“A opinião pública deixou de ser apenas um termômetro do poder e passou a ser um motor da democracia.” A afirmação do cientista político Antonio Lavareda sintetiza o tom da entrevista concedida ao BC TV, do portal Brasil Confidencial, nesta quarta-feira (18/12). Ao analisar o cenário de polarização, judicialização e desconfiança institucional, Lavareda destacou que as pesquisas de opinião revelam não só desejos e aspirações dos cidadãos, mas também os limites do sistema eleitoral, a exclusão provocada pela abstenção e os riscos de interpretações precipitadas sobre 2026.
A seguir, confira os principais trechos da entrevista e, abaixo, assista à íntegra da conversa com Antonio Lavareda.
Camila Srougi – A gente olha a situação de hoje, com tensões institucionais, disputas de narrativa e um clima de eleição permanente. Como é que você define o papel da opinião pública nesse momento?
Antonio Lavareda – Olha só, a opinião pública, outra coisa não é. Quando nós chamamos de opinião pública, na verdade, nós estamos falando de eleitores, estamos falando de consumidores, estamos falando de cidadãos. É disso que se trata.
E, quando nós usamos a expressão opinião pública, isso, frequentemente, é associado à medição dos rumores, dos sentimentos, das opiniões, das atitudes desse universo.
E, com base nessas medições, governantes recebem inputs, os governantes tomam a temperatura da sociedade, conhecem seus desejos, suas aspirações, os políticos também, de governo, de oposição, e a própria sociedade, de certa forma, conhece a distribuição das preferências, das opiniões dela própria.
Então, pesquisas de opinião pública, captando a opinião pública de uma sociedade, de um país, se tornaram, ao longo do tempo, e já há bastante tempo — o uso sistemático vai completar, daqui a poucos anos, 100 anos, se a gente toma como referência 1930 — um instrumento que termina sendo fundamental para o sistema democrático.
Camila Srougi – A gente vê um crescimento da desconfiança entre as próprias pessoas, não só nas instituições. O eleitor hoje confia menos no outro, nas informações, até no debate público. Que impacto isso tem na forma como a opinião pública se manifesta?
Antonio Lavareda – Olha, isso em alguns países, não só no Brasil, na Turquia também, em outros países, há um grau de pouca confiança no outro, ou seja, de cada cidadão nos outros cidadãos.
Há quem diga que isso explicaria, por exemplo, o nível de judicialização no Brasil. O Brasil tem uma das taxas de judicialização mais altas do mundo. Alguns explicam isso com base nessas atitudes de certa desconfiança de umas pessoas em relação às outras.
Eu tenho dúvidas a respeito e levanto a hipótese de que talvez o nosso sistema jurídico — o fato de que a justiça no Brasil é lenta, o fato de que tudo é muito passível de ser levado aos tribunais, o fato de termos o maior número de advogados, em termos relativos, do mundo, e mais faculdades de direito — talvez essa judicialização excessiva provoque a desconfiança entre as pessoas, e não o contrário. É uma hipótese com a qual trabalho.
De qualquer forma, ainda assim, na época das eleições, as pessoas no Brasil têm um sistema eleitoral que dispõe da obrigatoriedade do voto e, ainda assim, cerca de 76%, 77% das pessoas votam.
Quem não vota — por exemplo, na última eleição de 2022 — nós tivemos um exército de 32 milhões de pessoas que não votaram. Essas pessoas que não votaram, em grande medida, eram pessoas de baixa renda e de baixa escolaridade. É o típico cidadão que fica excluído.
Em boa medida, até no nosso caso, por algo que chamo de uma abstenção compulsória. Os custos de votar são muito elevados para a base da sociedade. Daí você tem essa abstenção tão elevada na base.
De resto, as pessoas participam, exercem seu direito de voto e nomeiam seus representantes.
Germano Oliveira – Você mencionou o funcionamento do sistema eleitoral. O que isso revela sobre a relação do eleitor com o voto?
Antonio Lavareda – As pessoas saíram para votar em 2022 para votar, por exemplo, nas cinco categorias de eleição: presidente, senador, governador, deputado federal e deputado estadual.
Pois bem. O ITEC fez uma pesquisa 11 meses depois da eleição de 2022 e perguntou para as pessoas se elas lembravam do nome do deputado ou deputada em que haviam votado. Só 29% responderam que lembravam. Ou seja, mais de 70%, um ano depois, não lembravam.
Isso é culpa de quem? É culpa do eleitor, que é desmemoriado? Não. É o sistema eleitoral. Você tem um voto proporcional de lista aberta em grandes distritos, que fez, por exemplo, no estado de São Paulo, em 2022, você ter 1.540 candidatos.
O cidadão tem a obrigação de escolher apenas um. Não faz muito sentido exigir que as pessoas façam esse exame detalhado. É impossível cotejar 1.540 candidatos.
Então, escolhem de última hora e, menos de um ano depois, esquecem em quem votaram.
Germano Oliveira – Você já fez mais de 92 eleições, viu de tudo um pouco. As pesquisas divulgadas agora indicam cenários muito antecipados. Fazer eleição hoje não é muito precoce?
Antonio Lavareda – Germano, você tem razão em boa medida. Agora, vejamos uma coisa. Na Nova República, tivemos nove eleições presidenciais. Nessa série histórica, candidatos que lideravam as pesquisas um ano antes da eleição venceram na maioria das vezes. Apenas três vezes isso não ocorreu.
Em 1989, porque Collor ainda não havia definido sua candidatura e quem liderava era Silvio Santos. Em 1994, quem liderava era Lula, e Fernando Henrique sequer aparecia nas pesquisas do final de 1993. E em 2010, quem liderava era Dilma Rousseff.
Nas outras seis eleições, os candidatos que lideravam venceram. Isso é um dado.
Outro dado: os candidatos vencedores tiveram, no primeiro turno, em média, cerca de 47% dos votos. Dois pontos a mais, dois a menos. Dilma teve menos, Collor também, numa eleição fragmentada.
A maior parte das eleições teve segundo turno. Portanto, a probabilidade de termos segundo turno no ano que vem é muito grande.
Quando você combina as pesquisas de hoje com a história eleitoral, isso vai fazendo mais sentido e sendo mais informativo.
Germano Oliveira – Há muita crítica às pesquisas eleitorais. Como você responde a isso?
Antonio Lavareda – Os institutos se dividem como qualquer atividade. Há institutos mais tradicionais, outros menos admiráveis.
Os grandes institutos — Datafolha, com 40 anos; o IPESP, com 39; o IPEC, com equipes experientes — nunca erraram na atribuição de vitória em eleições presidenciais. Nunca houve erro nisso.
Diferenças existem porque o quadro não é estático. Se fosse, não haveria campanha. O que se pode fazer é comparar os resultados finais das pesquisas com os resultados das eleições, fazendo comparações corretas.
Uma grande dificuldade é medir a abstenção. A abstenção é um comportamento socialmente não legítimo e, por isso, não é revelado integralmente nas pesquisas.
Na semana da eleição, 90% dizem que vão votar, mas comparecem menos de 80%.
Ainda assim, as pesquisas no Brasil têm tido desempenho bastante satisfatório, com métodos semelhantes aos das pesquisas de mercado, usadas por grandes empresas e marcas no mundo inteiro.
📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:
Antonio Lavareda: o estrategista que uniu ciência política, opinião pública e neurociência eleitoral

Por trás de algumas das campanhas eleitorais mais emblemáticas do país nas últimas décadas, o cientista político Antonio Lavareda consolidou-se como uma das principais referências brasileiras em estratégia política, análise de opinião pública e comunicação eleitoral. Com uma trajetória que transita entre a academia, o mercado e os meios de comunicação, Lavareda é hoje uma figura central no debate sobre o comportamento do eleitorado e os rumos da democracia brasileira.
Doutor em Ciência Política pelo IUPERJ e mestre em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Lavareda é Diretor-Presidente da MCI-Estratégia, Presidente do Conselho Científico do Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (IPESPE) e fundador do NeuroLab, laboratório pioneiro no Brasil dedicado à aplicação da neurociência ao estudo da política. Também atua como professor colaborador da pós-graduação em Ciência Política da UFPE.
Ao longo de sua carreira, participou da coordenação ou consultoria estratégica de mais de 100 campanhas majoritárias no Brasil — incluindo disputas presidenciais, estaduais e municipais — além de ter atuado em Portugal e na Bolívia. Sua abordagem combina análise empírica de dados, sensibilidade comunicacional e, mais recentemente, ferramentas de neuromarketing e neuropolítica, campo no qual é considerado um dos introdutores no país.
Lavareda é autor de 11 livros, entre eles “Democracia nas Urnas” (1991), obra de referência sobre o sistema partidário e os processos eleitorais da Quarta República (1945–1964), e “Emoções Ocultas e Estratégias Eleitorais” (2009), que explora os vínculos entre emoção e decisão de voto. Também organizou e coescreveu títulos como “A Lógica das Eleições Municipais” (2016) e “Voto e Estratégias de Comunicação Política na América Latina” (2015), reforçando sua atuação como ponte entre o universo acadêmico e o campo prático da política.
Além da produção intelectual, Lavareda é presença constante na mídia.
Com uma carreira marcada pela interseção entre ciência, estratégia e comunicação, Lavareda tornou-se um dos principais intérpretes do eleitor brasileiro — e um dos mais influentes formuladores de campanhas políticas no país.


