O profissional de educação física, Luiz Fernando Lukas, durante entrevista ao BC TV


Por Germano Oliveira e Camila Srougi

Brasileiros com obesidade lideram o ranking global de ansiedade em relação à saúde, segundo levantamento internacional realizado pelo Instituto Ipsos.

O estudo mostra que o Brasil ocupa o primeiro lugar entre 14 países pesquisados, com 71% dos entrevistados que vivem com obesidade relatando sentir ansiedade frequente sobre sua condição.

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O índice está muito acima da média global, de 42%, e revela um cenário de preocupação intensa que vai além da estética, atingindo diretamente a saúde física e mental da população.

Os dados nacionais reforçam esse quadro: apenas 29% das pessoas com obesidade afirmam estar satisfeitas com sua saúde física, contra 52% entre aquelas sem a condição. A autoestima também sofre impacto significativo — 92% relatam que o peso afeta negativamente sua confiança, e 42% dizem evitar aparecer em fotos ou vídeos, o maior percentual entre todos os países analisados.

Apesar disso, há uma busca ativa por ajuda: 55% procuraram atendimento médico no último ano e 62% buscaram informações online ou com amigos, números que superam a média global.

Ainda assim, persistem crenças arraigadas de que apenas dieta e exercícios seriam suficientes para resolver o problema, o que reforça a autoculpabilização e o medo do fracasso.

Para compreender como esses dados se refletem na vida cotidiana, o programa BC TV, do portal Brasil Confidencial, convidou o profissional de Educação Física Luiz Fernando Lukas, que atua como personal trainer e orientador de professores da área.

Lukas destaca que a ansiedade e a pressão social dificultam a adesão a mudanças sustentáveis. Segundo ele, muitos brasileiros desistem antes mesmo de iniciar um processo de transformação, em parte pela busca por resultados imediatos e pelo receio de não conseguir manter hábitos saudáveis.

O entrevistado alertou ainda para o uso indiscriminado de medicações, como as chamadas “canetas emagrecedoras”, que vêm ganhando espaço no país. Embora possam ser prescritas em determinados casos, Lukas ressalta que não substituem a necessidade de constância: “A chave para uma saúde duradoura está na prática regular de atividade física e na alimentação equilibrada. Sem isso, qualquer resultado será temporário.”

Assim, o cruzamento entre os números da pesquisa e a análise de especialistas como Lukas evidencia que a obesidade no Brasil é um desafio multifacetado. Envolve não apenas o manejo clínico, mas também a construção de uma rotina de cuidados que valorize o corpo em movimento e a saúde mental.

O entrevistado mostra que, diante da ansiedade crescente, o caminho mais sólido continua sendo o da constância — menos fórmulas rápidas e mais compromisso com o bem-estar diário.

A seguir, leia alguns dos principais trechos da entrevista:

Camila Srougi – Esse dado da pesquisa Ipsos é alarmante e coloca o Brasil em uma posição difícil no cenário mundial. Na sua prática diária, como você percebe que essa ansiedade afeta o ponto de partida de quem precisa combater a obesidade?

Luiz Fernando Lukas – Principalmente esse nervosismo, essa ansiedade em ter resultado é o que mais afeta as pessoas. Muitas vezes elas até desistem de tentar uma dieta ou um programa de emagrecimento com medo de não dar certo, com medo do fracasso.

Quando chega a um certo ponto da vida, muitas pessoas acima do peso já tentaram de tudo. Já fizeram dietas da internet, já tentaram jejum intermitente, já tentaram fazer atividade física de forma intensa e, mesmo assim, não conseguiram alcançar o resultado desejado.

Esse histórico gera medo de tentar novamente e fracassar outra vez. Isso provoca uma cobrança muito grande sobre si mesmo. Essa autocobrança gera ansiedade, e a ansiedade pode gerar depressão, complexos e um ciclo negativo. A pessoa entra nesse ciclo e acaba não conseguindo chegar ao ponto que deseja.

Camila Srougi – Muitas vezes o excesso de informações e a pressão das redes sociais acabam sendo gatilhos para essa ansiedade. Qual é o primeiro passo para separar o cuidado com a saúde da busca por um padrão estético muitas vezes irreal?

Luiz Fernando Lukas – O primeiro passo é entender que a obesidade é uma doença. Durante muito tempo, antigamente, acreditava-se que a pessoa mais gordinha era sinal de saúde. Inclusive vemos isso em pinturas e obras de arte antigas, onde as pessoas apareciam mais cheias.

Hoje sabemos que a obesidade é uma doença crônica. A própria Organização Mundial da Saúde considera a obesidade uma doença crônica.

Então, o primeiro passo é reconhecer que existe uma doença e que ela pode desencadear muitas outras no organismo.

O segundo ponto é entender que o mundo do Instagram e das redes sociais, muitas vezes, não corresponde à realidade. Nem todo mundo é tão feliz quanto parece, nem todo mundo tem a vida perfeita que mostra ali.

Por isso é preciso diferenciar as coisas. A pessoa precisa dar o primeiro passo para emagrecer, iniciar uma dieta ou um programa de exercícios, mas entendendo que cada caso é individual. O resultado que alguém mostra nas redes sociais é resultado de uma realidade específica. Cada pessoa tem um corpo, uma rotina e necessidades diferentes.

Germano Oliveira – Há uma ideia de que a obesidade se resolve apenas com as chamadas canetas emagrecedoras, como as de semaglutida e tirzepatida. Antes de recorrer a esses medicamentos, por que muitas pessoas não começam praticando exercícios e controlando a alimentação?

Luiz Fernando Lukas – Hoje vivemos no mundo do imediatismo. Todo mundo quer resultado rápido.

Antes dessas canetas surgirem — podemos citar principalmente o Ozempic e o Mounjaro — o método mais rápido que existia eram as cirurgias, como a bariátrica.

As pessoas sempre deixaram a atividade física e a mudança alimentar para depois, exatamente por causa dessa busca por resultados imediatos. Todos querem ter um corpo bonito de um dia para o outro.

Mas é importante lembrar que ninguém chega à obesidade da noite para o dia. É um processo que leva anos.

As canetas prometem um resultado mais rápido. De fato, a perda de peso pode acontecer rapidamente em comparação com quem vai à academia e precisa de alguns meses para perceber mudanças.

Por isso muitas pessoas estão optando pelas canetas. Porém, existe um problema: o emagrecimento é um efeito colateral desses medicamentos. Eles foram desenvolvidos para tratar diabetes tipo 2. Durante as pesquisas, percebeu-se que também reduzem o apetite e podem acelerar o metabolismo, levando à perda de peso.

Hoje já vemos nas academias pessoas que deixaram de treinar ou de fazer dieta porque acreditam apenas no efeito da medicação.

Outro ponto importante é que o emagrecimento causado por esses medicamentos nem sempre é saudável. A pessoa não perde apenas gordura, perde também massa magra e musculatura. Isso pode trazer consequências no futuro.

Germano Oliveira – Você se especializou no acompanhamento de pessoas na prática de exercícios físicos e também trabalha com musculação e capoeira. Você acredita que o princípio de “comer menos e se exercitar mais” precisa ser um compromisso para a vida inteira?

Luiz Fernando Lukas – Sim, precisa. Inclusive o que você mencionou sobre as pessoas voltarem a engordar acontece muito e é conhecido como efeito sanfona.

A pessoa emagrece rapidamente, mas não muda a rotina. Quando alguém entra em um processo de emagrecimento, precisa mudar hábitos, rotina e estilo de vida. Não é apenas tomar um medicamento ou fazer uma cirurgia.

Essa mudança envolve vários aspectos: físicos, emocionais e sociais.

Na Educação Física, eu trabalho muito com musculação, corrida de rua e capoeira. Em qualquer modalidade, o mais importante é a constância.

Constância é mais importante do que intensidade. Não adianta ir todos os dias com muita força durante um período curto e depois parar. O importante é manter a regularidade para que o corpo vá queimando calorias e gordura aos poucos.

Quem utiliza apenas medicamentos ou cirurgia e não muda os hábitos acaba voltando ao peso anterior.

E quando isso acontece, a pessoa volta a enfrentar a frustração. Ela chega perto do objetivo, depois recupera o peso e passa a lidar novamente com ansiedade, pressão social e cobranças.

Muitas vezes as pessoas dizem: “Você já estava tão magro, por que voltou a engordar?”. Esse tipo de comentário pesa muito emocionalmente.

Em alguns casos, a frustração é tão grande que a pessoa desiste completamente de tentar emagrecer e passa a viver de forma ainda menos saudável.

📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:

Conheça Luiz Fernando Lukas

Luiz Fernando Lukas, Autor em Vida e Ação

Carioca de 41 anos, Luiz Fernando Lukas construiu sua trajetória profissional unindo duas áreas que sempre o fascinaram: a comunicação e o esporte. Formado em Educação Física e em Jornalismo, ele se especializou em musculação e treinamento de força, campo no qual atua como personal trainer e professor de musculação, no Rio de Janeiro.

A rotina de Lukas vai além das salas de academia. Contramestre de Capoeira, ele também se dedica à prática da corrida de rua, mantendo o corpo em movimento em diferentes modalidades. Essa diversidade reflete sua visão de que o exercício físico é mais do que técnica: é disciplina, cultura e estilo de vida.

Com experiência consolidada, Lukas se destaca por unir conhecimento científico e prática cotidiana. Sua formação em Jornalismo acrescenta uma dimensão singular à carreira: a capacidade de comunicar de forma clara e acessível os benefícios da atividade física, aproximando o público da importância do cuidado com o corpo e a saúde.

Brasil enfrenta epidemia de obesidade, diabetes e sedentarismo

Atividade física cotidiana e mudança em hábitos alimentares são essenciais para combater a obesidade. (Reprodução)

O Brasil vive uma escalada preocupante das doenças crônicas ligadas ao sedentarismo e à má alimentação. Dados oficiais do Ministério da Saúde, divulgados pelo sistema Vigitel 2025, mostram que a obesidade cresceu 118% desde 2006, enquanto o diabetes avançou 135% no mesmo período. A hipertensão também segue em alta, com aumento de 31%, e o excesso de peso já atinge quase 60% da população adulta.

O retrato é agravado por hábitos pouco saudáveis: apenas 31% dos brasileiros consomem frutas e hortaliças regularmente, e a prática de atividade física no deslocamento diário caiu de forma significativa. O resultado é um país cada vez mais vulnerável às doenças cardiovasculares, que seguem como principal causa de morte.

O peso econômico da epidemia

O impacto financeiro dessas doenças é bilionário. O Brasil já contabiliza 16,6 milhões de adultos com diabetes, o que o coloca como o 6º país com mais casos no mundo. Os custos diretos e indiretos da doença ultrapassam US$ 45 bilhões (R$ 225 bilhões) por ano, segundo estimativas internacionais.

As doenças cardiovasculares, por sua vez, pressionam o sistema hospitalar com internações recorrentes e altos índices de mortalidade, especialmente em casos de infarto e AVC.

A resposta do governo

Diante desse cenário, o Ministério da Saúde lançou, no começo deste ano, o programa Viva Mais Brasil, com investimento inicial de R$ 340 milhões. A iniciativa retoma o projeto Academia da Saúde, amplia ações de promoção da alimentação saudável e prevê repasses adicionais de até 30% aos municípios que fortaleçam a atenção primária.

O programa se soma à Política Nacional de Prevenção e Combate à Obesidade, consolidada em 2025, que busca reduzir o consumo de ultraprocessados e bebidas açucaradas, além de reforçar campanhas educativas e a rotulagem clara de alimentos industrializados.

O desafio

Apesar das medidas, os números mostram que o Brasil enfrenta uma epidemia silenciosa. A combinação de sedentarismo, alimentação inadequada e urbanização acelerada cria um ambiente favorável ao avanço das doenças crônicas. O sucesso das políticas públicas dependerá da capacidade de transformar hábitos cotidianos e de envolver escolas, comunidades e famílias em uma mudança cultural profunda.

Ultraprocessados avançam no prato do brasileiro e acendem alerta de saúde pública

Os alimentos ultraprocessados são os causadores da obesidade e doenças crônicas. (Reprodução)

O consumo de alimentos ultraprocessados cresce de forma acelerada no Brasil e já representa quase um quarto da dieta nacional. Dados oficiais do Ministério da Saúde, em parceria com a Anvisa e a Universidade de São Paulo, mostram que 62% dos 39 mil produtos alimentícios lançados entre 2020 e 2024 pertencem a essa categoria, enquanto apenas 18,4% são alimentos in natura ou minimamente processados.

Os ultraprocessados — como refrigerantes, biscoitos recheados, salgadinhos e macarrão instantâneo — são formulações industriais com aditivos artificiais e pouco ou nenhum alimento natural. Diferem dos processados tradicionais, como queijos e conservas, que ainda preservam a base de ingredientes naturais.

Estudos recentes revelam que 20,2% das calorias consumidas pelos brasileiros vêm de ultraprocessados, com variações regionais significativas: em Florianópolis, o índice supera 30%, enquanto no interior do Piauí não chega a 6%. Pesquisas da USP e da Revista de Saúde Pública apontam que jovens e famílias urbanas são os principais responsáveis pela substituição de refeições caseiras por lanches industrializados.

O mercado de ultraprocessados, impulsionado por conveniência, preços acessíveis e marketing agressivo, domina os lançamentos da indústria alimentícia e movimenta bilhões de reais.

A tendência acompanha o cenário global: série de artigos publicada pela revista The Lancet em 2025 classificou os ultraprocessados como uma crise mundial de saúde pública, associada a obesidade, hipertensão, diabetes tipo 2 e até maior risco de câncer.

Especialistas defendem que o Brasil precisa avançar em políticas públicas para conter os danos. Entre as medidas sugeridas estão taxação de ultraprocessados, restrições à publicidade voltada a crianças e incentivo ao consumo de alimentos frescos.

Enquanto isso, o prato do brasileiro se transforma: cada vez mais embalado, colorido e prático, mas também mais distante da comida feita com produtos naturais — e mais próximo de um problema de saúde coletiva.