Bia Doria transforma resíduos naturais em esculturas que unem arte, memória e consciência ambiental - Divulgação


Por Germano Oliveira (SP)

A trajetória da artista plástica Bia Doria é marcada por raízes profundas na terra e pela memória afetiva da infância no interior de Santa Catarina.

Ao longo dos anos, a artista construiu uma obra que dialoga com a preservação ambiental e a consciência ecológica, transformando troncos queimados, mármore e vidro em esculturas que transitam entre o orgânico e o monumental.

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Bia Doria nos recebeu em seu ateliê, em Vila Nova Conceição, São Paulo, para mostrar o seu trabalho e dar uma entrevista exclusiva para o BC TV.

Na entrevista, Bia relembrou o ambiente familiar que moldou sua sensibilidade artística. “Foi nesse ambiente que aprendi a valorizar a natureza e a transformar a madeira”, disse.

Infância e matéria-prima

Filha de um fazendeiro e entalhador, cresceu observando o pai dar nova vida a árvores mortas, enquanto a mãe cultivava práticas de reaproveitamento e uso consciente dos recursos naturais.

Essa vivência, segundo a artista, sedimentou sua relação com a madeira e com o gesto de transformar resíduos em arte.

Antes de se dedicar integralmente às esculturas, Bia experimentou outras áreas, como a joalheria em pedras. O retorno à madeira, porém, foi decisivo. “A madeira é essencial na minha trajetória. É como se fosse uma extensão da minha própria história”, afirmou.

A influência de Frans Krajcberg

No início da carreira, soube que seu trabalho lembrava o que fazia o artista polonês naturalizado brasileiro Frans Krajcberg, referência mundial na arte ecológica. A aproximação com Krajcberg resultou em expedições pela Amazônia, onde Bia passou a observar troncos queimados, madeiras submersas e resíduos florestais para construir suas obras.

“Ele (Frans Krajcberg) me ensinou principalmente a observar a natureza e respeitar o que o material já traz consigo”, afirmou. Essa percepção tornou-se base para suas primeiras séries escultóricas, nas quais imperfeições e marcas naturais são valorizadas como parte da estética.

Expansão e internacionalização

Com o tempo, Bia Doria ampliou seu repertório e passou a trabalhar também com mármore, bronze e vidro murano. Apesar da diversidade, mantém a madeira como referência simbólica. Hoje, prefere o mármore pela durabilidade e praticidade: “O mármore é mais prático, você lava com água e sabão e ele fica como novo”.

Suas obras estão presentes em galerias de Nova York, Paris, Dubai, Singapura e Miami, além de espaços públicos e privados no Brasil. Esculturas de grande escala ocupam praças, jardins e ambientes corporativos, consolidando sua presença internacional.

Arte como consciência ecológica

Nos últimos anos, a artista tem direcionado sua produção para exposições de caráter sustentável. Restos de árvores recolhidos em áreas devastadas são transformados em esculturas que provocam reflexão sobre o impacto da ação humana no meio ambiente.

“Eu trago esses troncos meio queimados, ainda com restos de madeira, vou juntando tudo e transformo em escultura”, explicou.

Para Bia Doria, a arte é instrumento de conscientização. Sua obra mantém como eixo central a transformação da matéria natural em expressão estética e crítica, reafirmando a ideia de que a arte pode ser também um manifesto ambiental.

A seguir, leia alguns dos principais trechos da entrevista:

Germano Oliveira – Bia, você começou seu trabalho com esculturas ainda em Santa Catarina, onde nasceu. Seu pai, que também esculpia em madeira, muitas vezes usando restos ou madeira de árvores mortas, foi uma referência importante para você. Como essa influência dele aparece no seu trabalho hoje?

Bia Doria – Eu me tornei uma artista plástica sustentável por causa da minha infância. Nasci no interior de Santa Catarina, onde meu pai era fazendeiro — ele já é falecido — e cresci vendo aquelas araucárias sendo derrubadas. Na época, isso era comum no sul do Brasil para o desenvolvimento da região.

Ao mesmo tempo, dentro de casa, minha mãe aproveitava tudo o que vinha da natureza. Os pratos eram de madeira, as colheres de pau, tudo era feito a partir do entalhe. Foi nesse ambiente que aprendi a valorizar a matéria-prima natural e a transformar a madeira.

Depois, segui outros caminhos, tive diferentes experiências profissionais, viajei e trabalhei em várias áreas. E agora retorno a essa origem, trazendo toda essa bagagem para o meu trabalho artístico.

Germano Oliveira – Agora, quando você começou a desenvolver a sua arte de escultura, você começou pela madeira, não é?

Bia Doria – Comecei na madeira. Meus primeiros trabalhos foram nesse material, embora eu já trabalhasse com lapidação de joias em pedra. Em certo momento, surgiu um pedido para criar joias em madeira, e foi nessa busca pela matéria-prima que percebi o quanto a madeira estava ligada à minha infância.

A partir desse reencontro, comecei a desenvolver esculturas em madeira, e foi aí que tudo ganhou força. Quando fiz minha primeira escultura, uma colecionadora comentou que lembrava o trabalho de Krajcberg. Na época, eu nem sabia quem era. Fui pesquisar e descobri um grande artista com quem me identifiquei profundamente — era como reencontrar algo que já fazia parte de mim.

Decidi procurá-lo. Ele já era idoso, um homem difícil, com uma história marcada pela guerra, mas aos poucos consegui me aproximar. Fui até o sítio dele, na Bahia, e nosso início não foi fácil. Ainda assim, persisti. Algum tempo depois, quando ele esteve em São Paulo, consegui levá-lo ao meu ateliê. Ao entrar, ele disse que se sentia em casa. Sentou-se em um tronco e começou a me orientar, indicando caminhos, sugerindo formas — sempre com um olhar muito direto e exigente.

Com o tempo, ele me convidou a seguir seu legado de preservação da floresta e disse que eu seria sua discípula. A partir daí, começamos a viajar juntos pelo Brasil, em expedições por rios, mangues e regiões da Amazônia. Em lugares como Balbina, por exemplo, ele me ensinou a enxergar potencial escultórico nos resíduos da natureza, nas árvores submersas, nas formas deixadas pela intervenção humana.

Foi com esse olhar que desenvolvi minhas primeiras séries de esculturas, usando materiais recolhidos dessas regiões. Ele me ensinou técnicas, mas principalmente a observar — a entender a madeira, suas marcas, sua história. Muitas vezes eu queria um acabamento mais polido, e ele insistia no rústico, no natural, no respeito ao que a peça já trazia.

Seguimos próximos até o fim da vida dele. Depois que ele faleceu, comecei a expandir meu trabalho para outros materiais, como pedra, mármore, bronze e murano, mas a madeira — e tudo que aprendi com ela — continua sendo a base de tudo que faço.

Germano Oliveira – Você exporta suas obras até para a Alemanha. Para quais outros lugares você também exporta?

Bia Doria – Sim, eu trabalho com uma galeria que tem presença internacional, com unidades em cidades como Nova York, Paris, Singapura, Dubai e Miami. Eles distribuem minhas obras por essas galerias ao redor do mundo — eu fico responsável pela produção e envio.

Além disso, também tenho clientes que compram diretamente, seja por meio de arquitetos ou em feiras de arte. No Brasil, tenho uma presença forte: muitos clientes chegam por indicação de arquitetos e acabam adquirindo as obras diretamente comigo.

Como também produzo peças de grande escala, elas costumam ser destinadas a espaços amplos, como fazendas, chácaras, jardins, áreas externas e entradas de edifícios. Tenho obras espalhadas por várias regiões do país, incluindo lugares como Porto Alegre, Gramado, Curitiba, Rio de Janeiro e até no Mato Grosso.

Germano Oliveira – Hoje você prefere trabalhar mais com que tipo de obras?

Bia Doria – Hoje o que eu mais gosto é trabalhar com mármore, porque a madeira e o bronze dão muito trabalho de manutenção. Eu vi inclusive hoje uma foto no jornal de algumas obras minhas que foram adquiridas pela Tecnisa e que têm quase 20 anos — e estão bastante deterioradas, então agora vou entrar em contato para restaurar.

O bronze acaba se deteriorando com o tempo, então precisa de restauração. Já a pedra não: o mármore é mais prático, você lava com água e sabão e ele fica como novo.

Por isso, o mármore é o material que eu mais gosto hoje.

Germano Oliveira – Você realiza exposições constantes? Como funciona esse processo?

Bia Doria – Atualmente, eu estou fazendo quase só exposições sustentáveis, com foco em mostrar a sustentabilidade. A minha última exposição foi sobre madeiras retiradas de incêndios florestais.

Eu retiro restos de troncos que chegam aqui, às vezes até com fogo — quando a gente vai recolher, ainda tem que apagar as chamas. Eu trago esse tronco meio queimado, ainda com restos de madeira, vou juntando tudo e transformo em escultura.

Então, as minhas exposições têm sido com esse foco da sustentabilidade e da preservação da floresta.

Conheça Bia Doria

Bia Doria é uma artista plástica e empresária brasileira que ganhou projeção pública sobretudo a partir de sua atuação no meio político e social como ex-primeira-dama do estado de São Paulo, durante o mandato do ex-governador João Doria.

Nascida no interior de São Paulo, Bia Doria construiu sua trajetória inicial no setor empresarial, atuando em áreas ligadas à decoração e ao design, antes de se dedicar mais intensamente às artes plásticas. Seu trabalho artístico é marcado pelo uso de materiais reaproveitados e elementos naturais, com foco em temas como sustentabilidade, meio ambiente e consumo consciente.

Sua visibilidade aumentou significativamente após o casamento com João Doria, figura de destaque na política e no empresariado brasileiro. No período em que ele ocupou a Prefeitura de São Paulo e, posteriormente, o governo do estado, Bia assumiu um papel ativo em ações sociais e culturais ligadas ao Fundo Social de Solidariedade, além de projetos voltados à população em situação de vulnerabilidade.

Hoje, Bia Doria segue desenvolvendo sua carreira como artista, mantendo presença no circuito cultural e em exposições, além de continuar sendo uma figura recorrente em discussões sobre política, cultura e sociedade no estado de São Paulo.

Ateliê de Bia Doria

Endereço: Rua Brás Melilo, 87 – Vila Nova Conceição – São Paulo/SP
Visitação: Apenas com agendamento prévio