Gudryan Neufert*
Esta semana foi celebrado o Dia da Fotografia. Por vezes a boa foto é simples, não precisa de grandes produções, apenas do olhar apurado do bom fotojornalista. Como repete aquele ditado gasto, “uma imagem vale mais do que mil palavras”. Mas há imagens que pedem ainda mais: talvez toda a biblioteca de Alexandria para serem decifradas.
Uma delas foi postada pelo ex-ministro da economia da Grécia, Yanis Varoufakis, que foi ministro entre janeiro e julho de 2015, durante a crise da dívida grega. Ele era famoso por sua postura confrontadora e táticas pouco ortodoxas nas negociações com credores europeus. Disse em relação à foto no Salão Oval da Casa Branca
“Uma foto que captura a humilhação total dos líderes liliputianos da Europa. Como alunos desobedientes sendo repreendidos na sala do diretor. Patético!”
Lado a lado cinco líderes de países europeus — mais a capitã da Comissão Europeia, de nome pomposo, Ursula von der Leyen, o chefe da Otan, Mark Rutte, e o pequeno que se imagina grande, Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia — olhando Trump de frente e cabisbaixos no Salão Oval da Casa Branca. A imagem não poderia ser mais eloquente sobre o estado atual das relações de poder no Ocidente.
A cena é cruel para quem já foi chamado de “Velho Continente”, berço da civilização moderna. Houve um tempo em que era a Europa quem decidia quem sentava do outro lado da mesa. Hoje, os papéis se inverteram de forma quase circense.
Para compreender a dimensão dessa inversão, é preciso recuar na história. Norbert Elias, em sua obra monumental O Processo Civilizador, explicou como os europeus construíram, ao longo dos séculos, um código de conduta que ia da mesa de jantar aos campos de batalha — código que os diferenciava dos demais. Essa superioridade civilizacional alimentou impérios. Muitos belgas, no fim do século XIX, sob o domínio do rei Leopoldo II, acreditavam que fora da Europa só havia selvagens. De acordo com os registros históricos, os belgas teriam matado nada menos que 10 milhões de pessoas no Congo, uma das páginas mais sombrias do colonialismo europeu.
Mas voltando a Elias: “a pressão (social) exercida sobre cada indivíduo obrigava-o a controlar e a refrear os seus afetos”, escreveu. Boas maneiras eram também uma forma de poder, de controle. Por isso, também foi preciso criá-las. O protocolo diplomático europeu, durante séculos, foi sinônimo de sofisticação política mundial.
Corta para o presente: o que restou da Europa? Gastronomia requintada? Educação sofisticada — que, no entanto, não paga as contas? O continente que exportou conceitos como democracia liberal, direitos humanos e Estado de Direito vê-se agora reduzido a um coadjuvante no grande teatro geopolítico.

A soma mais fria é a do PIB: juntando o Produto Interno Bruto dos cinco países representados na reunião com Trump e que não estão em guerra (Alemanha, Reino Unido, Itália, França e Finlândia), o resultado (US$ 14 trilhões) não chega à metade da economia norte-americana (US$ 29 trilhões). Os números são impiedosos e refletem uma realidade que o orgulho europeu teima em não admitir.
No mundo atual, quem tem mais dinheiro grita mais alto. E os gritos dos Estados Unidos ainda ecoam mais fortes que os acordes de Mozart ou as teses de Kant.
O contraste fica ainda mais evidente quando se observa que Donald Trump recebeu Vladimir Putin com honras e tapete vermelho no Alasca. À Europa tradicional coube o papel menor: ouvir como alunos pedindo bênção ao diretor em Washington D.C. A simbologia é devastadora para quem um dia ditou as regras do jogo global.
Passei tempo suficiente na Rússia para entender a altivez de um povo que se considera europeu até Moscou. Dali para o leste, tudo é Sibéria. E quem sobrevive àquele território inóspito dificilmente teme algo. Essa mentalidade explica, em parte, por que Putin ousa desafiar o Ocidente de uma forma que os europeus perderam há muito tempo.
A Europa não está descartada, é verdade. Carrega o DNA da tradição, da cultura universal, do humanismo. Possui universidades centenárias, uma rica tradição democrática e soft power considerável. Mas precisa urgentemente repensar o próprio comportamento e, principalmente, sua estratégia econômica.
Nesses dias, aceitou — para desespero de alguns líderes mais altivos — a imposição de uma taxa de 15% no comércio bilateral com os Estados Unidos. Ursula saiu comemorando como se fosse uma vitória diplomática. Poucos entenderam o motivo da celebração. Se continuar nesse caminho de concessões sucessivas, daqui para frente corre o risco de ser reduzida a uma outra bela foto emoldurada, peça de museu, lembrança de um passado que um dia foi “glorioso”.
E isso sem falar no olhar oblíquo — e cada vez mais poderoso — do gigante asiático. A China atropela todos sem pedir licença, eletricamente, como um trem-bala fora de controle, redefinindo as rotas comerciais globais através da Iniciativa do Cinturão e Rota, seu ambicioso projeto de US$ 1 trilhão que conecta três continentes.
A fotografia no Salão Oval da Casa Branca ficará para a história. Resta saber se como símbolo de uma transição necessária ou como epitáfio de uma era que não soube se reinventar a tempo. Para a Europa, a escolha ainda é possível. Mas o tempo urge, e as filas de espera não perdoam quem demora demais para decidir.
*Gudryan Neufert é jornalista, com passagens por TV Globo, TV Record e SBT, além de graduações em Jornalismo (PUC-PR) e História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).




