Avenida Faria Lima: contaminada pelo crime organizado que ingressou nas financeiras. (Foto: Redes Sociais)


O Brasil virou terreno fértil para o crime organizado. Essa é a conclusão de uma força-tarefa formada pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP), Polícia Federal (PF) e Receita Federal, que deflagrou a Operação Carbono Oculto em oito estados. O alvo: um esquema bilionário de fraude em combustíveis e lavagem de dinheiro, com supostos vínculos com o Primeiro Comando da Capital (PCC).

Entre 2020 e 2024, cerca de R$ 52 bilhões foram movimentados por meio da importação irregular de metanol. O produto, que deveria abastecer indústrias químicas e de biodiesel, era desviado para cerca de 1.000 postos de combustíveis, onde era usado para adulterar gasolina.

Fintechs e fundos: a engrenagem da lavagem

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O dinheiro sujo era “lavado” por meio de uma rede complexa que envolvia pelo menos 40 fundos de investimento e diversas fintechs. Segundo o promotor João Paulo Gabriel, do MPSP, a ausência de regulação no setor criou um vácuo que permitiu a bancarização da criminalidade. “Esse mecanismo passa todo tipo de dinheiro, de todas as vertentes criminosas”, afirmou.

A fintech BK Bank foi identificada como um “banco paralelo” que centralizava movimentações de empresas de fachada. Entre 2022 e 2023, recebeu mais de 10,9 mil depósitos em espécie, somando R$ 61 milhões — prática considerada incompatível com sua natureza jurídica.

Outro caso emblemático é o do InoveBanco, do empresário Patrick Burnett, preso preventivamente. A fintech teria lavado R$ 7,5 bilhões usando imóveis e carros de luxo. A empresa operava com “contas gráficas”, que não são abertas em nome do verdadeiro titular, dificultando bloqueios judiciais e rastreamento.

Instituições financeiras sob suspeita

O InoveBanco vendia serviços de pagamento de duas instituições autorizadas pelo Banco Central: BS2 e Adiq. Ambas são investigadas por suposta omissão de informações ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). A BS2 nega envolvimento e afirma ter encerrado a parceria com o InoveBanco após a operação.

Copape e o elo com o PCC

A empresa de combustíveis Copape também está na mira. Seus sócios são investigados por sonegação fiscal de R$ 7,6 bilhões e lavagem de dinheiro. A Receita aponta que a empresa usava os mesmos 40 fundos para ocultar patrimônio. Há ainda suspeitas de espionagem contra a concorrente Raízen, com grampos telefônicos e envolvimento de policiais.

Críticas ao Banco Central e reação da Receita

As investigações apontam falhas na atuação do Banco Central, acusado de ter papel “cartorário” na fiscalização. O secretário da Receita Federal, Robinson Barreirinhas, afirmou que o crime organizado está se bancarizando. “A fintech não tem agência, não é bancária. Como é que o dinheiro entra ali?”, questionou.

Como resposta, a Receita anunciou uma instrução normativa exigindo que fintechs prestem as mesmas informações que os bancos. A medida havia sido revogada no início do ano após críticas, mas agora é vista como essencial para fechar o “vácuo regulamentar”.

As operações Carbono Oculto e Concierge já têm mais de 350 pessoas e empresas sob investigação. A força-tarefa busca entender a expansão da organização criminosa para outros estados e responsabilizar todos os envolvidos. O governo federal considera as ações um marco no combate ao crime financeiro e na proteção da economia nacional.