Por Moisés Rabinovici
Meia-noite no Oriente Médio. O cessar-fogo entre Líbano e Israel entrou em vigor por dez dias. Minutos antes, o Hezbollah disparou 15 mísseis e alguns drones contra as cidades de Karmiel e Nahariya, perto da fronteira libanesa. A aviação israelense contra-atacou. É a rotina das tréguas: atacar até o último momento.
Se o cessar-fogo for mantido, o presidente Donald Trump convidará o presidente do Líbano, Joseph Aoun, e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, para um encontro na Casa Branca que poderá selar um acordo de normalização das relações entre países em estado de guerra desde 1948.
A notícia do cessar-fogo provocou furor em Israel por dois motivos. Os habitantes do norte queriam que a guerra terminasse com a eliminação da ameaça sob a qual vivem, marcada por disparos constantes do Hezbollah. Para eles, os dez dias servirão para que o grupo se rearme e retome os ataques, quando a ofensiva atual poderia derrotá-lo.

O outro motivo foi a falta de sincronia. Trump já teria obtido o acordo de Netanyahu na noite de quarta-feira, quando o gabinete israelense se reuniu para discutir o tema — sem ser informado de que a decisão já estava tomada. Na manhã seguinte, ao se reunir novamente com a mesma pauta, os ministros souberam da trégua pelo noticiário, após anúncio da Casa Branca. Não precisaram aprovar o que já havia sido decidido.
Alguns ministros disseram estar chocados. Netanyahu respondeu: “Quando o maior amigo de Israel, o presidente Trump, age ao nosso lado em estreita coordenação, Israel coopera com ele”.
A oposição criticou duramente o cessar-fogo. Para o líder Yair Lapid, “o confronto no Líbano só pode terminar de uma maneira: com a eliminação permanente da ameaça às comunidades do norte. Com este governo, isso não vai acontecer. Só conseguiremos isso com o próximo governo”.
O ex-chefe do Estado-Maior Gadi Eisenkot afirmou que Netanyahu “é inábil em traduzir conquistas militares em ganhos políticos, e assim o cessar-fogo é imposto sobre nós pela terceira vez”. E acrescentou: “Um cessar-fogo deve partir de uma posição de força, como uma decisão israelense e de poder, para servir às negociações. Está surgindo um padrão em que cessar-fogos estão sendo impostos a nós — em Gaza, no Irã e agora no Líbano”.

No Líbano, o primeiro-ministro Nawaf Salam saudou a trégua, escrevendo no X: “Ao parabenizar todos os libaneses por esta conquista, oro pelos mártires que tombaram e manifesto minha solidariedade às suas famílias, aos feridos e aos cidadãos que foram forçados a fugir de suas cidades e vilarejos. Tenho plena esperança de que eles possam retornar a suas casas o mais breve possível”.
Trump designou o vice-presidente JD Vance, o secretário de Estado Marco Rubio e o general Dan Caine para ajudar Líbano e Israel a alcançar um acordo duradouro. Há muitos pontos em aberto: o destino de mais de 1 milhão de libaneses deslocados de suas casas, a destruição de pontes sobre o rio Litani e a presença de tropas israelenses ocupando uma zona-tampão de dez quilômetros ao longo da fronteira.
Perto da meia-noite, após a barragem de foguetes contra Israel, o Hezbollah afirmou que respeitará o cessar-fogo: “Aderiremos cautelosamente à trégua, sob a condição de uma interrupção completa das hostilidades contra nós e de que Israel não a utilize para realizar assassinatos. Agradecemos ao Irã por ter exercido pressão a favor do Líbano”.
O memorando do cessar-fogo afirma que “Israel e Líbano reconhecem que não estão em guerra e se comprometem a participar de negociações diretas de boa-fé, facilitadas pelos Estados Unidos, com o objetivo de alcançar um acordo abrangente que assegure segurança, estabilidade e paz duradouras entre os dois países”.


