O primeiro-ministro Narendra Modi declarou apoio e solidariedade aos aliados americanos. (Reprodução: TV)


Brasil, China e Rússia condenam a ofensiva de Washington e Tel Aviv, enquanto Índia e monarquias árabes do bloco criticam a retaliação de Teerã.

O agravamento do conflito no Oriente Médio, desencadeado pelos ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã e a subsequente resposta de Teerã, provocou uma ruptura profunda na coesão dos BRICS.
O bloco, que passou por um robusto processo de expansão nos últimos anos, enfrenta agora a dificuldade de conciliar os interesses de seus novos e antigos membros — que incluem desde potências nucleares como a Rússia e a China até aliados estratégicos de Washington, como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos.
Enquanto Brasília, Pequim e Moscou condenaram formalmente a operação conjunta iniciada no sábado, 28 de fevereiro, outros integrantes do grupo — Índia, Arábia Saudita e Emirados Árabes — optaram por omitir críticas aos bombardeios ocidentais. Em contrapartida, estes últimos condenaram com veemência os disparos de mísseis iranianos contra bases militares situadas em solo árabe.

Um bloco sem voz comum

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Diferente de julho de 2025, quando o grupo conseguiu emitir uma nota consensual após um episódio de tensão semelhante, a atual conjuntura inviabiliza uma frente diplomática unida. Fontes diplomáticas consultadas pela reportagem indicam que, embora o governo brasileiro tenha tentado consultas internas, não há previsão de uma declaração conjunta.
Interlocutores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva atribuem a paralisia a dois fatores: a gravidade da crise atual e o fato de a presidência rotativa do bloco estar sob o comando da Índia em 2026. Sob a gestão de Narendra Modi, Nova Déli tem estreitado laços com Tel Aviv, consolidando uma parceria militar histórica que remonta aos conflitos com o Paquistão.

O fator Trump e a morte de Khamenei

A crise escalou após os bombardeios que resultaram na morte do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, além de oficiais do alto escalão. O presidente norte-americano, Donald Trump, justificou a ofensiva como uma medida preventiva contra a retomada do programa nuclear de Teerã. O regime iraniano, que nega fins militares em sua produção de energia atômica, respondeu com mísseis contra Israel e instalações nos países do Golfo, arrastando para o conflito vizinhos como a Síria e o Líbano.

As reações dentro dos BRICS desenham o mapa das lealdades na nova ordem global:

  • Brasil: O Ministério das Relações Exteriores adotou uma postura de equilíbrio crítico. Condenou a ação de Israel e EUA por “violar a soberania de terceiros” e, posteriormente, solidarizou-se com as monarquias árabes atingidas pela retaliação iraniana. O assessor especial para assuntos internacionais, Celso Amorim, classificou o assassinato de um líder de Estado em exercício como “inaceitável”.
  • Rússia e China: Principais aliados de Teerã, utilizaram retórica mais dura. Vladimir Putin classificou o ataque como uma “violação cínica do direito internacional”, enquanto Pequim reiterou sua oposição firme ao que considera uma agressão à soberania nacional.
  • Índia e Países Árabes: Focaram suas críticas na “integridade territorial” das nações do Golfo, poupando Washington de condenações diretas.

O limite da expansão

Para especialistas, o racha expõe as contradições do “Brics+” (a versão ampliada do grupo). “A expansão trouxe representatividade, mas também trouxe o conflito para dentro de casa”, afirma Ana Elisa Saggioro Garcia, professora de Relações Internacionais da PUC-Rio. Segundo a analista, o grupo demonstra estar longe de se tornar um sistema de segurança coletiva nos moldes da OTAN.
O retorno de Donald Trump à Casa Branca também é visto como um catalisador dessa fragmentação. Para o professor Pablo Ibanez, do Brics Policy Center, a política externa “imprevisível” e a pressão tarifária de Washington obrigaram os membros do bloco a priorizarem estratégias individuais de sobrevivência em detrimento da articulação coletiva. O silêncio dos BRICS diante de uma crise desta magnitude sugere que o grupo, no momento, perdeu a centralidade como fórum de decisão geopolítica.

(Por BBC/Da Redação)