Por Germano Oliveira (SP) e Adriana Blak (RJ)
A escalada dos combustíveis, os juros elevados e os impactos geopolíticos no comércio internacional estão sufocando a indústria brasileira e ampliando os desafios para o setor produtivo. O diagnóstico é de Rafael Cervone, presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (CIESP) e 1º vice-presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), em entrevista ao programa BC TV, do portal Brasil Confidencial, nesta quinta-feira (19).
Cervone alerta que o aumento do diesel e da gasolina, nos últimos dias, impulsionado pela crise no Oriente Médio, ameaça a logística e a produtividade das empresas.
O empresário e dirigente do setor industrial critica a falta de planejamento de longo prazo no Brasil, defende maior integração econômica na América Latina e cobra medidas estruturais para reativar o crescimento industrial.
Segundo Cervone, o cenário atual combina múltiplas crises simultâneas: guerra, custos elevados, falta de competitividade e escassez de mão de obra. “Não há bala de prata. É tudo junto”, afirmou. Para ele, a instabilidade global tem encarecido fretes, pressionado insumos estratégicos e exposto a vulnerabilidade da dependência comercial com a China, destino de cerca de 30% das exportações brasileiras.
Cervone avalia com cautela medidas emergenciais do governo, como a redução de impostos sobre combustíveis. Embora aliviem preços no curto prazo, não atacam causas estruturais. Ele defende diversificação de mercados e fortalecimento de cadeias produtivas regionais na América Latina, que, segundo ele, possui PIB equivalente ao dos Estados Unidos.
Outro ponto crítico no país hoje é a taxa de juros. Apesar da recente queda, a Selic segue em patamar elevado, sufocando investimentos produtivos. “Hoje compensa mais aplicar no mercado financeiro do que produzir. Isso é um absurdo”, disse. Cervone comparou o desempenho brasileiro com vizinhos latino-americanos: “Enquanto o Paraguai cresceu 37% nos últimos dez anos, o Brasil avançou apenas 2,2%”.
O empresário também destacou transformações nos modelos de negócio, impulsionadas pela digitalização e pela exigência de entregas rápidas. “O consumidor compra pelo celular e quer receber em até 90 minutos. Isso exige novas soluções logísticas, como drones e sistemas automatizados”, afirmou.
Para o presidente do CIESP, o Brasil precisa abandonar soluções improvisadas e adotar planejamento de longo prazo, como faz a China com seus planos quinquenais. “O país ainda é visto como o ‘país do futuro’, mas as novas gerações não têm mais paciência para esperar. Precisamos mostrar resultados concretos”, concluiu.
A seguir, leia alguns dos principais trechos da entrevista:
Germano Oliveira – Rafael, um dos grandes problemas para as indústrias hoje é a crise dos combustíveis. Entre Estados Unidos e Israel, essa guerra tem provocado falta de combustível e aumento de preços. Segundo o Procon-SP, o litro do diesel já estaria em R$ 9,00 e a gasolina em R$ 9,90. Isso pode prejudicar o transporte de cargas e a produtividade das empresas paulistas?
Rafael Cervone – Germano, pode sim. É sempre um problema atrás do outro. O Brasil não tem “bala de prata”. É guerra, é tarifaço, é falta de competitividade, é falta de mão de obra — tudo ao mesmo tempo. Como dizemos no interior de São Paulo, não basta a queda, tem o coice também. Então é tudo junto.
Agora enfrentamos mais esse problema. Há risco de desabastecimento, mas também existe muita especulação. Já vimos aumentos antes mesmo de o problema se concretizar. Há poucos dias tivemos impactos ligados à guerra e a um feriado na China, quando rotas marítimas foram alteradas e custos logísticos aumentaram.
Muitos setores perderam lucratividade recentemente e agora tentam recuperar ao mesmo tempo. O governo federal reduziu alguns impostos e sugeriu que estados reduzam ICMS, mas às vezes essas medidas têm também motivações políticas. É preciso cautela.
Existe risco real, sim. Já enfrentamos possíveis desabastecimentos, principalmente em insumos como fertilizantes. A guerra preocupa porque sabemos como começa, mas não como termina.
Germano Oliveira – Quando você mencionou a China, foi por causa daquele feriado mais longo, certo?
Rafael Cervone – Isso. A China tem poucos feriados, mas esse é prolongado. E o Brasil depende muito dela — cerca de 30% das exportações vão para lá. Isso exige reflexão estratégica.
Temos uma América Latina forte, com PIB equivalente ao dos Estados Unidos. Precisamos reduzir a dependência e ampliar nossa presença regional. No CIESP e também na FIESP, temos discutido isso com lideranças internacionais. Só no ano passado recebemos 190 chefes de Estado.
É possível ganhar mercado na América Latina e reduzir dependência da China. Inclusive, empresas brasileiras já fazem parcerias produtivas com países como o Chile para ganhar escala.
Se a China quiser continuar vendendo para nós, terá que produzir mais perto do consumidor final. Isso muda completamente os modelos de negócio.
O consumidor compra pelo celular e quer receber em até 90 minutos. Isso exige novos modelos logísticos.
Na Ásia, fala-se em sistemas subterrâneos. Na Europa, em drones. No Brasil, provavelmente seguiremos com drones também. Já estudamos isso no Senai, na chamada economia de baixa altitude.
Além disso, há a questão ambiental. Quanto tempo leva um navio da China até aqui? Qual o impacto de carbono? O consumidor vai considerar isso cada vez mais.
Germano Oliveira – O governo reduziu alguns impostos e fala em cartel no setor de combustíveis. Mas há também o aumento real do barril de petróleo, que já passou de US$ 120. Isso não impacta diretamente?
Rafael Cervone – Claro que impacta. No setor têxtil, por exemplo, o poliéster — que representa 70% das fibras no mundo — é derivado do petróleo. Então, qualquer alta afeta diretamente os custos.
As empresas precisam ter estoques maiores para amortecer impactos. No CIESP e na FIESP, estamos monitorando diariamente as cadeias de suprimento, como fizemos na pandemia.
Adriana Blak – Além do petróleo, outro problema é a taxa de juros. Mesmo com a redução recente, a Selic ainda está em 14,75%. Os juros ideais para a indústria deveriam estar abaixo de dois dígitos?
Rafael Cervone – Sem dúvida. E há algo grave: ninguém consegue explicar por que os juros são tão altos. Criamos uma força-tarefa com o Banco Central, FEBRABAN e universidades, e não encontramos justificativas estruturais.
Hoje, compensa mais investir no mercado financeiro do que produzir. Isso é um absurdo. A indústria de transformação representa 12% do PIB, mas carrega quase 40% da carga tributária.
O governo gasta cerca de R$ 2 trilhões com juros e amortização da dívida — quase 43% do orçamento. É insustentável.
E como isso se compara com outros países da América Latina?
Países com inflação maior têm juros menores e crescem mais. Nos últimos 10 anos: Paraguai cresceu 37%, Colômbia 35%, Peru 31,5%, Chile 24%, Uruguai 15%. O Brasil cresceu só 2,2%.
Estamos no modelo errado. E ainda competimos com países como a China, onde o governo subsidia e garante previsibilidade.
Se você investisse R$ 1 bilhão na indústria por 12 anos, teria retorno de 61%. No mercado financeiro, 113%. Quem vai escolher produzir?
Adriana Blak – Por que, então, a indústria cresce menos que o PIB?
Rafael Cervone – Porque está sendo sufocada por um sistema complexo e ineficiente. Enquanto deveríamos discutir política industrial, ainda lidamos com problemas básicos.
O Brasil vive de “puxadinhos”, adiando soluções. Enquanto isso, outros países resolvem seus problemas e avançam.
A China, por exemplo, trabalha com planejamento de longo prazo — já está no 17º plano quinquenal. Precisamos de previsibilidade e segurança jurídica.
A reforma tributária foi necessária, mas terá uma transição longa e complexa. E ninguém investe sem horizonte claro.
O Brasil ainda é visto como o “país do futuro”, mas as novas gerações não têm mais paciência para esperar. Precisamos mostrar resultados concretos.
A sociedade civil precisa pressionar por mudanças estruturais. Este é um ano eleitoral importante, e devemos perguntar: quais candidatos têm um plano de Estado, não apenas de governo?
Precisamos parar de empurrar problemas e começar a resolvê-los de fato.
📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:



