Uma nova fronteira no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2 está sendo traçada por cientistas que buscam uma alternativa ousada aos medicamentos à base de GLP-1, como o Ozempic. A proposta? Ensinar o corpo a produzir, por conta própria, o hormônio que tem revolucionado a medicina metabólica.
“Estamos literalmente queimando dezenas de bilhões de dólares”, afirmou Harith Rajagopalan, cardiologista e cofundador da Fractyl Health, uma empresa de biotecnologia com sede em Burlington, Massachusetts. Ele se refere ao fato de que a maioria dos pacientes abandona os medicamentos GLP-1 em até dois anos, o que compromete os benefícios de longo prazo, como a redução do risco cardiovascular.
A Fractyl aposta em uma terapia genética chamada Rejuva, que promete uma única infusão capaz de programar as células do pâncreas a produzirem GLP-1 por anos. A técnica usa um vírus inofensivo para inserir o código genético nas células produtoras de insulina, o que, segundo a empresa, pode evitar os picos hormonais associados aos efeitos colaterais dos medicamentos tradicionais.
Mas a proposta não é isenta de riscos. “Os remédios, você pode parar de tomar”, disse Giles Yeo, professor da Universidade de Cambridge especializado em genética da obesidade. “Se você modifica geneticamente alguém e ele não tolera, está ferrado.”
Além dos desafios científicos, a Fractyl enfrenta incertezas financeiras. Desde que abriu capital em 2024, a empresa declarou em documentos regulatórios que há “dúvidas substanciais” sobre sua capacidade de continuar operando. Mesmo assim, encerrou 2025 com caixa suficiente para manter as atividades por mais um ano.
Enquanto isso, gigantes como Novo Nordisk e Eli Lilly, líderes no mercado de GLP-1, seguem investindo em versões mais potentes e acessíveis, incluindo pílulas de uso diário.
Apesar das dificuldades, Rajagopalan está confiante. “Estamos recebendo e-mails todos os dias de pessoas interessadas em participar dos testes com a Rejuva”, contou.
O primeiro ensaio clínico em humanos deve começar ainda este ano, com foco em pacientes com diabetes tipo 2 que já usaram GLP-1 sem efeitos adversos, mas que continuam com níveis elevados de glicose. Uma segunda versão da terapia, que também estimula outro hormônio intestinal, está sendo desenvolvida para tratar obesidade.
Em testes com camundongos alimentados com dieta rica em gordura, uma única dose da Rejuva levou a uma perda de peso de até 29% em 35 dias. Em animais magros, a perda foi de apenas 6%, sem episódios de hipoglicemia — o que sugere um possível “mecanismo de autolimitação”, segundo a empresa.
Lei Cao, professora da Universidade Estadual de Ohio e especialista em terapias genéticas para obesidade, elogiou a estratégia de usar células pancreáticas. “Essa é a força deles”, disse. Mas ela também expressou preocupação com os efeitos de longo prazo da produção elevada de GLP-1 no pâncreas, onde o hormônio não é normalmente fabricado. “Não sabemos nada sobre isso localmente, em alta concentração”, alertou.
A Fractyl rebateu apontando estudos que indicam que os medicamentos GLP-1 não aumentam o risco de câncer pancreático — e podem até proteger contra ele. Outras pesquisas sugerem que esses remédios têm pouco impacto sobre cânceres relacionados à obesidade.
Ainda assim, não há fórmula exata para determinar a dose ideal de uma terapia genética. “Sempre há algum risco”, disse Mark Kay, especialista em terapia gênica da Universidade Stanford e membro do conselho científico da Fractyl. Ele explicou que há um medicamento em desenvolvimento que poderia neutralizar os efeitos do GLP-1 caso a produção se torne excessiva.
A empresa, no entanto, afirma que não depende de um “antídoto” para seguir com a Rejuva, mas reconhece que drogas que reduzem o GLP-1, se aprovadas, poderiam funcionar como um mecanismo de segurança adicional.
Outro desafio é convencer os planos de saúde a cobrir uma terapia com custo inicial elevado. A Fractyl não divulgou o preço, mas afirma que a dose reduzida pode significar um “custo de produção menor”. Hoje, terapias genéticas aprovadas variam de centenas de milhares a milhões de dólares. Embora estudos indiquem que os medicamentos GLP-1 podem reduzir custos futuros ao evitar complicações graves, os benefícios demoram a aparecer, enquanto os gastos são imediatos.
Enquanto a Fractyl se prepara para seus testes, outras empresas também avançam em terapias genéticas contra a obesidade. A Wave Life Sciences empolgou Wall Street em dezembro ao divulgar resultados de um pequeno estudo com uma droga injetável que reduz a atividade de um gene ligado à obesidade. Uma única dose levou à perda de 9% da gordura visceral e aumento da massa magra em 12 semanas. As ações da empresa dispararam quase 150% no mesmo dia.
A Arrowhead Pharmaceuticals também apresentou resultados promissores com uma droga que atua sobre o mesmo gene, o INHBE, suprimindo uma proteína que estimula o armazenamento de energia.
Para médicos que tratam obesidade, a principal vantagem de uma terapia genética é a possibilidade de eliminar o uso contínuo de medicamentos. Fatima Cody Stanford, especialista em medicina da obesidade no Massachusetts General Hospital e professora da Harvard Medical School, relatou que cerca de 70% de seus pacientes perderam o acesso aos remédios GLP-1 neste ano por cortes dos planos de saúde.
“Os pacientes estão parando não porque querem, mas porque precisam. Eles não têm recursos financeiros para continuar”, afirmou. Sobre a Rejuva, ela ponderou: “Parece bom demais para ser verdade. Isso soa quase como uma cura, e nunca vimos isso até hoje.”


