O presidente Lula lança hoje pacote anti-organizações criminosas. (Foto: EBC)


O governo brasileiro decidiu atacar o crime organizado onde mais dói: no bolso. Nesta terça-feira, 12, às 10h, o Palácio do Planalto apresenta o programa “Brasil Contra o Crime Organizado”, uma estratégia que tenta fugir do populismo penal para focar na inteligência e na estrutura financeira das facções e milícias. O plano coloca sobre a mesa um montante de R$ 11 bilhões, sendo R$ 1 bilhão em recursos imediatos do Orçamento de 2026 e R$ 10 bilhões em linhas de crédito via BNDES.

Para entender a urgência dessa medida, é preciso olhar para o tabuleiro da segurança pública no Brasil. Há décadas, o país enfrenta o desafio de combater grupos que funcionam como verdadeiras multinacionais do crime, operando redes logísticas complexas que vão do tráfico de drogas ao controle de serviços em periferias. A nova estratégia federal não busca apenas o confronto direto, mas sim o desmonte dessas engrenagens empresariais.

O cerco ao dinheiro e às armas

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A peça central do novo decreto é a criação de uma força integrada nacional. A ideia é que a Polícia Federal, as polícias estaduais e os órgãos de inteligência financeira deixem de ser ilhas isoladas. Ao ampliar o Comitê de Inteligência Financeira e Recuperação de Ativos (Cifra), o governo quer identificar empresas de fachada e lavar o dinheiro que irriga essas organizações.

Paralelamente, o plano mira o tráfico de armas. Através da Renarme (Rede Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Armas), Brasília pretende integrar o trabalho dos ministérios da Justiça, Defesa e Fazenda para fechar o cerco à entrada de armamento pesado que hoje equipa as facções urbanas.

O desafio do sistema prisional e a impunidade

Outro pilar fundamental aborda a realidade dos presídios, que frequentemente funcionam como “escritórios” do crime. O projeto pretende levar para as unidades estaduais o padrão de segurança federal, instalando bloqueadores de sinal de celular e reforçando a tecnologia de revista para cortar a comunicação entre os líderes encarcerados e seus comparsas nas ruas.

No campo da investigação, o cenário é crítico: apenas 36% dos homicídios são esclarecidos no Brasil, um número muito distante da média global de 63%. Para reverter esse quadro, o plano prevê o fortalecimento das polícias científicas e do IML, com o envio de equipamentos de DNA e a padronização de bancos de dados.

A federação à prova

Embora o anúncio venha da capital, a eficácia real do programa está nas mãos dos governadores. No sistema federativo brasileiro, a gestão direta das polícias e dos presídios é responsabilidade dos estados. Por isso, os bilhões de reais prometidos funcionam como um incentivo político: os governos regionais que aceitarem as diretrizes de Brasília terão acesso prioritário aos fundos. O sucesso da medida dependerá, portanto, da capacidade de articulação política entre o governo federal e os estados em um tema que costuma ser alvo de intensas disputas ideológicas.