Imagine medir o sucesso de uma cidade não pelo tamanho dos seus bancos ou das suas indústrias, mas por uma pergunta simples: a vida das pessoas que moram ali é boa?
É exatamente isso o que faz o Índice de Progresso Social (IPS) Brasil 2026, divulgado nesta quarta-feira pelo instituto Imazon e organizações parceiras. O relatório passou o pente fino nos 5.570 municípios do país usando 57 indicadores sociais e ambientais. O diagnóstico? O Brasil caminha a passos de tartaruga na qualidade de vida, e a distância entre quem tem tudo e quem não tem o básico continua gigante.
A média nacional ficou em modestos 63,40 pontos (em uma escala de 0 a 100). É uma melhora tímida frente aos anos anteriores. “O progresso foi tímido. A maioria dos municípios subiu no máximo um ou dois pontos de um ano para o outro”, explica Melissa Wilm, coordenadora do IPS Brasil.
O contraste que define o país
Na liderança isolada pelo terceiro ano consecutivo está Gavião Peixoto (SP). Com apenas 4,8 mil habitantes, a cidade do interior paulista cravou 73,10 pontos. No extremo oposto, com a pior qualidade de vida do país, aparece Uiramutã (RR), com 42,44 pontos.
Essa distância não é um caso isolado, mas o reflexo de um padrão geográfico persistente:
- O topo: Das 20 cidades mais bem colocadas, 18 estão no Sul e Sudeste.
- A base: Das 20 piores, 19 estão nas regiões Norte e Nordeste.
Entenda a diferença: Enquanto o PIB (Produto Interno Bruto) mede a riqueza gerada pela economia, o IPS quer saber se essa riqueza de fato chega ao prato, à torneira e à escola do cidadão. O dinheiro gerado está virando benefício real? No Brasil de 2026, a resposta varia muito dependendo do seu código postal.
O ranking do bem-estar urbano
Abaixo estão os extremos do relatório. Nota-se como os estados de São Paulo e do Paraná dominam o topo do bem-estar, enquanto o Pará amarga a maioria das posições mais baixas.
Os campeões de qualidade de vida (Top 20)
Fernando de Noronha (PE) foi contabilizado como município no relatório por reunir dados suficientes.
| Posição | Cidade | Nota (0 a 100) |
|---|---|---|
| 1º | Gavião Peixoto (SP) | 73,10 |
| 2º | Jundiaí (SP) | 71,80 |
| 3º | Osvaldo Cruz (SP) | 71,76 |
| 4º | Pompéia (SP) | 71,76 |
| 5º | Curitiba (PR) | 71,29 |
| 6º | Nova Lima (MG) | 71,22 |
| 7º | Gabriel Monteiro (SP) | 71,16 |
| 8º | Cornélio Procópio (PR) | 71,16 |
| 9º | Luzerna (SC) | 71,10 |
| 10º | Itupeva (SP) | 71,08 |
| 11º | Rafard (SP) | 71,08 |
| 12º | Presidente Lucena (RS) | 71,05 |
| 13º | Adamantina (SP) | 70,97 |
| 14º | Maringá (PR) | 70,87 |
| 15º | Alto Alegre (RS) | 70,86 |
| 16º | Ribeirão Preto (SP) | 70,80 |
| 17º | Brasília (DF) | 70,73 |
| 18º | Barra Bonita (SP) | 70,71 |
| 19º | Araraquara (SP) | 70,70 |
| 20º | Águas de São Pedro (SP) | 70,66 |
Os maiores desafios sociais (as 20 piores)
| Posição | Cidade | Nota (0 a 100) |
|---|---|---|
| 5551º | Peritoró (MA) | 47,53 |
| 5552º | Cumaru do Norte (PA) | 47,43 |
| 5553º | Recursolândia (TO) | 47,39 |
| 5554º | São Félix do Xingu (PA) | 47,38 |
| 5555º | Bannach (PA) | 47,23 |
| 5556º | Trairão (PA) | 46,82 |
| 5557º | Uruará (PA) | 46,80 |
| 5558º | Santa Rosa do Purus (AC) | 46,70 |
| 5559º | Japorã (MS) | 46,23 |
| 5560º | Anapu (PA) | 45,91 |
| 5561º | Pacajá (PA) | 45,87 |
| 5562º | Amajari (RR) | 45,58 |
| 5563º | Portel (PA) | 45,42 |
| 5564º | Alto Alegre (RR) | 44,72 |
| 5565º | Jacareacanga (PA) | 44,32 |
| 5566º | Uiramutã (RR) | 42,44 |
| (Nota: Cidades como Oeiras do Pará, Ladainha-MG, Anajás-PA e Paranã-TO completam a lista das lanternas na faixa dos 47 pontos). |
Capitais: Curitiba brilha, mas nenhuma é perfeita
Entre as grandes metrópoles, Curitiba (PR) levou a medalha de ouro pelo segundo ano consecutivo. O segredo da capital paranaense é o equilíbrio: ela pontua bem em quase tudo, com destaque para a sustentabilidade (áreas verdes e controle de emissões de CO2).
Por outro lado, o fantasma da desigualdade ronda até os primeiros colocados. Curitiba esbarra em problemas graves de inclusão social, registrando um aumento preocupante no número de famílias em situação de rua.
No fim da fila das capitais, apenas duas ficaram de fora do grupo de alto desempenho nacional: Macapá (AP) e Porto Velho (RO), que amargam as últimas posições do bloco.
O Ranking das Capitais brasileiras em 2026:
- Curitiba (PR) — 71,29
- Brasília (DF) — 70,73
- São Paulo (SP) — 70,64
- Campo Grande (MS) — 69,77
- Belo Horizonte (MG) — 69,66
- Goiânia (GO) — 69,47
- Palmas (TO) — 68,91
- Florianópolis (SC) — 68,73
- João Pessoa (PB) — 67,73
- Cuiabá (MT) — 67,22
- Rio de Janeiro (RJ) — 67,00
- Porto Alegre (RS) — 66,94
- Natal (RN) — 66,82
- Aracaju (SE) — 66,35
- Vitória (ES) — 66,02
- Teresina (PI) — 66,02
- São Luís (MA) — 65,64
- Fortaleza (CE) — 65,15
- Boa Vista (RR) — 64,49
- Manaus (AM) — 63,91
- Belém (PA) — 63,90
- Rio Branco (AC) — 63,44
- Recife (PE) — 63,22
- Salvador (BA) — 62,18
- Maceió (AL) — 61,96
- Macapá (AP) — 59,65
- Porto Velho (RO) — 58,59
O paradoxo da Amazônia e os gargalos do país
O relatório traz um dado incômodo e contra-intuitivo: os municípios da Região Norte, que abrigam a maior floresta tropical do mundo, têm os piores indicadores ambientais do país.
A explicação destrói o mito de que estar perto da floresta significa ter qualidade ecológica. O IPS calcula o impacto humano real. Onde há desmatamento desenfreado, queimadas, emissão de gases poluentes e perda rápida de vegetação, a nota desaba. Por conta disso, o Pará ficou na última posição do ranking dos estados (55,80 pontos), enquanto o Distrito Federal lidera a lista das unidades federativas (70,73 pontos).
Onde avançamos e onde patinamos?
Para entender melhor como a nota do Brasil é construída, o IPS divide os dados em três grandes caixas:
- O teto (Moradia e Conexão): O brasileiro nunca esteve tão conectado. O acesso à internet e à telefonia foi o indicador que mais cresceu de 2025 para 2026. Além disso, a dimensão de “Necessidades Humanas Básicas” puxou a média para cima, impulsionada pelo componente de Moradia, que teve a maior nota setorial do país (87,95).
- O chão (Direitos e Oportunidades): A pior nota do Brasil está na dimensão de “Oportunidades”. O componente de Direitos Individuais teve uma média assustadora de 39,14 pontos.
- O sinal de alerta: A “Inclusão Social” vem caindo ano a ano desde 2024. Isso significa que as cidades brasileiras estão se tornando lugares menos tolerantes, com queda na representatividade política de minorias, aumento da violência contra vulneráveis e mais pessoas sem teto.
O retrato do Brasil em 2026 mostra comunidades que conseguem colocar fibra óptica nas casas e melhorar paredes e tetos, mas que ainda falham no básico: garantir dignidade, segurança jurídica e igualdade para quem vive nelas.





