A megaoperação “Carbono Oculto”, deflagrada na quinta-feira (28), revelou o avanço e a complexidade do crime organizado no Brasil, que ultrapassa o tráfico de drogas e se infiltra em setores estratégicos da economia nacional. Segundo especialistas em segurança pública, a ação — considerada a maior já realizada contra facções criminosas no país — trouxe uma sensação de vulnerabilidade, mas também de esperança no combate a essas organizações.
Conforme a Receita Federal, a operação mirou um esquema bilionário comandado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) no setor de combustíveis e no mercado financeiro. A investigação aponta que o grupo controlava mais de 40 fundos de investimento, com patrimônio de R$ 30 bilhões, além de cerca de mil postos de combustíveis.
Apesar de a ação ter como alvo a estrutura financeira do grupo, a suspeita de vazamento de informações permitiu a fuga de alvos importantes. Ainda assim, especialistas ouvidos pela RFI aprovaram a operação, por atacar as fontes de renda da facção e não apenas seus líderes, como ocorria em ações anteriores.
Infiltração na economia e no poder público
O especialista em segurança pública Rafael Alcadipani, professor da FGV-SP, afirma que a infiltração de grupos criminosos na sociedade brasileira e em órgãos públicos já era conhecida. No entanto, os detalhes da operação, que se estendeu por oito estados, revelaram uma dimensão alarmante.
Alcadipani descreveu a situação como assustadora, destacando o alto nível de envolvimento de setores econômicos. “A gente que é especialista na área sabe que o PCC está infiltrado em vários setores da economia brasileira, que tem tentáculos muito amplos e está aperfeiçoando sua forma de lavar dinheiro. Mas é bastante assustador, porque mostra um nível de comprometimento de setores econômicos muito sério”, disse.
O modus operandi do PCC, que inclui a adulteração de combustíveis e a aquisição de propriedades rurais por meio de ameaças a agricultores, expõe uma cadeia organizada para dominar um setor essencial à economia nacional.
Nívio Nascimento, analista do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ressaltou que a operação reforça que o crime organizado no país não depende mais exclusivamente do tráfico de drogas. “Ele está infiltrado em setores estratégicos, como combustíveis, cana-de-açúcar e até no mercado financeiro”, afirmou.
O crime chega à Faria Lima
A operação revelou que o crime organizado não se restringe a ordens dadas de dentro de presídios, mas também do centro financeiro de São Paulo. De acordo com Nascimento, a ação da polícia encontrou 42 alvos na Avenida Faria Lima, um dos corações financeiros do país.
Para ocultar bens e movimentar recursos ilícitos, o grupo utilizava fintechs e empresas de fachada. “Fintechs e gestoras usadas como fachada mostram que não estamos falando apenas de facções em presídios, mas de infiltração direta na economia. Como disse a Receita, o crime está bancarizado, não precisa de paraíso fiscal”, destacou Nascimento.
Foco na descapitalização
Os analistas concordam que a operação “Carbono Oculto” é um passo na direção certa. O foco em atingir a estrutura financeira das facções é uma boa prática internacional, que busca descapitalizar as organizações criminosas. “A diferença dessa operação é que ela seguiu o que se considera boa prática internacional. Foi um trabalho coordenado de vários órgãos, que não mirou apenas nos chefes da facção, mas também nas estruturas de lavagem de dinheiro e no patrimônio”, afirmou o analista Nívio Nascimento.
A ação resultou na apreensão de imóveis, fazendas e carros, o que, para os especialistas, mostra a importância de uma abordagem coordenada e da colaboração institucional. Os especialistas também apontam para a necessidade de que os órgãos públicos analisem com mais critério as empresas que mesclam tecnologia e finanças. Eles defendem que essas empresas deveriam ter uma regulamentação similar à dos bancos. ( Da Redação e da RFI)


