O especialista em combate à fraudes, Marcelo Gomes, durante entrevista ao BC TV


Por Adriana Blak (RJ)

O avanço do crime organizado sobre a economia formal e a sofisticação das fraudes corporativas foram os temas centrais da entrevista concedida pelo especialista em compliance Marcelo Gomes à BC TV nesta terça-feira (12).

A conversa ocorreu um dia após a divulgação de pesquisa do Datafolha em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que trouxe um dado alarmante: 83% dos brasileiros afirmam temer perder dinheiro em golpes pela internet ou celular. O levantamento mostra que mais de 26 milhões de pessoas foram vítimas de fraudes digitais no último ano, enquanto operações recentes da Polícia Federal e da Receita Federal identificaram desvios superiores a R$ 770 milhões. O INSS, por sua vez, já precisou devolver mais de R$ 2,8 bilhões a aposentados e pensionistas, e fraudes ligadas ao Banco Master somam mais de R$ 50 bilhões.

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Marcelo Gomes, sócio da DFEXA Consultoria e Perícia Contábil, acumula 35 anos de experiência em investigações de grande repercussão, como a Lava Jato e o Mensalão. Para ele, a consolidação do crime organizado no país é resultado de um processo histórico que remonta às décadas de 1950 e 1960, marcado pela perda progressiva de controle por parte do Estado.

“O crime se tornou mais organizado, ocupou territórios, o que é muito preocupante”, afirmou.

No campo corporativo, Gomes destacou que fraudes internas continuam representando um desafio relevante para empresas brasileiras e globais. Ele explicou que perdas relacionadas a práticas fraudulentas cometidas por funcionários, classificadas como “abuso ocupacional”, historicamente variam entre 6% e 8% do faturamento das empresas.

“Ao menos 6% do faturamento bruto de uma empresa é desviado por fraudes”, disse, acrescentando que esse índice se mantém estável há anos, inclusive em padrões internacionais.

O especialista avaliou ainda o papel dos programas de compliance. Para ele, esses mecanismos contribuíram para reduzir irregularidades, mas não eliminaram o problema.

“O compliance reduziu e reduziu muito as fraudes, mas ele depende da seriedade da implementação”, explicou.

Segundo Gomes, em empresas com falhas estruturais de controle, os programas apenas escancaram a dimensão do problema, enquanto a tecnologia oferece recursos cada vez mais sofisticados para o crime.

Outro ponto abordado foi a forma de atuação do crime organizado dentro das empresas. Se antes a infiltração ocorria principalmente por meio de funcionários vulneráveis, hoje os grupos criminosos atuam de forma estruturada, inclusive como clientes, fornecedores ou concorrentes no mercado formal.

“O crime entra como cliente ou fornecedor, sempre com proposta muito mais vantajosa”, afirmou.

Entre os setores mais vulneráveis, Gomes cita tanto atividades tradicionais, como postos de combustíveis e lavanderias, quanto áreas mais recentes, como logística, transporte e franquias. A sofisticação dessas organizações permite sua inserção em diferentes ramos da economia, inclusive por meio da aquisição de empresas legalmente constituídas.

A análise aponta para um cenário em que a intersecção entre criminalidade organizada e economia formal se torna cada vez mais complexa.

“Agora, finalmente, começa a ficar ainda mais visível como organizações criminosas”, disse Gomes.

Para especialistas, esse quadro exige maior rigor nos mecanismos de controle, governança e fiscalização empresarial, sob pena de que empresas e instituições públicas continuem expostas a perdas bilionárias e danos irreparáveis de reputação.

A seguir, leia alguns dos principais trechos da entrevista:

Adriana Blak – O governo Lula lançou um pacote contra o crime organizado. Dentro do contexto estão os grupos que se infiltraram em empresas, cometem fraudes, lavam dinheiro etc. Como é que a gente chegou nesse estágio, Marcelo?

Marcelo Gomes – Eu acho que é uma construção de décadas, não é uma coisa que começou agora. É uma construção de décadas de fortalecimento dos grupos criminosos organizados. Isso remonta às décadas de 50 e 60. 

E houve, acho que o Estado — e aí não digo o Estado como União, mas os Estados da federação e a própria União — se perderam no meio desse caminho. 

O crime se tornou mais organizado, ocupou territórios, o que é muito preocupante, e chegamos a esse estado de coisas. Pesquisas recentes dizem que 25% da população está sob a tutela de alguma organização criminosa. Então, isso realmente é um fator preocupante.

Adriana Blak – O senhor afirma que 6% do faturamento das empresas é desviado. Esse número ainda vale para 2026?

Marcelo Gomes – Esse é um número histórico, ele sempre variou de 6% a 8%. Isso é um número até global; o Brasil não é nenhuma exceção quando a gente fala de crime nas empresas. Esse número é o que a gente chama de abuso ocupacional. 

É o funcionário que tem uma ocupação remunerada, legalizada dentro da empresa e, historicamente, no Brasil, o número da fraude cometida por esse tipo de funcionário gira entre 6% e 8%. Então, na última pesquisa, os índices ficaram nesse valor de 6%. 

Na época da Lava Jato, que teve uma repercussão maior, chegou-se a 9%, mas, historicamente, sempre girou… Eu diria que o número é 7%. 

A última pesquisa foi 6%. Pode ser que no ano que vem seja 7%, porque nós temos outras situações aparecendo. Então, não é uma exclusividade do Brasil e não é um número, vamos dizer, assustador. Ele está mantendo a média dos últimos 10 anos acompanhados por essas publicações.

Adriana Blak – Por que o compliance não reduziu as fraudes? Ele apenas escancarou o problema?

Marcelo Gomes – Não, o compliance reduziu, e reduziu muito as fraudes. Existem muitos profissionais, excelentes profissionais na área de compliance. O que a gente tem visto é justamente o contrário: as empresas que estão com problemas de compliance são justamente aquelas que tiveram fraude.

A gente tem a notícia, seja de uma americana que teve problema com compliance, seja de outras empresas também… Se você pegar o Banco Master, o que a gente tem de notícia é que eles nunca tiveram um código de ética, um compliance verdadeiro. Chegou-se ao ponto de o diretor de compliance dizer que simplesmente assinava sem ler.

Então, isso não é compliance, isso não é um compliance officer. Os compliance officers com quem eu lido no dia a dia são profissionais altamente capacitados, que têm cuidados seja com as questões de fraude, seja com as questões de assédio moral, assédio sexual, questões de meio ambiente e direitos humanos. 

São profissionais altamente qualificados, e você vai ver que, na maioria dessas empresas onde esses profissionais atuam, não vou dizer que não acontece fraude, mas ela ocorre em um valor muito menor, porque eles têm controle, têm todo um regramento, e a coisa funciona.

Adriana Blak – Marcelo, de que forma o crime organizado entra numa empresa? Como cliente, fornecedor ou como funcionário?

Marcelo Gomes – Então, como estou há 35 anos nessa vida, eu já vi de tudo, acho que eu já vi de tudo. O começo do crime organizado, quando eu me lembro dele entrar na empresa, era via o funcionário, e vários casos que eu tive na década de 90, começo de 2000, eram funcionários viciados em droga e que vendiam droga dentro da empresa.

E aí o crime organizado falava assim: ‘olha, toma aqui de graça para você vender lá dentro’. Aí, quando a droga entrava dentro da empresa, era aquele Deus nos acuda, porque a empresa já estava cooptada pelo crime organizado. Era muito difícil essa situação.

Hoje não. Hoje o crime organizado está maior, ele ocupa um espaço diferenciado, e hoje ele é o seu cliente, ele é o seu concorrente, então ele tem uma empresa estruturada. 

Então hoje mudou a figura do crime organizado, como ele se insere na economia. Então começou com os clássicos, lavanderia, adega, jogo ilegal, mas agora está migrando para a área de óleo e gás, está migrando para logística, para qualquer tipo de negócio, negociação de ouro, telefonia, qualquer tipo de atividade econômica que possa ser transacionada com dinheiro. 

As franquias, por exemplo, tem muita perfumaria que vende chocolate, o franqueador não tem um controle sobre o franqueado, o franqueado pode ser alguém ligado ao crime organizado. Então é através da economia normal que eles vão entrando.

Adriana Blak – Falando nisso, existe um setor específico que é mais vulnerável? Tipo, o posto de gasolina, lavanderia, a empresa de ônibus, ainda são os clássicos, ou já tem outro que é o mais-mais?

Marcelo Gomes – Os clássicos continuam — adegas, lavanderia — e os modernos são as franquias, a área de logística, porque hoje em dia o crime organizado estão se inserindo naquilo que precisam. 

Eu preciso fazer transporte de droga da Bolívia para o Porto de Santos. Antigamente eu tentava cooptar um motorista de caminhão, eu precisava tentar cooptar uma transportadora; não, hoje o crime organizado compra uma transportadora.