Manifestações nas ruas visam organizar a sociedade cubana contra o trumpismo. (Reprodução)


Três décadas depois de Fidel Castro ter cogitado a “Opção Zero” — um plano extremo de sobrevivência que previa racionamento estrito, suspensão do transporte público e fechamento de escolas — Cuba volta a encarar o fantasma da escassez absoluta. A ilha, mergulhada em sua pior crise desde o colapso soviético, vê o governo de Miguel Díaz-Canel recorrer a medidas semelhantes às dos anos 1990 e, ao mesmo tempo, abrir uma inesperada linha de comunicação com Washington.

“Esforço” e “criatividade”, pediu o presidente cubano na quinta-feira, ao reconhecer que negociações já estão em curso com os Estados Unidos. A pressão de Donald Trump, somada a mais de seis décadas de embargo, empurrou Havana a uma aproximação inédita. “Há troca de mensagens ao mais alto nível”, admitiu o chanceler Carlos Fernández de Cossío.

Em comunicado, a chancelaria surpreendeu ao propor renovar a cooperação técnica em áreas como combate ao terrorismo, narcotráfico e tráfico de pessoas. Para o historiador Rafael Rojas, do Colégio do México, “é insólito que Cuba pareça alinhar-se com as diretrizes da Estratégia de Segurança Nacional de Trump”.

Continua depois da publicidade

O peso da história

A memória das negociações passadas paira sobre o presente. Em 1994, durante a crise dos balseiros, Bill Clinton pressionou Havana a conter o fluxo migratório. Agora, observa Rojas, “fala-se em termos mais amplos: Cuba como neutralizador do fluxo migratório do Grande Caribe”.

Nos últimos cinco anos, mais de um milhão de cubanos deixaram o país — 10% da população. O temor de um êxodo massivo é central para Washington. “À Casa Branca interessa o controle político e a paz social em Cuba”, afirma Rojas. “Evitar tanto o êxodo quanto uma onda de repressão que empurraria para uma intervenção militar.”

Vozes da ilha

Nas ruas de Havana, a crise é tema único. Ramón, engenheiro aposentado de 78 anos, não esconde a indignação: “Continuamos em queda livre, sem ver o fim de tudo isso. Até quando, senhores?”. Incapaz de comprar carne, levou para casa apenas ossos: “Pelo menos faço um caldo para esquentar o corpo”.

Ana Julia T., 68 anos, resume com resignação: “Eu já vi o filme completo. Ninguém me conta história a essa altura”. Aposentada, vive de pensão exígua e do aluguel de um quarto para universitários. Sua maior preocupação é não conseguir visitar a mãe de 90 anos, em outro município, por falta de transporte.

Doris G., 72 anos, enfrenta a escassez de medicamentos. “Se caiu o número 14, você compra na última posição e geralmente não há nada. Terá que esperar o mês seguinte”, explica sobre o sistema de rodízio nas farmácias. “Não se pode pedir às pessoas que resistam com criatividade. Que raios estamos produzindo?”

O dilema econômico

Com turismo, remessas e exportação de serviços em colapso, economistas pedem reformas e abertura ao mercado. Mas o tempo parece curto. “O castrismo é especialista em ganhar tempo, mas o tempo está acabando”, alerta Sergio Ángel, da Universidade Sergio Arboleda.

O México, que havia se tornado principal fornecedor de combustível, suspendeu envios para evitar sanções, mas promete ajuda humanitária. Rússia e China mantêm distância. Havana, por sua vez, acusa Washington de “genocídio” e busca solidariedade internacional.

Um futuro incerto

Segundo pesquisa da Universidade Sergio Arboleda, 80% dos cubanos acreditam que a crise atual é pior que o Período Especial dos anos 1990. Para muitos idosos, “a última carta do baralho” é sobreviver sem apoio externo.

Entre medidas de racionamento e negociações difusas, Cuba caminha sobre uma corda bamba. “É possível que façam alguma concessão, como uma anistia de presos políticos, mas de modo muito gradual”, prevê Rojas.

Enquanto isso, nas casas e mercados da ilha, a pergunta ecoa: até quando?

Há um sistema que define o dia do mês em que cada pessoa pode comprar remédios, de acordo com o consultório em que está inscrita. “No dia que te toca, você vai e compra. Durante o mês, as posições vão rodando”, explica Doris G., 72, moradora de Centro Havana. “Se caiu o número 14, nesse mês você comprará por último e, geralmente, não há nada. Terá que esperar o mês seguinte, para ver se cai entre os primeiros lugares.”

Ex-cartógrafa, Doris diz não entender a estratégia oficial. “Não se pode pedir às pessoas que resistam com criatividade, nem que vamos comer o que pudermos produzir. Que diabos estamos produzindo?”, questiona.