Eduardo Marini


Por Eduardo Marini*

Cena um – Dias atrás, uma mulher levou o boneco reborn da filha de quatro anos, e também a criança, a uma Unidade Básica de Saúde (UBS) de Itajaí, Litoral Norte de Santa Catarina. Queria simular a vacinação do brinquedo e lacrar nas redes sociais com a postagem do episódio. A profissional que fez o atendimento, atesta a secretaria municipal de saúde, chegou a pedir a carteira de vacinação do “bebê”. Ao perceber que se tratava de uma peça hiper-realista, negou o procedimento com o argumento óbvio de que aquilo não era brincadeira e os materiais, de uso exclusivo em humanos, não poderiam ser desperdiçados. A mulher teve a cara de pau de retrucar. “O que é que tem? É só abrir uma seringa e uma agulha e fingir que deu.” E de deixar a UBS “exaltada”, segundo o relato dos atendentes.

Cena dois – Uma mulher de 25 anos entrou aos prantos numa Unidade de Pronto Atendimendo (UPA) de Guanambi, na Bahia, por volta das 23h do domingo (18) em busca de tratamento para uma reborn que havia comprado um mês antes, pela internet, por R$ 2,8 mil. Na ida, pediu ao motorista do Uber para ir mais rápido porque “o bebê estava com muita dor”. Reconhecida por uma vizinha que acabara de ser atendida na UBS, foi reconduzida para casa. “Era uma criança bem realista. Só percebi depois que levantei o paninho do rosto” disse a senhora. “Ao descer do veículo, a jovem foi reconhecida por uma senhora que tinha acabado de ser atendida na unidade de saúde. A mesma estranhou a situação e logo notou ser um bebê de borracha. A senhora e um paciente que estava de saída da unidade orientaram a jovem e o motorista a voltar para casa, evitando que a mesma tentasse o atendimento na unidade de saúde para a boneca”, esclareceu a prefeitura municipal em nota.

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Como em quase tudo em que servem de suporte no Brasil, as redes sociais transformaram a onda de bebês reborn em um festival nacional de absurdos e loucuras. Convenhamos: os especialistas possuem inúmeros recursos psicológicos e psiquiátricos para amenizar carências, até as mais profundas, que não sejam convivências perigosas com simulacros de seres humanos feitos de silicone. O negócio é lucrativo. Os preços por unidade partem de R$ 1 mil e chegam a R$ 40 mil. “Maternidades” reborn organizam roteiros de hotéis, restaurantes e entretenimento para clientes endinheirados que visitam grandes centros em busca dessas peças. Oferecem “partos” (o boneco é colocado em um balão, estourado na frente do cliente) e até “carteira de vacinação” – isca de marketing bem bolada para o retorno da freguesia.

Preocupados com os efeitos nocivos da maré reborn, envolvida na atual atmosfera neurótica de rotinas e procedimentos “realistas”, psicólogos e psiquiatras entraram em campo destacando o perigo da falta de percepção do limite entre a convivência saudável de crianças, jovens e adultos com bonecos e a relação doentia com um pedaço de material inorgânico. Em relação às crianças, ainda há o perigo do rompimento das relações belas e fantasiosas com o mundo mágico das personagens e animais que se movimentam e falam em toda a infância – e que não são carregadas de confusão psíquica e mental da infância à adolescência e até mesmo à idade adulta, como se tem visto à fartura de exemplos.

Na infância, minha filha, hoje com 22 anos, nos dava canseira e muitas vezes deixava a van da escola à espera com seus seguidos “ah, não, quero ver o Pica”. “Pica” era o Pica-Pau, o tagarela malandro criado em 1952 pelo genial Walter Lantz, considerado por muitos a maior personagem de desenho animado de todos dos tempos. Não me consta que ela ou outra criança cresceu achando que pica-paus falavam ou davam golpes e contragolpes em alguém. Nenhum fã adulto da Emília do Sítio do Pica-pau Amarelo, obra de Monteiro Lobato, outro gênio, cresceu achando que bonecas falam, comem, necessitam de vacina ou atendimento médico. Definitivamente: as relações com as bonecas reborn da adolescente baiana e da mulher catarinense do início deste artigo podem ser qualificadas de tudo, menos de saudáveis. E o pior é perceber que, em grande parte dessa febre, quem leva o problema para dentro de casa são os próprios pais. A senhora da vacina, por exemplo, foi à UBS com a filha de quatro anos e disse que a menina pediu o “procedimento”.

Como o destino adora pregar peças de ironia suprema, estourou nos últimos dias a desistência da cantora Jojo Todynho de adotar Francisco, um menino em situação de vulnerabilidade que agora caminha para a adolescência, que ela conhecera em uma viagem anterior a Luanda, capital de Angola. Todynho roeu a corda nas etapas finais do processo de adoção. Com a agravante de que, na idade de Francisco, adoções são bem mais difíceis de serem feitas em Angola, no Brasil ou em qualquer outro lugar do mundo. O vai-e-vem que só causa mais desgaste emocional aos menores. “Será difícil mantê-lo no nosso país, que está um caos. Vou apenas apadrinhar”, escapuliu a cantora, como se a situação atual do menino fosse melhor e ela não tivesse a mesma avaliação do Brasil quando conheceu Francisco. Por aqui, o Projeto de Lei do Senado (PLS) 370/2016 deverá modificar o Estatuto da Criança e do Adolescente (lei nº 8.069/1990) para punir adotantes que desistem durante o convívio com a criança, sem justificativa convincente, com a exclusão definitiva do cadastro de pretendentes e o cancelamento do direito de adoção, além de indenização ao menor por danos morais.

Criança não é boneco reborn para lacrar em rede social com barulho de adoção – embora tenha adulto que ache certo mergulhar na onda desequilibrada de “transformar” boneco em gente para fazer rigorosamente o mesmo.