O presidente Milei: economia faz água e derrota é avaliação do governo pelo eleitor. (FOTO: Reprodução)


A derrota do partido de Javier Milei nas eleições legislativas da província de Buenos Aires neste domingo provocou uma forte reação negativa nos mercados financeiros argentinos, revelando o grau de expectativa que investidores depositavam na continuidade da agenda liberal do presidente. Milei, eleito com uma plataforma de choque econômico e desmonte do Estado, viu sua legenda ficar cerca de 14 pontos percentuais atrás da coligação peronista, liderada por setores da oposição que resistem às reformas estruturais propostas pelo governo.

O resultado foi interpretado como um sinal de enfraquecimento político do presidente, especialmente por ocorrer na província mais populosa e economicamente relevante do país. Buenos Aires representa não apenas um termômetro político, mas também um centro de influência sobre o humor dos mercados. A frustração com o desempenho eleitoral do governo se traduziu imediatamente em uma fuga de capitais e queda acentuada dos ativos argentinos.

O índice Merval, principal indicador da Bolsa de Buenos Aires, despencou 11,5% nas primeiras horas de negociação, refletindo o temor de que Milei não consiga aprovar suas reformas no Congresso. O peso argentino sofreu uma desvalorização de 7%, atingindo o patamar histórico de 1.450 por dólar no mercado paralelo. Títulos soberanos em dólar, especialmente os com vencimento em 2035, caíram mais de 6 centavos, sendo negociados a 55,37 centavos. O risco-país, medido pelo JPMorgan, saltou em mais de 1.000 pontos, sinalizando o aumento da percepção de instabilidade.

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A reação internacional também foi imediata. O banco Morgan Stanley suspendeu sua recomendação de compra de ativos argentinos, citando o aumento da incerteza política e o risco de reversão das reformas. Analistas apontam que, sem apoio legislativo sólido, Milei poderá enfrentar dificuldades para avançar com medidas como privatizações, cortes de subsídios e liberalização cambial.

Em discurso após o resultado, Milei reconheceu a derrota e prometeu uma “autocrítica profunda”, mas reafirmou seu compromisso com a agenda de transformação econômica. Ele acusou setores da “casta política tradicional” de promover boicotes e desinformação, mas evitou confrontos diretos com os eleitores.

O episódio revela a fragilidade da governabilidade em um país marcado por polarização, inflação crônica e desconfiança institucional. A Argentina, que vive uma das piores crises econômicas de sua história recente, vê agora seu projeto de reconstrução liberal ameaçado por uma combinação de resistência política e volatilidade de mercado. Para Milei, o desafio será manter a confiança dos investidores sem perder o apoio popular — uma equação delicada que pode definir os rumos do país nos próximos anos.

As eleições de domingo foram uma espécie de avaliação do governo argentino

A derrota de Javier Milei nas eleições legislativas da província de Buenos Aires, ocorrida neste domingo, foi um marco político de grande impacto na Argentina. Embora se tratasse de uma eleição provincial, o resultado teve repercussão nacional e internacional, funcionando como um verdadeiro termômetro da popularidade do presidente e da viabilidade de sua agenda econômica liberal.

Que eleições foram essas?

Essas foram eleições legislativas provinciais, destinadas a renovar 46 cadeiras da Câmara e 23 do Senado da província de Buenos Aires, além de cargos municipais como vereadores e orientadores escolares em 135 municípios.

A província de Buenos Aires é a mais populosa do país, com cerca de 40% do eleitorado argentino, o que confere a esse pleito um peso político desproporcional em relação a outras regiões.

Tradicionalmente, essas eleições ocorrem junto com as nacionais, mas desta vez foram antecipadas estrategicamente pelo governador peronista Axel Kicillof, o que acabou nacionalizando a disputa. A antecipação coincidiu com uma série de crises no governo Milei, incluindo estagnação econômica, queda na popularidade, e um escândalo de corrupção envolvendo sua irmã, Karina Milei, secretária-geral da Presidência.

Como foi a derrota?

A coalizão peronista Força Pátria, liderada por Kicillof, obteve 47% dos votos, enquanto o partido de Milei, A Liberdade Avança, ficou com 33,8%, uma diferença de quase 14 pontos percentuais. O peronismo venceu em 6 das 8 seções eleitorais, incluindo os distritos mais populosos do chamado Conurbano Bonaerense, região que circunda a capital federal.

Essa derrota foi considerada a mais expressiva desde que Milei assumiu a presidência, e surpreendeu até os analistas mais críticos. O presidente havia declarado que esperava um “empate técnico” e chegou a afirmar que Buenos Aires seria “pintada de violeta”, cor de seu partido. O resultado, no entanto, mostrou um mapa eleitoral dominado pelo celeste peronista.

🔍 O que isso representa?

Para Milei, representa um enfraquecimento político às vésperas das eleições nacionais de meio de mandato, marcadas para 26 de outubro, quando serão renovados metade da Câmara dos Deputados e um terço do Senado nacional.

Para os mercados, foi um sinal de instabilidade: ações despencaram, o peso argentino caiu para seu menor valor histórico, e o risco-país disparou.

Para a oposição, especialmente o peronismo, foi uma reafirmação de força e uma possível plataforma para a candidatura presidencial de Axel Kicillof em 2027.

Para a governabilidade, acende um alerta: Milei conta com apenas 38 deputados de 257 e 6 senadores de 72, o que torna sua agenda de reformas altamente dependente de alianças que estão se desfazendo.