O jornalista Vladimir Herzog, na redação da TV Cultura, onde era diretor de Jornalismo, quando foi preso e assassinado pela ditadura. (Foto: Arquivo)


A Advocacia-Geral da União (AGU) firmou um acordo judicial com a família do jornalista Vladimir Herzog, reconhecendo oficialmente a responsabilidade do estado por sua morte e garantindo indenização por danos morais e reparação econômica.

O ajuste, que prevê o pagamento de R$ 3 milhões, marca um avanço na reparação histórica de crimes cometidos durante a ditadura militar (1964-1985).

O pacto foi firmado menos de cinco meses após o início do processo judicial, evidenciando uma mudança na postura do governo em relação a violações dos direitos humanos no período ditatorial. Além da indenização, o Estado brasileiro se compromete a manter a prestação mensal já recebida por sua viúva, Clarice Herzog, a título de reparação econômica.

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Compromisso com justiça e memória

O advogado-geral da União, Jorge Messias, enfatizou que o acordo não é apenas uma reparação material, mas um compromisso ético e institucional com a justiça histórica. Ele destacou que a iniciativa reforça a disposição do governo federal em reconhecer as violações do passado e promover políticas voltadas à preservação da memória e à proteção dos direitos humanos.

A AGU tem buscado um modelo de resolução consensual de litígios em processos envolvendo violações históricas do Estado. Além do caso Herzog, a instituição mediou acordos significativos, como a titulação das terras dos quilombolas em Alcântara, no Maranhão, e a indenização por danos ambientais e sociais causados pelo rompimento da Barragem do Fundão, em Mariana, Minas Gerais.

A procuradora-geral da União, Clarice Calixto, destacou que reparação histórica não se trata apenas de reconhecer o erro, mas de garantir que episódios de injustiça não sejam esquecidos. “Construímos uma resposta à altura da provocação do jornalista Herzog, que dizia que quando perdemos a capacidade de nos indignar com as atrocidades praticadas contra outros, já não podemos nos considerar seres humanos civilizados”, afirmou Calixto.

Ato simbólico e impacto histórico

O acordo será enviado à Justiça Federal para homologação. No próximo dia 26 de junho, um ato simbólico será realizado na sede do Instituto Vladimir Herzog, em São Paulo, véspera da data em que o jornalista completaria 88 anos. O evento reunirá autoridades e familiares para reforçar a importância da reparação oficial do Estado.

O legado de Vladimir Herzog permanece como um dos marcos da luta pela redemocratização do Brasil. Sua morte, forjada como suicídio, gerou grande comoção nacional e levou milhares de pessoas à Catedral da Sé para um culto ecumênico, que simbolizou a resistência contra o regime militar.

Em 2018, a Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o Brasil por não ter responsabilizado os culpados e determinou que o Estado retomasse a investigação do caso. A decisão reforçou o entendimento de que crimes da ditadura são imprescritíveis, já que configuram crimes de lesa-humanidade.

Herzog foi jornalista, editor e defensor da liberdade de imprensa. Trabalhou em veículos como O Estado de S. Paulo, TV Cultura e Rádio BBC, sempre buscando uma imprensa livre e comprometida com a democracia. Quase 50 anos após sua morte, seu nome segue como um símbolo da luta por memória, verdade e justiça no Brasil.