BRASIL EM FOCO
Germano Oliveira*
Muitas das atividades que o presidente Lula vem desenvolvendo Brasil afora têm características claras de campanha eleitoral antecipada. Ou seja, ele vem se autopromovendo nos eventos oficiais do governo, como se estivesse em palanque eleitoral e muitas vezes chega a pedir votos.
Esse tipo de manifestação contraria objetivamente a legislação do Código Eleitoral, que não permite atos de propaganda eleitoral antes de agosto, quando os partidos escolhem oficialmente seus candidatos e são autorizados pela Justiça Eleitoral a dar início ao processo das eleições que serão realizadas no dia 4 de outubro. Até lá, a maioria dos eventos do presidente petista poderia ser classificada como campanha eleitoral antecipada. E desrespeita as normas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Talvez o evento mais polêmico dessa campanha antecipada será dado no Carnaval do Rio de Janeiro, que terá abertura oficial no próximo domingo, 15, quando desfila a Escola de Samba de Niterói. Essa escola, a primeira a entrar no Sambódromo da Marquês de Sapucaí, vai prestar uma homenagem a Lula.

Vai mostrar seu passado de dificuldades: o nascimento numa pequena cidade de Pernambuco, a ida com a mãe dona Lindú num pau-de-arara para São Paulo, a moradia nos fundos de um bar fétido em São Caetano do Sul, o trabalho como engraxate em São Paulo, a formação como metalúrgico, até a liderança no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, e a eleição por três vezes como presidente da República.
Ele não vai estar num dos carros da escola, mas estará no camarote do prefeito do Rio, Eduardo Paes, e sua mulher Janja vai desfilar na avenida. Esse fato está dando o que falar. Lula está sendo denunciado por seus opositores pelo uso ilegal do dinheiro público para financiar a escola.
Vai destinar R$ 1 milhão para a escola, mas a própria oposição se esquece de que o governo federal vai investir R$ 12 milhões em todas as 12 escolas do primeiro grupo, entre as quais a de Niterói. Mesmo assim, seus opositores não o perdoam por isso e dizem que ele está fazendo campanha antecipada.
O TCU já afastou a possibilidade de responsabilizar o governo pelo uso irregular de dinheiro público, mas opositores, como a senadora Damares Alves, têm usado esse episódio para desgastar o presidente. Lula, contudo, não está nem aí e até já autorizou sua mulher a participar dos ensaios da escola, onde ela desfila fogosamente na avenida.
Churrasco de graça

Mas esse não é o único caso. Na semana passada, Lula reuniu todos os líderes da Câmara, incluindo o presidente da Casa, Hugo Motta, na Granja do Torto, numa churrascada para animar os deputados, que andam desgostosos com o governo. Houve comida e bebida com fartura, obviamente pagas com dinheiro público.
O objetivo do presidente foi convencer os parlamentares a trabalhar pelos projetos do governo no Congresso, entre eles o 6 x 1, que o petista pretende usar como seu cabo eleitoral durante esta campanha. É um programa que Lula resgatou do PT com viés sindicalista e que ele pretende usar para atrair os trabalhadores que ainda têm saudades do tempo em que seu partido tinha votos nas camadas populares.
Lula fez um discurso inequívoco de que o tom também era eleitoreiro. O presidente disse que lutaria com todas as suas forças para vencer esta eleição e que os líderes partidários não poderiam deixar de trabalhar para impedir que a direita voltasse ao poder, colocando em risco todas as mudanças que ele fez pela recuperação do País, que Bolsonaro deixou arrasado.
Tentativa de golpe

O presidente petista, inclusive, tem atacado repetidamente o ex-presidente Bolsonaro e seu filho, o senador Flávio, escolhido pelo PL para enfrentá-lo nas urnas em outubro, e não tem poupado críticas ao seu antecessor pelas regalias que ele tem na cadeia. Nesta segunda-feira, ao saber que o ex-capitão tinha até geladeira na sua cela especial na Papudinha, Lula disse que isso já era demais.
O petista lembrou que não tinha esse eletrodoméstico quando esteve preso por 580 dias na cadeia em Curitiba, enquanto Bolsonaro tem tudo de melhor. Lula já mostrou a linha que vai adotar na campanha: responsabilizar o bolsonarismo pelos quatro anos de atraso que impôs ao País. Na verdade, a campanha já começou desde o final do ano passado. O problema é usar os eventos do governo como palanque.




