
A decisão de retirar do rascunho final da COP30 qualquer menção explícita à transição para longe dos combustíveis fósseis provocou uma onda de críticas de governos, cientistas e organizações da sociedade civil. O impasse revela o choque entre a urgência climática e os interesses econômicos de países produtores de petróleo.
Na versão anterior do documento, havia a proposta de um plano global para eliminar gradualmente petróleo, carvão e gás natural — promessa feita na COP28. Mas a nova redação, divulgada na manhã de sexta-feira 21), suprimiu esse compromisso, em parte devido à resistência da Arábia Saudita, maior exportador mundial de petróleo, apoiada por países como a Índia.
“Não podemos apoiar um resultado que não inclua um roteiro para implementar uma transição justa, ordenada e equitativa para longe dos combustíveis fósseis”, afirmaram mais de 30 países em carta conjunta, segundo o portal Carbon Brief.
Entre os signatários estão Alemanha, França, Reino Unido, Chile e Colômbia, além de pequenas nações insulares como Palau e Vanuatu, que alertam para o risco de desaparecer com o aumento do nível do mar.
O comissário europeu para o clima, Wopke Hoekstra, disse estar “decepcionado” com o texto. “Isto não está nem perto da ambição que precisamos em mitigação. Estamos decepcionados com o texto atualmente em discussão”, declarou.
Organizações ambientais também reagiram. O Observatório do Clima afirmou que “tudo o que diz respeito a atacar as causas da crise climática foi eliminado do texto do mutirão”, acusando países petroleiros de bloquear avanços. Pesquisadores da Ciência Planetária classificaram a exclusão como “uma traição à ciência”, lembrando que “é impossível limitar o aquecimento a níveis que protejam as pessoas e a vida sem eliminar gradualmente os combustíveis fósseis e acabar com o desmatamento”.
Kumi Naidoo, presidente da Iniciativa do Tratado sobre Combustíveis Fósseis, foi ainda mais direto: “O mundo não pode se dar ao luxo de esperar mais um ano por outro sinal político fraco enquanto comunidades inteiras queimam e se afogam. A falta de um plano concreto para lidar com a produção de carvão, petróleo e gás só aumenta a urgência de um tratado sobre combustíveis fósseis.”
Financiamento climático e impasse diplomático
O novo rascunho desloca o foco para o financiamento da adaptação climática, propondo triplicar os recursos até 2030. Mas sem especificar se o dinheiro virá de governos ricos, bancos de desenvolvimento ou do setor privado, a proposta decepcionou países mais pobres, que exigem garantias de que o financiamento público será destinado à adaptação.
A presidência brasileira da COP30 havia sugerido a criação de um grupo de trabalho para conduzir um cronograma global de transição energética. A resistência da Arábia Saudita e o apoio de países como a Índia enfraqueceram a iniciativa, revelando o dilema central das negociações: como conciliar ambição climática com interesses econômicos de curto prazo.
Repercussão política
A retirada da menção aos combustíveis fósseis expõe a fragilidade do multilateralismo climático diante de interesses divergentes. Para países vulneráveis e organizações da sociedade civil, o resultado representa um retrocesso em relação às promessas anteriores e uma ameaça direta à credibilidade da COP como espaço de avanço global.
Ao mesmo tempo, a ênfase no financiamento climático busca manter algum grau de consenso, mas sem enfrentar diretamente as causas estruturais da crise. O episódio reforça a percepção de que, sem um compromisso explícito com a eliminação gradual dos combustíveis fósseis, será impossível cumprir a meta de limitar o aquecimento a 1,5°C.





