O jornalista e ex-correspondente internacional, Moisés Rabinovici durante a entrevista no BC TV


Moisés Rabinovici, respeitado jornalista e analista de política internacional, ex-correspondente da imprensa brasileira nos Estados Unidos, Europa e Oriente Médio, participou do programa Jornal BC TV, do portal Brasil Confidencial. Em entrevista exclusiva aos jornalistas Germano Oliveira e Camila Srougi, Rabinovici detalhou a complexa situação dos conflitos no Oriente Médio e na Ucrânia, o recente confronto entre Israel e Irã, e a intrincada relação entre Donald Trump e Vladimir Putin.

Com décadas de experiência cobrindo guerras, Rabinovici ofereceu uma perspectiva singular sobre as transformações e permanências dos conflitos.

“No meu tempo (de correspondente internacional), você ia ao front. Acompanhava um lado da guerra. Depois, ia para outro front e acompanhava o outro lado. Hoje não existem mais fronts. Hoje, as fronteiras estão nas cidades”, afirmou Rabinovici, destacando a principal mudança na natureza das guerras.

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Ele descreveu um cenário em que “os inimigos atacam as cidades dos outros”, utilizando “mísseis balísticos que atingem grandes centros habitacionais” e “drones que atravessam fronteiras e explodem por controle remoto”. Essa evolução tecnológica transformou a atuação do jornalista em zonas de conflito:

“Essa foi a principal mudança nas guerras. Antes, você podia presenciar. Hoje sou apenas mais um espectador. Você não sabe onde, não tem informação de onde o míssil vai cair”, lamentou.

A cobertura moderna exige rede e agilidade:

“É preciso estar ligado a uma rede de jornalistas que tenham o mesmo propósito. Quem souber onde caiu o míssil informa, e todos vão até lá verificar os estragos — se destruiu uma casa, se matou uma família ou uma pessoa. Essa é uma grande diferença entre as guerras passadas e as de hoje.”

O fator Donald Trump e o cenário global

Para Rabinovici, a maior mudança é a presença de Donald Trump no cenário político.

“A maior diferença de todas, hoje, é o Trump. Temos um Donald Trump que deixou o mundo em grande incerteza”, declarou o analista.

Ele relacionou diretamente a atuação de Trump aos atuais conflitos:

“É daí que temos a Ucrânia, o Irã, Gaza e Israel — conflitos nos quais ele tem uma mãozinha.”

Sobre o Irã, Rabinovici afirmou:

“No Irã, ele bombardeou as principais usinas nucleares.”

Quanto à guerra entre Israel e Hamas, destacou a pressão de Trump sobre Netanyahu:

“Na guerra de Gaza e Israel, ele pressionou tanto Benjamin Netanyahu que, há poucos instantes, foi anunciado um acordo de cessar-fogo, que será detalhado pelas delegações israelense e palestina em Doha, no Catar.”

A situação na Ucrânia, por sua vez, é ainda mais delicada. Rabinovici relembrou a promessa de campanha de Trump:

“Na Ucrânia, ele prometeu acabar com a guerra 24 horas depois da posse, em janeiro. Mas a situação é muito mais difícil.”

Segundo o analista, após uma ligação entre Trump e Putin, ocorreu “o pior bombardeio da guerra em quase três anos”.

“Putin lançou ataques massivos com mísseis de cruzeiro e balísticos, drones, atingindo cidades ucranianas. E os Estados Unidos afirmam que não têm mais baterias antimísseis para enviar à Ucrânia.”

Em meio à crise, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky contatou Trump, que prometeu manter o envio de baterias antimísseis.

Tréguas e desdobramentos dos conflitos

Questionado sobre a efetividade das tréguas, Rabinovici mostrou-se otimista quanto ao acordo entre Israel e Hamas:

“Acho que essa trégua pode vingar. São 60 dias em que Israel se compromete a não atacar o Hamas, o Hamas promete recuar suas tropas para as posições do primeiro cessar-fogo, e libertar 10 reféns vivos e mais 18 mortos.”

A condição imposta pelo Hamas é clara: “Enquanto houver negociações, haverá trégua.”

Rabinovici também destacou as mudanças no Oriente Médio após o ataque do Hamas a Israel, em outubro de 2023:

“Houve uma mudança. O eixo da resistência do Irã foi abalado. A segurança do Irã acabou. Israel destruiu o Hezbollah. O Hamas está destruído, reduzido a uma brigada. O mundo árabe, que era contra a nuclearização iraniana, suspira aliviado. Não haverá mais um inimigo tão bem armado quanto a teocracia iraniana.”

Trump, o negociador

A escolha de Donald Trump como mediador de negociações de paz levanta dúvidas.

“Geralmente estamos acostumados a ver negociações de paz sendo tratadas por quem prega a paz. E agora, as duas últimas foram ancoradas por Trump, que não tem esse discurso. Qual a lógica? Ele quer ganhar o Prêmio Nobel da Paz deste ano”, revelou Rabinovici.

O analista relembrou promessas de campanha de Trump:

“Ele dizia que, se estivesse no poder, o Hamas jamais teria atacado Israel como fez em 7 de outubro, matando 1.200 pessoas e iniciando essa guerra.”

Sobre a Ucrânia, Rabinovici observou:

“Trump prometia acabar com a guerra em 24 horas, mas parece que não contava com a teimosia de Putin.”

Ele criticou a postura do presidente russo:

“Putin condena as invasões de todos os países, menos a dele. Acha que tem direito de invadir a Ucrânia e tomar suas terras.”

Rabinovici descreveu a brutalidade dos ataques russos:

“O ataque da última noite foi brutal. Alvo: população civil. Nenhum objetivo militar.

Já a Ucrânia, quando ataca a Rússia, mira alvos militares — aviões em bases, fábricas de drones. Putin destrói luz, água, calefação no inverno, prédios civis.”

Apesar de Zelensky ter aceitado proposta de paz de Trump, Putin não respondeu positivamente.

“Depois de mais de uma hora de conversa com Putin, Trump disse que não estava nem um pouco satisfeito com o que ouviu.”

Rabinovici concluiu com uma análise direta:

“Quem criou Putin foi o próprio Trump. Tentou conciliação com ele e desprezou Zelensky. Houve um show de agressividade e brutalidade contra Zelensky na Casa Branca, mas ele conteve a raiva e manteve relações com os EUA. Agora, sofre ataques do amigo de Trump, Vladimir Putin.”

📺 Assista à entrevista completa com Rabinovici, acessando aqui: