Por Camila Srougi e Germano Oliveira
O avanço da venda ilegal de “canetas emagrecedoras” vindas do Paraguai preocupa médicos e autoridades de saúde no Brasil. Sem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), esses medicamentos injetáveis são comercializados principalmente em regiões de fronteira e atraem consumidores pelo preço mais baixo.
Especialistas alertam, porém, que o uso sem acompanhamento médico pode trazer consequências sérias, como reações adversas, contaminação e até óbito.
Nesta segunda-feira (26), em entrevista ao programa BC TV, do portal Brasil Confidencial, o endocrinologista paulistano Antonio Carlos do Nascimento, referência em controle de peso e diabetes, explicou que essas canetas podem conter substâncias como tirzepatida e semaglutida — princípios ativos presentes em medicamentos aprovados — ou até compostos experimentais, sem garantia de origem ou conservação adequada.
Segundo o médico, a importação irregular ignora exigências básicas de segurança, como ambiente estéril de fabricação e cadeia de refrigeração. “Esses medicamentos entram no Brasil sem que saibamos como foram produzidos, transportados ou armazenados. O risco é brutal”, afirmou.
Casos recentes de internações e suspeita de morte reforçam o alerta. Em Belo Horizonte, uma jovem desenvolveu síndrome de Guillain-Barré após usar uma dessas canetas. O quadro evoluiu com risco real de óbito, segundo o especialista (leia texto nesta postagem).
A seguir, leia algumas das principais perguntas feitas ao médico endocrinologista Antonio Carlos do Nascimento:
Camila Srougi – Doutor, para começar, precisamos definir do que estamos falando. Essas canetas paraguaias são versões falsificadas de medicamentos conhecidos, como Mounjaro e Ozempic, ou são substâncias totalmente diferentes, como estimulantes proibidos, vendidas sob uma roupagem moderna?
Antonio Carlos do Nascimento – É importante avaliar essa questão sob vários prismas. O primeiro é que talvez nem precisássemos estar discutindo isso, porque a tirzepatida, do Mounjaro, pertence à farmacêutica Eli Lilly, que investiu bilhões de dólares no desenvolvimento desse medicamento até chegar à formulação que existe hoje, com a importância que tem no mercado internacional.
Na verdade, poderíamos estar falando de importação ilegal do próprio Mounjaro, que é a marca fantasia da tirzepatida. Mas não é só isso. Estamos falando também da importação ilegal da semaglutida, que é o Ozempic, e até da retratrutida, um medicamento que sequer foi aprovado nos Estados Unidos e que já circula no Brasil — e possivelmente em outros países também.
O Mounjaro é hoje a grande vedete, com toda razão, pela sua efetividade no emagrecimento e no tratamento do diabetes tipo 2. Mas existem brechas nas legislações do Paraguai, do Brasil e de outros países que permitem que a tirzepatida seja fabricada ou manipulada fora do laboratório detentor da patente.
Aqui no Brasil, vemos a produção por farmácias de manipulação, que obedecem a um determinado rigor ditado pela Anvisa. Eu não entendo bem quais são as brechas legais que permitem isso, mas nosso foco aqui é discutir a importação ilegal dessas canetas vindas do Paraguai.
Essas canetas podem até conter tirzepatida ou semaglutida, eu não discuto isso. A questão é: o que é feito no Paraguai está sob a tutela da vigilância sanitária de lá, não da Anvisa brasileira. As regras podem até ser bem estabelecidas, feitas por profissionais capacitados, mas a dúvida é sobre o processo de fiscalização dessas estruturas autorizadas a fabricar esses medicamentos.
Tanto a tirzepatida quanto a semaglutida são medicamentos injetáveis. Isso exige um ambiente absolutamente estéril. Existe risco de contaminação durante a fabricação. Qual é o rigor aplicado? Eu não estou aqui fazendo críticas diretas a um sistema sanitário ao qual não pertenço, mas essa questão é extremamente séria.
A Anvisa brasileira não autorizou a importação desses medicamentos. Se alguém solicita uma importação legal, a Anvisa avalia segurança farmacológica, segurança sanitária, condições de transporte, cadeia de frio. Nada disso ocorre nesse caso.
Esses medicamentos entram no Brasil sem que saibamos como foram fabricados, fiscalizados, transportados ou armazenados. Não sabemos se o medicamento foi preservado adequadamente, se houve contaminação, se a ação farmacológica está íntegra. O risco é brutal.
Camila Srougi – Medicamentos biológicos exigem uma cadeia de frio rigorosa. Qual o risco de se injetar uma proteína que sofreu desnaturação ou contaminação durante o transporte ilegal?
Antonio Carlos do Nascimento – Você foi muito precisa ao falar em desnaturação proteica. Existe uma estrutura arquitetônica da molécula, e temperaturas elevadas podem desestruturar esses fragmentos.
A tirzepatida não é exatamente um medicamento biológico, ela é sintetizada. Já a semaglutida é um medicamento biológico, o que nos preocupa ainda mais. Mas, de qualquer forma, um acondicionamento inadequado diminui a ação do medicamento e pode torná-lo perigoso.
Nós não sabemos sequer se o que está dentro do frasco é realmente o medicamento indicado no rótulo. Não sabemos.
Isso pode gerar uma crise sanitária absurda, como vimos recentemente com o metanol. Bastaram poucas garrafas para provocar um desastre sanitário. O mesmo pode acontecer com um único lote dessas canetas contaminadas, não estéreis ou com qualquer outro problema. O risco é enorme.
Esses produtos não estão sob a tutela da Anvisa, não foram avaliados nem liberados para o mercado brasileiro.
A retratrutida está em fase 3 de estudos nos Estados Unidos. Não foi aprovada, não está no mercado em lugar nenhum do mundo. Mesmo assim, já circula aqui.
Quem desenvolveu esses medicamentos levou anos para chegar à formulação final. Hoje, com softwares e acesso à sequência molecular, alguém consegue copiar a estrutura. O sal dessas moléculas não é produzido pela Eli Lilly, o que elimina todo o processo de segurança desenvolvido pela empresa original.
Germano Oliveira – Recentemente, houve um caso em Belo Horizonte de uma jovem que usou essa caneta paraguaia e desenvolveu síndrome de Guillain-Barré. Há registros de mortes?
Antonio Carlos do Nascimento – O risco de uma crise sanitária é enorme justamente porque não há fiscalização nem legalidade nesse processo. Até onde sei, o caso de Belo Horizonte é o mais grave registrado, com risco real de óbito.
Essa jovem desenvolveu uma neuropatia grave, que começa nas extremidades e vai progredindo em direção ao centro do corpo. Pode ser irreversível. A evolução é errática e preocupante. Esperamos que ela não seja uma vítima fatal, mas o alerta está dado.
Isso deveria alarmar principalmente as pessoas que atravessam a fronteira em Foz do Iguaçu, compram várias canetas e ainda revendem no Brasil.
Germano Oliveira – A diferença de preço é um fator decisivo?
Antonio Carlos do Nascimento – Sem dúvida. Um medicamento aprovado custa entre R$ 1.300 e R$ 1.500 por caneta. O paraguaio custa R$ 350. Só isso já deveria levantar suspeitas.
O tratamento completo pode chegar a R$ 3.600, porque o investimento da indústria foi altíssimo. Esse custo reflete anos de pesquisa e desenvolvimento. Segurança sanitária não é barata.
Germano Oliveira – Com a produção nacional e a redução de preços, esses produtos ilegais podem perder espaço?
Antonio Carlos do Nascimento – Não necessariamente. Hoje, a grande vedete é a tirzepatida. A produção nacional já ocorre para a semaglutida, como Ozempic e Wegovy, inclusive com a EMS, no Brasil, com preços cerca de 30% menores.
Mesmo assim, ainda estamos muito distantes dos R$ 350 do mercado ilegal. Quando se pensa em preço, a diferença é brutal. Quando se pensa em segurança sanitária, essa diferença deveria ser esquecida.
📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:
Conheça a trajetória de Antonio Carlos do Nascimento

Com mais de três décadas dedicadas à medicina, o endocrinologista Antonio Carlos do Nascimento, de São Paulo, construiu uma carreira marcada pela excelência clínica, pela gestão pública em saúde e pela comunicação com a sociedade.
Formado pela Faculdade de Medicina de Campos (RJ) e doutor em Endocrinologia e Metabologia pela Universidade de São Paulo (USP), Nascimento consolidou-se como referência nacional no tratamento de doenças metabólicas, como diabetes, obesidade e distúrbios da tireoide.
Sua atuação clínica é reconhecida pela abordagem humanizada e pelo compromisso em oferecer soluções de longo prazo para pacientes que enfrentam desafios complexos de saúde.
Além da prática médica, o endocrinologista desempenhou papel estratégico na gestão pública. Em Santo André (SP), coordenou serviços de saúde especializados, como o Centro de Especialidades e o Núcleo de Obesidade, além de liderar setores de Urgência, Emergência e Atenção Básica. Sua gestão buscou ampliar o acesso da população a tratamentos especializados e fortalecer políticas de prevenção.
Nascimento também se destaca como articulista em veículos de grande circulação, como O Globo, Veja e Diário do Grande ABC, onde traduz temas complexos da endocrinologia para o público leigo. Essa atuação reforça seu papel como educador e divulgador científico, aproximando a medicina da sociedade.
Mineira é internada em estado grave após uso de caneta emagrecedora Lipoless

O caso de Kellen Oliveira Bretas Antunes, 42 anos, reacendeu o debate sobre os perigos das chamadas canetas emagrecedoras paraguaias. A auxiliar administrativa foi internada em dezembro, em estado grave, após complicações decorrentes do uso da Lipoless, produto irregular importado clandestinamente e vendido como alternativa ao medicamento tirzepatida.
Dias depois da aplicação, Kellen apresentou sintomas severos: dores intensas, fraqueza muscular e urina escura. O quadro evoluiu para convulsões e perda de movimentos, culminando no diagnóstico de síndrome de Guillain-Barré, doença rara que compromete o sistema nervoso periférico.
A família decidiu tornar público o alerta. Em mensagens divulgadas nas redes sociais, as filhas relataram o sofrimento da mãe e pediram atenção para os riscos da automedicação.
“É preciso saber de quem se compra e se realmente é seguro”, escreveu Dhulia Antunes, uma das filhas.
Apesar de a Anvisa ter proibido a comercialização da Lipoless em 2025, o produto continua sendo oferecido em anúncios nas redes sociais. Especialistas da Fiocruz e da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso) afirmam que a promessa de emagrecimento rápido, somada à desinformação, alimenta um mercado clandestino sem controle de qualidade.
A endocrinologista Cynthia Valerio, presidente da Abeso, alerta que não há garantias sobre o que está sendo injetado no organismo dos pacientes.
“É uma crise sanitária. Não se sabe a composição real dessas substâncias, e os riscos podem ser fatais”, disse.
A Polícia Civil de Minas Gerais abriu investigação para apurar contrabando e eventual responsabilidade criminal. Autoridades de saúde reforçam que apenas medicamentos registrados devem ser utilizados e que o consumo de substâncias ilegais pode levar a complicações graves ou até à morte.
O caso de Kellen não é isolado. Outras ocorrências envolvendo produtos similares já foram registradas, evidenciando a necessidade de políticas públicas mais rigorosas e campanhas de conscientização. Enquanto isso, o comércio irregular segue ativo, transformando promessas de emagrecimento rápido em tragédias familiares.
Anvisa proíbe “canetas paraguaias” e determina apreensão imediata dos produtos

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou no Diário Oficial da União de terça-feira, 21, resolução que proíbe a fabricação, importação, comercialização, distribuição, propaganda e uso das chamadas “canetas paraguaias”, popularizadas como supostos medicamentos para emagrecimento. A decisão inclui a suspensão imediata da tirzepatida das marcas Synedica e TG, além da retatrutida de todas as marcas e lotes.
Segundo o texto oficial, os produtos não possuem registro, cadastro ou notificação junto à Anvisa, o que significa que não há comprovação de qualidade, segurança ou eficácia.
A agência determinou ainda a apreensão imediata das unidades em circulação no país, reforçando que a venda irregular vinha ocorrendo principalmente em redes sociais e canais informais de comércio.
A medida foi tomada após constatação de que os fabricantes não são identificados e que os medicamentos circulam sem qualquer garantia sanitária.
A Anvisa alertou que a retatrutida, por exemplo, encontra-se em fase de pesquisa clínica e não possui autorização para uso em seres humanos fora de protocolos científicos controlados.
“A suspensão é necessária para proteger a saúde da população, diante do risco associado ao consumo de produtos sem registro e de origem desconhecida”, destacou a publicação.
Com a decisão, a agência reforça que consumidores não devem adquirir nem utilizar tais canetas emagrecedoras e orienta que denúncias sobre pontos de venda irregulares sejam encaminhadas às autoridades sanitárias locais.


