O Brasil abriga a maior proporção de empresas-zumbi entre 25 economias emergentes analisadas, segundo um estudo publicado na Revista Brasileira de Finanças. De acordo com os dados, 16,75% das companhias brasileiras listadas em bolsa operaram, em média, entre 2002 e 2021, sem gerar receita suficiente para cobrir os juros de suas dívidas — mais que o dobro da média dos países emergentes, de 7,58%.
O levantamento, conduzido por Alberto Granzotto, da Universidade Federal de Santa Maria, em coautoria com Igor Bernardi Sonza, Guilherme Kirch e Wilson Toshiro Nakamura, classifica como “zumbi” as empresas que, por dois critérios, demonstram fragilidade financeira persistente: baixa cobertura de juros (Ebitda inferior ao custo da dívida) e alta probabilidade de insolvência, medida pelo índice z-core.
A Turquia aparece em segundo lugar no ranking, com 13,75% de empresas-zumbi, seguida por Malásia (13,61%) e Índia (13,38%). No indicador dinâmico — que suaviza choques anuais ao considerar médias móveis de três anos — o Brasil também lidera, com 13,94%, frente à média de 5,49% dos emergentes.
O termo “empresa-zumbi” remonta à década de 1990, quando economistas como Ricardo Caballero e Anil Kashyap o usaram para descrever companhias japonesas mantidas artificialmente vivas por crédito barato, mesmo sendo improdutivas. No Brasil, o fenômeno parece ter raízes mais profundas.
“Essas empresas são mortas-vivas: não geram lucro, não investem e ainda assim continuam operando”, disse Granzotto. “Elas drenam recursos e reduzem a produtividade da economia como um todo”.
Especialistas apontam que a combinação de juros elevados, crescimento econômico anêmico, má gestão corporativa e baixa proteção a credores cria um ambiente fértil para a proliferação dessas companhias. “A má administração é um fator central”, afirma Paulo Feldmann, professor da FEA-USP. “Muitas empresas brasileiras são mal geridas, o que compromete sua eficiência e sustentabilidade.”
Vitor Vidal, economista da consultoria VVC, destaca o papel do ambiente macroeconômico: “O custo de capital no Brasil é tão alto que distorce os incentivos. Isso ajuda a explicar por que temos tantas empresas-zumbi em relação a outros países.”
O estudo também sugere que mecanismos de crédito e políticas públicas contribuem para a sobrevivência dessas empresas. “Em um mercado saudável, companhias improdutivas deveriam sair de cena. Mas no Brasil, elas encontram formas de se manter, seja por meio de crédito de alto risco, seja por programas de renegociação ou incentivos fiscais”, observa Granzotto.
A pesquisa utilizou como base o índice MSCI de mercados emergentes para selecionar os países analisados. A partir dessa amostra, foram avaliadas apenas empresas de capital aberto, o que reforça a gravidade do problema: mesmo entre companhias com acesso ao mercado de capitais, a fragilidade financeira é disseminada.
A presença persistente de empresas-zumbi levanta dúvidas sobre a eficácia da política monetária e fiscal no país. “Quando sinais econômicos são contraditórios, o investimento produtivo é desincentivado, e o capital acaba sendo alocado em negócios que não geram retorno”, conclui Vidal.





