O cenário urbano brasileiro está prestes a perder um de seus contornos mais familiares. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) deu início, neste mês, à retirada definitiva de cerca de 30 mil orelhões em todo o país. A medida sela o destino do protetor acústico de fibra de vidro que, por mais de cinco décadas, democratizou o acesso à comunicação e se tornou um símbolo do design nacional.
A decisão de remover os aparelhos baseia-se na obsolescência tecnológica e na inviabilidade econômica. Segundo a agência reguladora, o uso dos telefones públicos despencou com a onipresença dos celulares. Hoje, menos de 0,02% das chamadas no país partem desses terminais.
“A decisão segue critérios técnicos e visa otimizar os recursos do setor de telecomunicações”, afirma o superintendente de Outorga e Recursos à Prestação da Anatel, Vinícius Caram.
Do caos sonoro ao design premiado

O orelhão nasceu em 1972 da necessidade de solucionar um problema prático: como oferecer privacidade e proteção em calçadas barulhentas e sob o sol tropical? A solução veio da arquiteta sino-brasileira Chu Ming Silveira (1941-1997). Ela rompeu com o padrão das cabines fechadas europeias e americanas para criar os modelos Chu I e Chu II.
Feitos de fibra de vidro, leves e com acústica eficiente, os “telefones-capacete” logo se integraram à paisagem. O sucesso foi tamanho que o modelo foi exportado para países da América Latina e até para a China.
“O design do orelhão priorizava funcionalidade, economia e integração urbana. Foi uma solução genial para o ambiente brasileiro”, explicam técnicos do setor.

O auge e o declínio
No seu apogeu, em 2007, o Brasil chegou a ter 1,14 milhão de orelhões. Eles eram fundamentais em uma época em que ter uma linha fixa residencial custava uma pequena fortuna e levava anos para ser instalada. O som metálico das fichas caindo — solução criada para driblar a inflação galopante dos anos 80 — e, posteriormente, a era dos cartões magnéticos fazem parte da memória afetiva de gerações.
Entretanto, a revolução digital foi implacável. “O celular se tornou onipresente. Os orelhões perderam sua função social e econômica”, analisa o professor de telecomunicações da UFRJ, Carlos Affonso Souza. Atualmente, mais de 98% da população brasileira possui acesso à telefonia móvel.
O futuro: de pontos de voz a pontos de dados
A retirada será gradual, começando pelas capitais, com previsão de conclusão até o fim de 2026. Para evitar que essa história se perca, parte do acervo terá um destino nobre.
“Vamos doar parte dos orelhões para escolas, museus e centros comunitários que queiram utilizá-los em exposições ou atividades pedagógicas”, diz a gerente de sustentabilidade da Oi, Ana Paula Rodrigues.
A Anatel também estuda converter as antigas estruturas em pontos de Wi-Fi público. “A ideia é transformar o que antes era um ponto de voz em um ponto de dados, mais útil para a realidade atual”, afirma o conselheiro da Anatel, Emmanoel Campelo.
Apesar do desmonte em massa, a agência garante que manterá aparelhos em áreas remotas ou comunidades isoladas, onde o sinal de celular ainda não chega. Para o restante do país, o orelhão agora deixa as calçadas para entrar definitivamente na história do design e da sociologia urbana brasileira.


