A médica psiquiatra, Cíntia Sayd, durante entrevista ao BC TV


Por Camila Srougi e Germano Oliveira

O crescimento acelerado das apostas online transformou o Brasil em um dos maiores mercados mundiais de bets e acendeu um alerta na área da saúde mental. O que começou como entretenimento digital passou a ser associado ao aumento de quadros de ansiedade, depressão e endividamento, além de prejuízos familiares e profissionais, configurando um problema que já ultrapassa o âmbito individual.

Em entrevista ao programa BC TV, do site Brasil Confidencial, a médica psiquiatra Cíntia Sayd, especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e pelo CREMESP, afirmou que o transtorno do jogo é hoje classificado pela ciência como uma forma de dependência comportamental comparável ao uso de álcool e outras drogas, envolvendo alterações neurobiológicas no cérebro e exigindo tratamento especializado.

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Segundo a especialista, a facilidade de acesso às apostas pelo celular, aliada à promessa de ganho fácil e a um marketing agressivo presente na televisão, no rádio, na internet e nos estádios de futebol, cria um ambiente de alto risco, especialmente para populações vulneráveis, o que reforça a necessidade de conscientização, regulação e debate público sobre o impacto das bets na saúde coletiva.

A seguir, os principais trechos da entrevista concedida nesta sexta-feira (9):

Camila Srougi – Quando uma aposta deixa de ser entretenimento e se torna um problema de saúde mental?

Cíntia Sayd – Nós temos um quadro em saúde mental que nos alerta para uma possível doença, que se chama transtorno do jogo. É um transtorno que envolve um distúrbio de impulso. Uma simples aposta pode desviar e se tornar um problema que exige tratamento especializado a partir de alguns sinais.

Existem critérios diagnósticos para entendermos se aquilo se tornou, de fato, uma doença. A necessidade de jogar valores cada vez maiores, o descontrole, as tentativas de não jogar ou de jogar menos que se tornam infrutíferas, sem sucesso. Mesmo tendo prejuízos com o jogo, o indivíduo não consegue considerar esses prejuízos.

Prejuízos de relacionamento, financeiros, profissionais. Quando isso começa a afetar a vida da pessoa, a qualidade de vida e a qualidade da saúde, é um grande alerta.

Há também outros sinais: preocupação excessiva com jogos, pensar e repensar no que jogou, em como poderia ter ganho, criar novas estratégias para uma nova aposta. Começam comportamentos de mentira, engano, negação de que aquilo é um problema.

A pessoa passa a se endividar, pedir empréstimos a conhecidos, bancos, usar cheque especial, cartão de crédito. É uma escalada do problema.

Camila Srougi – O que a ciência já sabe sobre o mecanismo de dependência das bets e por que elas são tão viciantes?

Cíntia Sayd – A partir de 2013, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, da Associação Americana de Psiquiatria, classificou o transtorno do jogo dentro do grupo dos transtornos associados às substâncias.

Mesmo não havendo uma substância química, o comportamento é similar ao de alguém que usa álcool ou outras drogas. Existem processos neurobiológicos envolvidos.

Às vezes há a falsa ideia de que falta força de vontade, mas existe um cérebro que está sendo modificado. Temos um circuito chamado via dopaminérgica, associado à via mesolímbica, responsável pela liberação intensa de dopamina, neurotransmissor ligado ao prazer, motivação e controle de impulsos. É o circuito da recompensa.

Atividades básicas como comer, ter prazer, relações afetivas estimulam esse circuito. O cérebro entende isso como recompensa. Mas nas drogas de abuso e nos comportamentos compulsivos, esse circuito é hiperativado.

Há uma liberação excessiva de dopamina de forma recorrente e crônica, levando a uma desregulação. É como se esse circuito fosse sequestrado. O prazer já não é suficiente, a pessoa precisa de mais. Os prazeres cotidianos perdem importância.

Existe predisposição genética, perfil individual. Estudos mostram correlação com antecedentes familiares de abuso de álcool e drogas. O mesmo circuito está envolvido em outros comportamentos compulsivos: sexo, pornografia, comida, gastos. O controle está alterado.

Há áreas do cérebro ligadas à decisão, memória afetiva e emoção sendo acionadas repetidamente, levando à dependência. É um quadro que exige tratamento, pois o prejuízo funcional e a qualidade de vida ficam gravemente comprometidos.

Germano Oliveira – Essas doenças se caracterizam por ansiedade, depressão, e parece que isso virou um problema de saúde pública, sobrecarregando clínicas, o SUS e gerando altos custos. Como a senhora avalia isso?

Cíntia Sayd – É uma preocupação muito importante. São milhões de pessoas jogando, e dentro desse grupo há uma população vulnerável, vivendo na ilusão de controle e de ganho futuro.

Quando falamos da busca por serviços de saúde, precisamos pensar se a rede pública e privada está preparada para atender essa demanda. A conscientização é fundamental.

Germano Oliveira – Mesmo com medidas como a proibição do uso do Bolsa Família para apostas, as pessoas continuam jogando. Isso mostra a força da dependência. Por que as bets são mais viciantes do que jogos oficiais, como os da Caixa eletrônico?

Cíntia Sayd – Primeiro, pela facilidade. Todo mundo tem um celular na mão. É rápido, a pessoa não percebe quanto já jogou.

Há a promessa de ganho fácil, a ilusão de controle e um marketing extremamente agressivo, que atinge uma população que muitas vezes não percebe que o objetivo final é o lucro das empresas.

Germano Oliveira – Porque esse marketing é feito na televisão, no rádio, na mídia em geral e nos estádios de futebol. Usa jogadores e influenciadores. Esse tipo de propaganda deveria ser proibido ou controlado?

Cíntia Sayd –  É importante haver regularização das empresas e desse marketing agressivo. Existem ideias difíceis de implementar, como a autoexclusão das plataformas, onde a própria pessoa se registra para se impedir de jogar.

Mas isso exige uma ação do indivíduo, que muitas vezes está doente e sem controle. É um tema complexo, novo, que precisa ser muito discutido para gerar soluções mais efetivas.

Camila Srougi – Existe um perfil mais vulnerável ou qualquer pessoa pode desenvolver dependência?

Cíntia Sayd – É muito individual. Para desenvolver um transtorno psiquiátrico, vários fatores atuam juntos. Um deles é a predisposição genética, que não é destino.

O ambiente atua o tempo inteiro. A oferta sem limites favorece o problema. É como um alcoolista que fica o tempo todo dentro de um bar. Mas, no caso das bets, o acesso é livre, imediato.

A liberação de dopamina é tão rápida que a pessoa já emenda um jogo no outro. Parar é muito difícil.

Há muito estigma, falta de informação e conscientização. Muitas famílias só descobrem quando há um rombo financeiro enorme. Conheço casos de pessoas que perderam negócios inteiros porque o dinheiro era usado em bets.

As perdas, muitas vezes, são imensuráveis. É um problema extremamente grave.

📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV: