Em depoimento nesta terça-feira (19) à Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado Federal, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, rechaçou a partidarização dos debates e revelou que o corpo técnico da instituição está em “luto” devido às investigações da Polícia Federal sobre o Banco Master.
Diante da pressão de parlamentares da oposição e da base governista, Galípolo adotou tom institucional firme para blindar o órgão:
“O Banco Central não será usado como palanque político.”
A declaração ocorreu após questionamentos incisivos sobre supostas irregularidades ocorridas na gestão de seu antecessor, Roberto Campos Neto, indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.
Escândalo do Banco Master e o “luto” institucional
O ponto mais crítico da sabatina envolveu o Banco Master. A Polícia Federal apura o afastamento de dois servidores de carreira do BC, suspeitos de fornecer informações privilegiadas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro em troca de vantagens financeiras.
Galípolo classificou o caso como um dos mais graves já registrados na história do Banco Central e destacou o abalo moral entre os funcionários:
“O episódio é dos mais graves da história da instituição e o corpo técnico do BC está em ‘luto’.”
Embora tenha ponderado que “apenas a Justiça poderá determinar o que de fato ocorreu”, o presidente do BC enfatizou que os indícios são alarmantes e geraram forte impacto interno.
Questionado pelo presidente da CAE, senador Renan Calheiros, sobre o registro de 24 visitas de Daniel Vorcaro ao Banco Central durante o mandato de Campos Neto, Galípolo justificou a frequência dos encontros sob a ótica técnica. Segundo ele, agendas extensas são praxe em se tratando de instituições sob severa pressão financeira ou em vias de liquidação e intervenção. O executivo informou ainda que o caso foi formalmente reportado ao Ministério Público cerca de seis meses após a detecção dos primeiros indícios de fraude.
Conta bolsão e governança
Os senadores também cobraram explicações sobre dados incorretos atribuídos a Roberto Campos Neto em um processo envolvendo o Banco Santander. O caso versa sobre a utilização de uma “conta bolsão” e o preenchimento inadequado de informações, controvérsia que culminou em um acordo milionário.
Galípolo rebatou categoricamente as teses de revanchismo ou perseguição política à antiga gestão e defendeu o compliance do órgão:
“Não cabe ao Banco Central julgar pessoas, essa atribuição é da Justiça.”
Alerta estrutural: apagão na fiscalização
Ao final, o presidente da autoridade monetária mudou o foco para a crise estrutural da autarquia. Galípolo apresentou dados alarmantes sobre o encolhimento do quadro funcional, apontando a perda de aproximadamente 1.300 servidores ao longo da última década devido a restrições orçamentárias.
De acordo com o dirigente, o déficit de pessoal já compromete a capacidade operacional de auditoria do sistema financeiro nacional. Ao traçar um paralelo com os padrões de supervisão internacionais, Galípolo foi pragmático ao projetar o futuro imediato da instituição: na prática, o BC será obrigado a priorizar quais áreas e ativos conseguirá fiscalizar daqui em diante.


