Por Camila Srougi e Germano Oliveira
O acordo comercial entre Mercosul e União Europeia — assinado neste mês de janeiro, mas suspenso pelo Parlamento Europeu até decisão final — está no centro das discussões estratégicas sobre o futuro do agronegócio brasileiro.
O tema envolve não apenas comércio exterior, mas também exigências ambientais, sustentabilidade e competitividade internacional.
Em entrevista concedida nesta quarta-feira (28) ao programa BC TV, do portal Brasil Confidencial, o presidente executivo da Rede ILPF (Integração Lavoura-Pecuária-Floresta), Francisco Matturro, analisou os impactos do acordo. Ele defendeu a diversificação de mercados e destacou a integração lavoura-pecuária-floresta como caminho para aumentar a produtividade, reduzir emissões e fortalecer a posição do Brasil no comércio global.
Entrevistado pelos âncoras Germano Oliveira e Camila Srougi, Matturro avaliou que a ampliação e diversificação de mercados são fundamentais para que o país não fique dependente de um único bloco econômico.
Segundo Matturro, o Brasil já demonstra capacidade técnica e institucional para atender a rigorosos critérios sanitários, ambientais e socioeconômicos exigidos por mercados internacionais, sem comprometer sua posição como grande exportador de alimentos.
O executivo também destacou o papel da Integração Lavoura-Pecuária-Floresta como ferramenta central para recuperar áreas degradadas, aumentar a produtividade e reduzir emissões de carbono. A adoção de tecnologias baseadas em ciência, aliadas à correção e fertilização adequada dos solos, segundo Matturro, pode fortalecer a sustentabilidade do agro brasileiro e ampliar sua competitividade diante de acordos comerciais como o firmado entre Mercosul e União Europeia.
A seguir, leia os principais pontos da entrevista:
Camila Srougi – Vamos lá então, Matturro. As novas exigências ambientais da União Europeia têm gerado um embate direto com o agro-brasileiro. De um lado, Bruxelas afirma que está apenas protegendo o consumidor e o clima global. Do outro, setores produtivos no Brasil apontam para uma tentativa de barreira comercial disfarçada. Na sua visão, é possível atender esses critérios sem perder competitividade ou o Brasil precisa buscar novos mercados para não ficar refém dessas exigências?
Francisco Matturro – Bom, diversificação de mercado é sempre uma coisa absolutamente importante. Ninguém pode ficar preso a um mercado só, porque isso é perigoso e o comprador passa a definir as regras do jogo e também dos preços. Isso é complexo.
O Brasil sempre busca abertura de novos mercados para novos produtos e produtos que, muitas vezes, precisam cumprir regras sanitárias, ambientais e socioeconômicas com grandeza. E o Brasil faz esse papel e faz com muita competência.
Camila Srougi – O senhor é um grande defensor do sistema ILPF, né? Lavoura, pecuária e floresta. O produtor brasileiro já entendeu que a floresta em pé pode dar mais dinheiro do que o pasto degradado ou ainda existe uma resistência cultural no campo?
Francisco Matturro – Não, não há resistência nenhuma. O problema é recurso para que isso seja implementado.
Nós temos hoje no Brasil 159 milhões de hectares em pastagens, 101 milhões de hectares já com algum nível de degradação. Isso é degradação pela própria natureza, degradação por ventos, degradação por más práticas agrícolas. E esse é o trabalho que a Rede ILPF desenvolve: introduzir tecnologias novas, baseadas em ciência e em pesquisa, para que esse pasto deixe de ser degradado, passe a ser produtivo e passe também a deixar de emitir carbono para sequestrar carbono, porque toda pastagem ou toda terra com cobertura sequestra carbono.
Germano Oliveira – Professor Chiquinho, o projeto do ILPF, que o senhor é o presidente executivo, mostra que os agricultores brasileiros podem produzir até quatro safras, quando hoje produzem duas ou três safras no máximo. O senhor acha que esse projeto também prevê uma fertilização dos nossos solos? Porque hoje o ILPF trabalha também com a Embrapa e com parcerias de empresas privadas na área de fertilização, né?
Francisco Matturro – Sim. Então, nós temos que começar do começo. Primeiro, é um projeto da Embrapa, que em 2006 completa 20 anos de integração lavoura-pecuária-floresta no Brasil. A gente caminhou bastante rápido e, daqui pra frente, vai caminhar ainda mais rápido. A fertilização passa pelo seguinte: primeiro, correção do solo.
Nós temos solos com alto teor de acidez que precisam sofrer correção por calcário, aquilo que é a primeira aula na escola de agronomia ou em qualquer escola de agronomia. Então, se faz a correção desse solo, sistematiza fazendo curvas de nível, cortando as corredeiras de água para que parem de levar água e danificar os cursos d’água. Parem de levar enxurrada, fertilizante, nutrientes e matéria orgânica do solo para os cursos d’água.
Então, nós temos dois prejuízos: perdendo solo, perdendo a camada fértil, e comprometendo os cursos d’água, que, em última análise, vão abastecer os centros urbanos. Nós começamos corrigindo curva de nível. Aquele trilho do gado, que normalmente no passado ia beber nos cursos d’água, deixa de beber nos cursos d’água. Fazem-se reservatórios para que o gado beba uma água limpa, limpa de impurezas, limpa de areia. Então, é um gado muito mais saudável.
E aí, fazendo a correção do solo, nós começamos semeando uma leguminosa, que pode ser soja — normalmente é soja — ou outro tipo de feijão. Na sequência, se planta uma safra de milho com a forrageira, quer dizer, com o pasto junto. E, na sequência, tirando essa safra, você está colocando o gado novamente.
Isso é um processo em que, em dois ou três anos, você ganha 1% de matéria orgânica no solo. Um por cento, na natureza, em solo estabilizado, você levaria um século para conseguir. Com solo bem manejado, você consegue isso em dois ou três anos.
Germano Oliveira – No passado, o Brasil já foi autossuficiente em fertilizantes para ter mais produtividade na terra. Depois, a gente passou a importar fertilizantes da Europa, especialmente da Ucrânia, que é um dos grandes produtores. Em função da guerra, essas importações começaram a cair. Isso levou o Brasil a tentar voltar a produzir fertilizantes. Eu lembro que o governo Lula começou a falar de fazer fábricas para produzir fertilizantes. Como está essa questão? A gente não é dependente do fertilizante da Ucrânia?
Francisco Matturro – Sim, nós somos muito dependentes. Em que momento nós éramos autossuficientes, Germano? No momento em que a gente tinha uma produção muito pequena. Vamos lembrar que, 30 ou 40 anos atrás, o Brasil era importador de alimentos. Importava leite, importava carne. Você que já fez 20 anos — e eu também — se lembra que, na década de 90, o Brasil importou carne da Ucrânia com radiação nuclear daquele reator que explodiu naquelas imediações de Chernobyl.
Trinta anos atrás, o Brasil importava alimentos. Hoje, o Brasil é exportador líquido de alimentos, além de abastecer uma população de mais de 200 milhões de habitantes. Consequentemente, o consumo de fertilizantes aumentou muito.
O Brasil tem solos predominantemente pobres, que precisam de correção por adubo químico. O Brasil importa entre 80% e 85% dos fertilizantes que consome. Importa do Marrocos, do Canadá. Vamos fazer um parêntese do Canadá: nós temos jazidas de fertilizantes no Brasil que não podemos explorar por estarem próximas de reservas indígenas. E o fertilizante que vem do Canadá é explorado por tribos indígenas canadenses.
Ainda importamos fertilizantes da Rússia e da Ucrânia. Por incrível que pareça, mesmo com todas as dificuldades nas trilhas de navegação marítima, o Brasil consegue trazer fertilizante e continuar produzindo.
Agora, tem um detalhe importante: o Brasil é o país que mais cresce no desenvolvimento e aplicação de insumos biológicos, tanto defensivos quanto fertilizantes. No ano passado, o crescimento foi de 58%. É verdade que ainda sobre uma base pequena, mas está se desenvolvendo muito. E aí entra novamente a ciência, entra a pesquisa, porque precisamos de insumos biológicos com qualidade, que assegurem a sanidade do alimento produzido.
Germano Oliveira – O senhor citou Chernobyl. Eu me lembro que foi a usina de Chernobyl, que fazia quase divisa com a Dinamarca. Eu estive lá na época da explosão e o pessoal da Dinamarca estava apavorado com o consumo de pescados, porque eles comem muito peixe cru, salmão cru, pescado exatamente naquela região. A população estava com medo de consumir peixe contaminado por radiação. E agora o senhor mencionou que importamos carne com radiação, o que é preocupante.
Francisco Matturro – Nós importamos carne na década de 90, gado não. Nunca importamos gado de lá. Estou fazendo essa comparação para mostrar que, 30 anos atrás, nós éramos importadores de alimentos, e isso significava alimento muito mais caro para o brasileiro.
A gôndola do supermercado estava cheia de produtos importados. Hoje, produto importado você encontra numa boutique de luxo, muitas vezes por capricho, com a crença de que possa ser melhor que o nosso.
O Brasil é o país que mais cumpre regras nacionais. O Ministério da Agricultura é absolutamente rígido. A nossa agroindústria é muito regulada, muito controlada, para colocar alimentos seguros, com sanidade assegurada, tanto nas gôndolas dos supermercados brasileiros quanto no exterior.
📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:


