Rio quase seco devido estiagem severa e prolongada na Amazônia. (Foto: Ag. Gov)


A Amazônia, um bioma crucial para o equilíbrio climático global, está enfrentando desafios crescentes devido a secas mais frequentes e intensas.


Esse cenário, marcado pela diminuição das chuvas, elevação da temperatura e o prolongamento da estação seca, está comprometendo a capacidade vital da floresta de recircular água e estocar carbono.

O ciclo da água ameaçado

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A água é um elemento vital para a existência da Amazônia. Grande parte da chuva na região (cerca de 50% a 60%) é gerada pela própria floresta.

A água evaporada do oceano é transportada para o continente e, uma vez na floresta, é liberada de volta para a atmosfera por meio da evapotranspiração. Esse processo não só irriga a própria Amazônia, mas também distribui umidade para outras regiões do Brasil e da América do Sul.

No entanto, as mudanças observadas nas últimas quatro décadas – menos chuvas, temperaturas mais altas e estações secas mais longas – estão causando estresse hídrico nas árvores. Como explica Liana Anderson, pesquisadora do Cemaden e do Trees, “A água é um elemento vital para entender a Amazônia e pensar sobre seu futuro. O bioma só existe porque tem água na região. Porém, mais da metade da floresta tem enfrentado eventos de estresse hídrico nos anos recentes”. Essa redução na disponibilidade de água afeta diretamente a capacidade da floresta de realizar a ciclagem regional da água.

Mortalidade de Árvores e Perda de Carbono

O aumento do estresse hídrico tem levado a um crescimento na mortalidade de árvores mais antigas. Essas árvores, com suas raízes profundas, são essenciais para puxar água do solo e liberá-la na atmosfera. A morte delas enfraquece o sistema de ciclagem da água.

“Quando começa a ter mortalidade maior dessas árvores, que pegam a água do solo da floresta por meio de raízes mais profundas e jogam para a atmosfera, isso significa que esse sistema de ciclagem da água está sendo minado”, alerta Anderson.

Além disso, o aumento da temperatura afeta a capacidade da floresta de estocar carbono. Temperaturas mais elevadas aumentam as demandas metabólicas das árvores, resultando em maior perda de carbono por meio da respiração e podendo prejudicar a fotossíntese. Luiz Aragão, pesquisador do Inpe e do Trees, destaca: “A cada grau de aumento da temperatura há uma redução de 6% nos estoques de carbono da floresta”.

Yrá Tikuna, professora indígena, atravessa ponte improvisada sobre rio seco para chegar à comunidade Inhãa-Bé. (Foto: Paulo Desana/Dabukuri/ISA)


Paisagem Mais Inflamável

A combinação de secas e temperaturas elevadas tem um efeito perigoso: torna a paisagem da floresta mais inflamável. Com a morte das árvores, o material lenhoso se acumula no chão da floresta, servindo de combustível para incêndios. “Quanto mais quente, mais as árvores morrem e o material lenhoso delas fica acumulado no chão da floresta, tornando essas áreas mais suscetíveis a incêndios”, afirma Aragão.

A fragmentação da floresta também agrava o problema. Áreas desmatadas ou divididas em pedaços menores tornam-se mais vulneráveis ao fogo. “Em contrapartida, em paisagens mais fragmentadas há áreas queimadas muito grandes. Ou seja, a fragmentação torna esse tipo de paisagem mais inflamável. É como se ela ficasse seca constantemente”, explica Aragão, com base em estudos do Inpe.

Refúgios hidrológicos

Apesar do cenário desafiador, pesquisas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) apontam para a existência de refúgios hidrológicos. São partes da floresta que parecem resistir melhor às secas. Estudos de campo mostram que florestas com lençol freático raso (água subterrânea próxima à superfície) têm demonstrado maior resiliência, com mortalidade reduzida e até crescimento estável das árvores mesmo em anos de seca extrema.

Flávia Regina Capelloto Costa, pesquisadora do Inpa, ressalta a importância dessas descobertas: “É importante lembrar que 50% da Amazônia tem lençol freático raso, mas a maior parte dos estudos sobre as respostas da floresta às mudanças climáticas está focando em áreas com lençol freático mais profundo. Dessa forma, talvez ainda não saibamos qual será a verdadeira resposta da floresta às secas se estivermos olhando para um tipo de ambiente que só representa parte da Amazônia”.

Esses resultados, apresentados na 77ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Recife, sublinham a urgência de aprofundar o conhecimento sobre a complexidade da Amazônia e desenvolver estratégias de conservação que levem em conta essas particularidades. Proteger a Amazônia significa preservar não apenas suas árvores, mas também o intrincado sistema de água e carbono que sustenta a vida no bioma e além dele.