Os principais nomes chamados a depor na CPI do Crime Organizado estão se empenhando em evitar comparecer às sessões para dar depoimentos.
As reuniões vêm sendo canceladas continuamente, advogados acionam liminares e justificativas frágeis se acumulam — numa estratégia que expõe a resistência sistemática dos investigados em prestar contas ao Congresso.
Nesta terça-feira (3), a comissão viu duas cadeiras vazias: a do fundador da Reag, João Carlos Falbo Mansur, e a do ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto.
Ambos, convocados formalmente, não compareceram. Mansur alegou notificação tardia e pediu reagendamento; Campos Neto se amparou em decisão do Supremo que tornou sua presença facultativa. “Por conta da exiguidade do tempo, decidimos remarcar para semana que vem sem condução coercitiva”, disse o presidente da CPI, senador Fabiano Contarato (PT-ES).
Detalhes e resistência
O relator Alessandro Vieira (MDB-SE) confirmou que Mansur havia informado previamente que não compareceria. Seus advogados reforçaram que o cliente não iria, mesmo convocado — quando a presença é obrigatória. Não apresentaram justificativa clara.
A defesa alegou que Mansur recebeu a notificação apenas no domingo e que o prazo mínimo de 48 horas não teria sido respeitado. Contarato, porém, deixou claro que a decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, não desobriga o comparecimento: “A decisão de Dino assegura o direito ao silêncio, mas não autoriza ausência. O comparecimento continua obrigatório.”
O ministro Dino havia concedido liminar parcial garantindo a Mansur o direito de não responder a perguntas incriminatórias, de não assumir compromisso de dizer a verdade e de contar com assistência plena de advogado. Mas rejeitou o pedido da defesa para tornar a presença facultativa.
Campos Neto também se esquiva
O depoimento de Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central, também estava previsto para esta terça. Ele foi convocado, mas uma decisão do ministro André Mendonça transformou sua presença em opcional. Campos Neto informou que não compareceria e que poderia enviar esclarecimentos por escrito.
Contexto explosivo
A CPI foi instalada após a operação das forças de segurança do Rio de Janeiro contra o Comando Vermelho, que deixou 121 mortos em outubro passado. A Reag entrou no radar da Polícia Federal por suspeita de envolvimento em esquemas de lavagem de dinheiro, incluindo a
Operação Carbono Oculto, que apura movimentações ligadas ao setor de combustíveis com participação do PCC.
Um padrão de fuga
O cancelamento das oitivas desta semana reforça um padrão: convocados acionam recursos jurídicos, alegam falhas de prazo ou simplesmente se ausentam. A comissão insiste que as convocações foram regularmente expedidas e ameaça medidas legais, inclusive condução coercitiva. “Reafirmamos nosso compromisso com a transparência e a legalidade”, declarou Contarato em nota oficial.


