Os senadores negaram o indiciamento de Virginia e Deolane. (Reprodução Fotos)


Após sete meses de trabalho, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Bets chegou ao fim nesta quinta-feira (12) com a rejeição de seu relatório final. O parecer, elaborado pela senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS), que previa o indiciamento de 16 pessoas, incluindo as influenciadoras digitais Virginia Fonseca e Deolane Bezerra, foi derrubado por 4 votos a 3 em uma sessão esvaziada. Com isso, a CPI encerra suas atividades sem o envio formal de propostas de indiciamento a órgãos oficiais, levantando questionamentos sobre a efetividade da comissão.

A votação decisiva refletiu as divisões internas da CPI e no Senado. Votaram contra o relatório os senadores Angelo Coronel (PSD-BA), Eduardo Gomes (PL-TO), Efraim Filho (União-PB) e Professora Dorinha Seabra (União-TO). A favor do parecer de Thronicke, manifestaram-se os senadores Eduardo Girão (Novo-CE) e Alessandro Vieira (MDB-SE), além da própria relatora.

Mesmo com a rejeição, a senadora Soraya Thronicke afirmou que não se dará por vencida. Ela assegurou que encaminhará as conclusões de seu relatório, que considerou construído a partir de “provas robustas”, e toda a documentação colacionada às autoridades competentes, como Ministério Público, Polícia Federal e Ministério da Fazenda. “Farei a entrega do relatório e de toda documentação, que nós colacionamos, para as autoridades competentes para continuarem na investigação, indiciarem e depois apresentar para o Judiciário”, declarou a senadora à imprensa. Em um tom de desafio, Thronicke acrescentou: “Todos os brasileiros saberão que não terminou e não terminará em pizza. Eu não sou a pizzaiola.”

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O parecer da relatora apontava para um “crescimento descontrolado e desregulado das bets” no Brasil, movimentando, segundo o documento, até R$ 129 bilhões em 2024. A senadora criticava “abusos claros, com influenciadores simulando apostas falsas, propagandas apresentando as apostas como meio de investimento ou de ficar rico facilmente”, que resultavam na “realocação de recursos de famílias de classes mais baixas em apostas”.

A lista de 16 nomes sugeridos para indiciamento abrangia empresários e influenciadores. Virginia Fonseca, com seus quase 75 milhões de seguidores, era acusada de publicidade enganosa e estelionato por induzir seguidores a apostas com “simulações irreais de ganhos”. Já Deolane Bezerra era apontada como sócia oculta de uma plataforma de apostas, a ZeroUm, e alvo de pedidos de indiciamento por contravenções penais de jogo de azar e loteria não autorizada, além de estelionato, lavagem de dinheiro e integração de organização criminosa. A Paybrokers, empresa intermediária de recebimento de recursos de sites de apostas, também era alvo de investigações sugeridas.

Nos bastidores, o clima em torno da CPI era de crescente “desprestígio”. Longe dos holofotes e frequentemente esvaziada, a comissão gerou críticas recorrentes da relatora e do presidente, Hiran Gonçalves (PP-RR). Lideranças do Senado, incluindo o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), teriam reprovado o que consideraram uma “espetacularização e desvio de função nas audiências que ouviram influenciadores”. Aliados de Alcolumbre chegaram a se referir ao depoimento de Virginia Fonseca como uma espécie de “circo”, em meio a uma “turba de tietes” nos corredores e pedidos de fotos de senadores.

Em nota, a defesa da influenciadora Virginia Fonseca reagiu à decisão do placar. O advogado Michel Saliba afirmou que recebe a rejeição do relatório “com tranquilidade e confiança nas instituições”. Ele ressaltou que “Reconhece-se a importância dos trabalhos desenvolvidos pela CPI, notadamente quanto a regulamentação e propostas de legislação para divulgação dos jogos online. Virginia acredita ter contribuído para os trabalhos da CPI e para o aperfeiçoamento futuro da legislação.”

Com o enterro do relatório, a CPI das Bets encerra suas atividades sem um consenso sobre a responsabilização dos envolvidos. Resta agora aguardar se as conclusões e as “provas robustas” apresentadas por Soraya Thronicke terão desdobramentos nas mãos do Ministério Público, Polícia Federal e Ministério da Fazenda, como prometeu a senadora, ou se o caso terminará, como alguns temiam, “em pizza”.

Ciro Nogueira, amigo de investigado

O senador Ciro Nogueira, membro da CPI das bets, viajou rumo a Mônaco em avião particular de Fernando Oliveira Lima, presidente e fundador da One Internet Group, empresa de tecnologia que atua no setor de apostas, denunciou a Revista Piauí.

A Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado, que investigou as casas de apostas, levanta a hipótese de que a One Internet Group seja responsável pela representação do Fortune Tiger — o “jogo do tigrinho” — no país. O presidente da OIG ainda afirma em depoimento que o faturamento da empresa gira em torno de R$ 200 milhões por ano.

O motivo da viagem do senador foi assistir ao Grande Prêmio de Mônaco, uma das corridas mais tradicionais e prestigiadas da Fórmula 1.

Segundo a revista Piauí, Ciro Nogueira está junto com Fernando Oliveira Lima — investigado na CPI e dono do jatinho.

Fernando Oliveira esteve presente na CPI inicialmente como testemunha. No entanto, após contradições em sua fala apontada pela senadora e relatora da Comissão Parlamentar de Inquérito das Apostas Esportivas, o empresário foi chamado para depor como investigado, porém ainda não apareceu no Senado.