O empresário e ex-secretário de Agricultura de SP, Francisco Matturro durante a entrevista ao BC TV


O empresário e ex-secretário de Agricultura do Estado de São Paulo, Francisco Matturro, concedeu uma entrevista exclusiva ao jornalista Germano Oliveira, do canal de notícias BC TV, do portal BRASIL CONFIDENCIAL, nesta sexta-feira (8).

Direto de Matão, no interior paulista — região conhecida como a “Califórnia brasileira” por sua vasta produção agrícola — Matturro comentou os recentes desafios do agronegócio nacional, com destaque para a sobretaxa imposta pelos Estados Unidos, da ordem de 50%.

Presidente do Conselho da Fundepag (Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa do Agronegócio) e da Rede ILPF (Rede Integração-Lavoura-Pecuária), além de um dos idealizadores da Agrishow, Matturro analisou a nova tarifa anunciada pelo presidente dos EUA, Donald Trump.

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Para o especialista, essa medida tem o potencial de “ferir mortalmente as nossas exportações para os Estados Unidos”.

🚚 Desafio logístico e o caso do café

Questionado sobre a possibilidade de redirecionar as exportações para outros mercados, como China, Índia ou Rússia, Matturro foi enfático:

“O impacto é pesado. Podemos até ter espaço para vender esses produtos para outros mercados, mas não é do dia para a noite que isso acontece”, afirmou.

Ele destacou que o processo de desenvolvimento de um mercado externo é “muito longo, um processo muito demorado até a sua fase de maturação”.

Como exemplo, o empresário citou o café — produto do qual o Brasil exporta anualmente 8 milhões de sacas para os Estados Unidos:

“É um produto que não dá para direcionar 8 milhões de sacas para outro mercado do dia para a noite. Isso é um grande problema”, disse.

Segundo Matturro, a taxa de 50% “se torna praticamente impossível” de ser absorvida. Ele reforçou a importância estratégica do produto para os americanos, lembrando que:

“De cada dólar de café verde exportado do Brasil para os Estados Unidos, lá na ponta da cadeia, quando ele chega na xícara do consumidor norte-americano, ele vira 43 dólares.”

A cadeia de processamento e distribuição nos EUA é longa e gera “muito recurso” no país.

🕊️ A diplomacia e o papel do vice-presidente

Sobre o impasse diplomático entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Trump — que se manifestou disposto a receber uma ligação do líder brasileiro — Matturro acredita que a negociação deveria ter sido iniciada imediatamente:

“Eu acho que no momento em que anunciou, o canal de negociação já deveria ter sido aberto por quem de direito”, comentou.

Ele defendeu que não seria uma “humilhação” para Lula ligar para Trump, argumentando que “é assim que age um estadista”.

Apesar da postura do presidente, Matturro elogiou o trabalho do vice-presidente Geraldo Alckmin, que está à frente das negociações:

“O ministro Alckmin, vice-presidente da República, tem feito um trabalho extraordinário até aqui, coletando, falando com todos os empresários, reunindo dados e informações”, destacou.

Ele disse ainda que a taxação é difícil de entender, já que “os Estados Unidos são superavitários na balança comercial com o Brasil”.

🍊 Produtos perecíveis e prazo para desembaraço

A respeito do risco de produtos perecíveis, como frutas, que já estão em trânsito, serem afetados pela tarifa, Matturro explicou que o governo americano concedeu prazo até meados de outubro para que as mercadorias cheguem ao destino sem a sobretaxa:

“Se ela tiver que voltar, são produtos perecíveis, podem se perder”, pontuou.

A sugestão do governo brasileiro de destinar os produtos para a merenda escolar, caso retornem, foi vista com ceticismo pelo empresário:

“Eu não acredito. Se ela tiver que fazer todo o trajeto de volta, sendo um produto perecível… nós vamos perder esse carregamento”, explicou.

🤝 Relação Brasil-EUA não pode ser encerrada “em uma canetada”

Por fim, o empresário discordou da tese de que a taxação de Trump seria uma manobra política para pressionar o governo brasileiro a anistiar o ex-presidente Jair Bolsonaro:

“Temos três Poderes. Os três são harmônicos, mas são independentes, e não dá para interferir na justiça de outro país. Isso é ferir soberania”, afirmou.

Para Matturro, “país não tem amigo, país tem interesses”, e a relação comercial de mais de 200 anos entre Brasil e Estados Unidos não pode ser encerrada “numa canetada”.

Ele concluiu destacando a excelência do agronegócio brasileiro, que “cumpre todas as regras sanitárias internacionais” e “faz tudo muito bem feito nessa área de alimentos”:

“De repente, numa canetada ou talvez até por um capricho, nos exclui de um mercado tão importante”, finalizou.

📺 Assista à entrevista completa acessando aqui: