A maior economia da Europa vive um paradoxo que define o seu tempo: embora a maioria dos alemães concorde que o país precisa de transformações urgentes, a disposição individual para arcar com os custos dessas mudanças é mínima.
Para o brasileiro, o cenário atual é de uma inédita crise de identidade na potência europeia. O modelo alemão enfrenta um “estresse hídrico” econômico. Em 2024, o país registrou um déficit fiscal de 2,6% do PIB, enquanto a inflação encerrou o ano em 2,2%. O desemprego, historicamente baixo, subiu para 6% no início de 2025. O outrora imbatível superávit comercial sofre pressões: embora a balança siga positiva, o país enfrenta um enfraquecimento nas exportações industriais para a China, seu principal parceiro, gerando um temor de desindustrialização.
O abalo nas gigantes: o pilar industrial em xeque
O prestígio alemão foi construído sobre grandes corporações que agora anunciam cortes drásticos para sobreviver à transição energética e à concorrência asiática.

- Volkswagen: A joia da coroa alemã, fundada em 1937, vive sua maior crise histórica. Pela primeira vez, a montadora confirmou que pode fechar fábricas em solo alemão. O plano de reestruturação prevê o corte de até 30 mil empregos nos próximos anos e uma redução de custos de € 10 bilhões para compensar o atraso na produção de veículos elétricos.
- BASF: A maior empresa química do mundo, pilar do setor desde 1865, sofre com os altos custos de energia após o corte do gás russo. A companhia anunciou o fechamento de várias plantas em sua sede em Ludwigshafen e o corte de cerca de 2.500 postos de trabalho, priorizando investimentos na China.
- Thyssenkrupp: O conglomerado industrial e siderúrgico, símbolo da reconstrução alemã no pós-guerra, enfrenta dificuldades na sua divisão de aço. A empresa anunciou planos de reduzir a capacidade de produção e cortar milhares de empregos devido à baixa demanda e aos altos custos de descarbonização.
- Continental: A gigante de pneus e tecnologia automotiva, com mais de 150 anos, anunciou o corte de 7.100 funcionários globalmente (cerca de 3% de sua força de trabalho) para economizar € 400 milhões anuais e aumentar a competitividade no setor de software automotivo.
Menos peso, mais fôlego
O jornal Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung (F.A.S.) consultou lideranças de diversos setores para desenhar a Alemanha de 2036. A “visão” mais comum não é a de um país com mais coisas, mas com menos entraves.
- Menos exaustão: Ricarda Lang, ex-líder do Partido Verde, projeta um país onde famílias não vivam no limite da exaustão, com moradia acessível e transporte público confiável.
- Menos burocracia: Nicole Büttner, secretária-geral do FDP (Partido Democrático Livre, de orientação liberal), e Christian Klein, CEO da SAP (gigante de software de gestão empresarial), defendem um Estado 100% digital. A meta é que mudar de endereço não signifique peregrinar por repartições com pilhas de papel.
- Menos escassez de mão de obra: O professor de robótica Tamim Asfour aposta em robôs humanoides para auxiliar no cuidado de idosos, suprindo o déficit de cuidadores humanos.
Do “País do Carro” ao “País dos Sistemas”

Moritz Schularick, presidente do Instituto para a Economia Mundial, sugere que a Alemanha precisa deixar de ser apenas o “país do automóvel” para se tornar o país dos sistemas inteligentes.
No setor financeiro, Franz von Metzler defende que o país deve se tornar uma “sociedade de acionistas”, entendendo que a previdência estatal sozinha não sustentará as próximas gerações.
O consenso possível parece ser o da eficiência. O desafio é transformar o temor da mudança em combustível para o “agir”, superando a cultura de debates intermináveis que paralisou a maior economia da Europa.
Perspectivas para 2026
Segundo o relatório econômico anual do Ministério da Economia da Alemanha, apresentado em janeiro, a previsão de crescimento do PIB para este ano foi ajustada para 1,0%. Esta estimativa é ligeiramente superior à de 2025 (que foi de apenas 0,2%), sinalizando o fim de um período de estagnação.
Em termos nominais (valor total da economia), as projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) apontam que o PIB da Alemanha deve atingir aproximadamente US$ 5,33 trilhões neste ano.
Fatores que influenciam o resultado:
- Estímulo fiscal: O governo Merz iniciou um grande pacote de investimentos em infraestrutura e defesa (cerca de € 500 bilhões previstos até 2028), o que deve começar a injetar fôlego na economia este ano.
- Consumo interno: Com a inflação estabilizada em torno de 2,2%, espera-se que o ganho real na renda das famílias impulsione o consumo.
- Desafios externos: A economia alemã continua sensível às tensões tarifárias (especialmente com os EUA e China) e à perda de competitividade da sua indústria pesada.
A recuperação é considerada “cíclica”, o que significa que o país está voltando a crescer após as quedas de 2023-2024. Porém, os economistas alertam que, sem reformas estruturais profundas na burocracia e na digitalização, o potencial de crescimento a longo prazo continuará limitado.



