou.”
Adriana Blak – Bruno, como surgiu a ideia de transformar o universo do Authentic Games em um projeto cinematográfico?
Bruno Murtinho – Na verdade, é uma ideia que eu já tinha. Eu tenho uma espécie de gaveta de ideias, vou guardando projetos assim. Uma delas era para uma outra artista brasileira, que acabou não podendo realizar esse projeto, e eu fiquei com ele guardado.
Quando vi o show do Authentic e entendi todo o processo dele, ficou óbvio para mim que já havia ali uma estrutura pronta. Era só trocar os nomes, os universos, porque todo o conceito, toda a narrativa, o plot e a estrutura de roteiro já estavam ali.
Levei a ideia para a Sony — ele era um artista da Sony Music Brasil na época — e levei também o empresário dele. Nesse mesmo dia, eles já me ligaram dizendo: ‘vem para BH’. Era um domingo. Eu falei: ‘é domingo’. E eles responderam: ‘vem para cá, a gente precisa falar com você hoje, porque temos um projeto em mente também, mas queremos te ouvir’.
Fui até lá, fiz o pitching, e quando a conversa acabou eles disseram: ‘ok, vamos esquecer o outro projeto e vamos fazer esse’. A partir daí começou todo o processo de roteiro.
Depois veio a Covid, a pandemia, e uma série de paralisações. O cinema parou no planeta — e depois foi a primeira coisa a voltar.
Hoje, lançando o filme, o que mais me move é isso: a possibilidade de voltar a fazer cinema. Quando você faz um filme para crianças, você também faz para os pais delas. Criança não compra ingresso sozinha, não pega cartão de crédito, não vai ao cinema por conta própria.
Quando a gente entende que existe muito mais do que o universo infantil dentro de um filme, passamos a dialogar com o que nos Estados Unidos chamam de family entertainment, o entretenimento familiar.
Isso me move muito: essa possibilidade de falar com a família, com o maior número de pessoas possível. Um filme de terror, por exemplo, pode ser muito nichado. Mas um filme para jovens, adultos ou crianças, que uma criança de oito anos e um avô de 80 possam assistir juntos, é esse tipo de conteúdo que eu busco.
Adriana Blak – O que o público pode esperar dessa produção? Ele é mais voltado para os fãs ou também para quem ainda não conhece o Authentic Games?
Bruno Murtinho – Isso é bem delicado — essa pergunta é muito boa, porque quando a gente começou a desenvolver o filme, nos deparamos com um dado: a plateia do Authentic Games tinha entre seis e dez anos. E eu pensei: isso é uma fase muito inicial de ida ao cinema. E aí surge o desafio de como escrever para essa faixa etária tão inicial sem perder a conexão com outras plateias e outras possibilidades de público.
Isso foi um grande desafio. A gente entendeu que uma trilha muito bem feita ajudaria bastante. O dublador do filme é o Manolo Rey, que faz o Homem-Aranha, o Luigi do Mario, o Ryan Gosling, entre muitos outros. Então trouxemos um dublador com uma base de fãs muito forte.
Também chamamos outro youtuber, o Natan Por Aí, que hoje é um fenômeno, com mais de 40 milhões de seguidores no YouTube. Quando convidamos ele, ele tinha dois ou três milhões, na época da pandemia.
Então tudo foi acontecendo de forma muito orgânica, muito natural, quase como se houvesse uma energia conduzindo o projeto, fazendo com que ele acontecesse com pessoas que, naquele momento, a gente nem sabia que se tornariam essas potências de comunicação que são hoje.
Adriana Blak – Agora, quais foram os maiores desafios em adaptar um conteúdo tão ligado ao digital e ao YouTube para o cinema?
Bruno Murtinho – O que sinto é que, quando escrevi essa ideia, era uma época um pouco ruim para apresentar algo assim, porque vários filmes de youtubers não tinham dado certo.
Então a gente parou para analisar: como é que uma pessoa tem milhões de seguidores e isso não funciona na tela? Por que alguns desses projetos não funcionam no cinema? A gente começou a entender isso de forma muito intuitiva, porque não existia muita pesquisa sobre o tema — ainda mais em meio à pandemia. Ficava também a dúvida: quando esse filme vai ser lançado? Vai para o cinema ou para o streaming? A gente queria o cinema.
Comecei a perceber que um ponto em comum nesses filmes era que eles tiravam o youtuber do próprio universo e colocavam ele em outra narrativa, que até flertava com a origem dele, mas já dentro de uma outra história. E existe uma coisa importante no roteiro: você não pode trair a audiência.
Se as pessoas vão assistir ao filme do Marco Túlio, um cara nascido e criado no YouTube com games, a primeira sequência dele já precisa mostrar isso — ele no quarto, jogando, fazendo upload para o YouTube. E isso já coloca o espectador dentro do universo dele.
Isso foi acontecendo de forma meio intuitiva. Eu não posso dizer que foi tudo planejado e estudado desde o início — eu escrevi e depois fui ajustando. Inclusive, uma crítica recente falou que o filme já começa dentro do universo deles. E eu pensei: esse cara entendeu exatamente o que a gente queria, talvez até melhor do que a gente imaginava.
E isso também tem a ver com o fato de eu não ser dessa geração de YouTube e games. Eu fui criado no meio do mato, no interior do Rio de Janeiro. O jogo não era videogame — era subir em árvore, soltar pipa, jogar bola, pescar, ver passarinho.
Então lidar com esse universo exigiu muita humildade da minha parte e da equipe também, de ir atrás de pessoas mais jovens, perguntar, entender se aquilo fazia sentido, se aquelas falas estavam certas, se aquilo conversava com esse público.
A gente precisou pesquisar muito para entender a cabeça dessa nova juventude.
📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:




