Germano Oliveira


BRASIL EM FOCO

Germano Oliveira*

Muitas das atividades que o presidente Lula vem desenvolvendo Brasil afora têm características claras de campanha eleitoral antecipada. Ou seja, ele vem se autopromovendo nos eventos oficiais do governo, como se estivesse em palanque eleitoral e muitas vezes chega a pedir votos.

Esse tipo de manifestação contraria objetivamente a legislação do Código Eleitoral, que não permite atos de propaganda eleitoral antes de agosto, quando os partidos escolhem oficialmente seus candidatos e são autorizados pela Justiça Eleitoral a dar início ao processo das eleições que serão realizadas no dia 4 de outubro. Até lá, a maioria dos eventos do presidente petista poderia ser classificada como campanha eleitoral antecipada. E desrespeita as normas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

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Talvez o evento mais polêmico dessa campanha antecipada será dado no Carnaval do Rio de Janeiro, que terá abertura oficial no próximo domingo, 15, quando desfila a Escola de Samba de Niterói. Essa escola, a primeira a entrar no Sambódromo da Marquês de Sapucaí, vai prestar uma homenagem a Lula.

Lula com Edinho na festa dos 46 anos do PT. (Foto: PT)

Vai mostrar seu passado de dificuldades: o nascimento numa pequena cidade de Pernambuco, a ida com a mãe dona Lindú num pau-de-arara para São Paulo, a moradia nos fundos de um bar fétido em São Caetano do Sul, o trabalho como engraxate em São Paulo, a formação como metalúrgico, até a liderança no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, e a eleição por três vezes como presidente da República.

Ele não vai estar num dos carros da escola, mas estará no camarote do prefeito do Rio, Eduardo Paes, e sua mulher Janja vai desfilar na avenida. Esse fato está dando o que falar. Lula está sendo denunciado por seus opositores pelo uso ilegal do dinheiro público para financiar a escola.

Vai destinar R$ 1 milhão para a escola, mas a própria oposição se esquece de que o governo federal vai investir R$ 12 milhões em todas as 12 escolas do primeiro grupo, entre as quais a de Niterói. Mesmo assim, seus opositores não o perdoam por isso e dizem que ele está fazendo campanha antecipada.

O TCU já afastou a possibilidade de responsabilizar o governo pelo uso irregular de dinheiro público, mas opositores, como a senadora Damares Alves, têm usado esse episódio para desgastar o presidente. Lula, contudo, não está nem aí e até já autorizou sua mulher a participar dos ensaios da escola, onde ela desfila fogosamente na avenida.

Churrasco de graça

O presidente da Câmara, Hugo Motta, com o presidente Lula. (Foto: Ag. Câmara)

Mas esse não é o único caso. Na semana passada, Lula reuniu todos os líderes da Câmara, incluindo o presidente da Casa, Hugo Motta, na Granja do Torto, numa churrascada para animar os deputados, que andam desgostosos com o governo. Houve comida e bebida com fartura, obviamente pagas com dinheiro público.

O objetivo do presidente foi convencer os parlamentares a trabalhar pelos projetos do governo no Congresso, entre eles o 6 x 1, que o petista pretende usar como seu cabo eleitoral durante esta campanha. É um programa que Lula resgatou do PT com viés sindicalista e que ele pretende usar para atrair os trabalhadores que ainda têm saudades do tempo em que seu partido tinha votos nas camadas populares.

Lula fez um discurso inequívoco de que o tom também era eleitoreiro. O presidente disse que lutaria com todas as suas forças para vencer esta eleição e que os líderes partidários não poderiam deixar de trabalhar para impedir que a direita voltasse ao poder, colocando em risco todas as mudanças que ele fez pela recuperação do País, que Bolsonaro deixou arrasado.

Tentativa de golpe

Flávio Bolsonaro com Jair Bolsonaro, antes da prisão. (Reprodução: Instagram)

O presidente petista, inclusive, tem atacado repetidamente o ex-presidente Bolsonaro e seu filho, o senador Flávio, escolhido pelo PL para enfrentá-lo nas urnas em outubro, e não tem poupado críticas ao seu antecessor pelas regalias que ele tem na cadeia. Nesta segunda-feira, ao saber que o ex-capitão tinha até geladeira na sua cela especial na Papudinha, Lula disse que isso já era demais.

O petista lembrou que não tinha esse eletrodoméstico quando esteve preso por 580 dias na cadeia em Curitiba, enquanto Bolsonaro tem tudo de melhor. Lula já mostrou a linha que vai adotar na campanha: responsabilizar o bolsonarismo pelos quatro anos de atraso que impôs ao País. Na verdade, a campanha já começou desde o final do ano passado. O problema é usar os eventos do governo como palanque.