Caso Braskem: impacto social abala também áreas vizinhas, revela filme. (Frame do documentário/Divulgação)


Um dos maiores crimes ambientais do Brasil, cujos responsáveis permanecem impunes, vai estar em exibição nos cinemas do país a partir desta terça-feira (25).


O documentário “Ainda há moradores aqui” conta a história sobre como a exploração de sal-gema numa área urbana de Maceió, capital de Alagoas, causou não só danos ao meio-ambiente e ao ecossistema, como também trouxe desespero, dor e abandono de moradores de uma extensa área da cidade.


O sal-gema é um mineral usado na produção de soda cáustica, ácido clorídrico, bicarbonato de sódio, sabão, detergente e pasta de dente, na produção de PVC, de de cloro para purificação de água e produção de plásticos e produtos químicos, entre outros.

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O documentário será lançado oficialmente no Complexo Cultural do Teatro Deodoro, em Maceió, com entrada gratuita para o público. Após o filme haverá um debate com os moradores das áreas atingidas e representantes de movimentos sociais.


O filme tem 42 minutos e 34 segundos e reconstrói a luta dos afetados pela destruição provocada pela mineração da Braskem, expondo um dos mais graves desastres urbanos da história.


O desastre ambiental em Maceió começou em 3 de março de 2018, quando foram registrados tremores de terra, que revelaram os efeitos catastróficos da extração por décadas de sal-gema pela Braskem.


A mineração provocou o afundamento extensa área de diversos bairros da capital alagoana, obrigando à remoção de mais de 60 mil pessoas de suas moradias.


Cinco bairros inteiros foram esvaziados, e os moradores deixaram para trás casas, móveis e suas histórias de vida.


AS HISTÓRIAS


A saudade, por onde quer que olhe, passou a estar nas palavras e também no silêncio do vendedor de churros Valdemir dos Santos, de 54 anos. O maceioense, morador do bairro do Flexal de Cima, que sofre com isolamento socioeconômico pela desocupação causada pelo desastre da Braskem, tem a casa e a vida com rachaduras desde 2018.


A partir do primeiro tremor de terra causado pela exploração de sal-gema pela mineradora, mais do que as rachaduras em espaços da casa, começou a acontecer um impacto ainda mais difícil de lidar: o econômico, que já dura quase sete anos na vida de boa parte dos moradores da capital.


“Somos vítimas do crime ambiental da Braskem. Mais de 2,5 mil famílias saíram daqui. Isso causou um grande impacto para nós”, afirmou Valdemir em entrevista à Agência Brasil. Ele diz que não aceitou a indenização oferecida pela mineradora, de R$ 25 mil.


Tremores fizeram com que moradores de cinco bairros da cidade tivessem que deixar suas casas. O Flexal, que fica no meio do caminho entre essas comunidades, agora é um “bairro-fantasma”.


RISCO


O defensor público de Alagoas Ricardo Melro acredita que houve um subdimensionamento da área de risco, visto que imóveis que ficam na borda desse mapa também estão com sérios problemas estruturais e passando por “extremo isolamento social”.


“Estamos fazendo contato com pessoas de fora de Alagoas e do Brasil para nos ajudar com os dados que já temos aqui. A comunidade está adoecendo com problemas de saúde mental gravíssimos, inclusive de suicídios”, alerta.


Ele contaa que houve um acordo com a empresa para reurbanizar essa área na borda, o Flexal de Cima e o Flexal de Baixo. “Os moradores sabem que qualquer movimento e dinâmica social só voltariam com a população. Cerca de 80% da população pedem socorro para sair de lá”, diz o defensor.


Há uma estimativa de que 20 mil casas estão na região do entorno das áreas de risco. “Nessa situação de isolamento, são cerca de mil casas, ou cerca de 2.7 mil pessoas.


Para o defensor público, o programa de compensação financeira foi lamentável. “O programa condicionou o pagamento da indenização do imóvel à aceitação de um dano moral tabelado”. O programa estipulou R$ 40 mil para todas as casas como dano moral e não considerou as particularidades de cada família.


Em relação às obras de revitalização no bairro do Flexal, que incluem unidade básica de saúde, creche e centro de apoio a pescadores, o Ministério Público Federal aponta que as ações estão sendo avaliadas neste primeiro semestre para verificar se o objetivo será atingido.


Em nota à reportagem, a assessoria de comunicação da mineradora Braskem alega que atua para implementação de medidas socioeconômicas para os bairros dos Flexais (de Cima e de Baixo).


“Das 23 iniciativas definidas em acordo com as autoridades, 14 já foram implementadas – como os serviços de limpeza urbana e controle de pragas, rota de ônibus e transporte escolar exclusivos e gratuitos para os moradores”.


Outras estariam “avançadas”, como as obras de construção da creche-escola e da unidade básica de saúde, em fase de conclusão.
Outro argumento da mineradora é que o pagamento de indenizações por ilhamento social já foi feito para mais de 99% das famílias, moradores e comerciantes.


“Além disso, em novembro de 2022, a Braskem repassou R$ 64 milhões ao município, para a adoção de medidas adicionais”. A companhia ressalta que a região dos Flexais é “constantemente monitorada” e, segundo estudos técnicos, não apresenta movimentação de solo associada ao afundamento do terreno.


A respeito das áreas de risco, a mineradora informou que cerca de 40 mil moradores da área de desocupação definida pela Defesa Civil em 2020 foram realocados de forma preventiva. Outra informação é que o programa de compensação financeira teve até o fim de janeiro 19.189 propostas apresentadas aos moradores das áreas de desocupação, o que representa a totalidade dos pleitos recebidos até este mês.


Sobre o impacto na saúde mental dos moradores, a Braskem respondeu que disponibiliza serviço de apoio psicológico gratuito para as famílias, comerciantes e empresários como para a comunidade dos Flexais.

Enquanto isso, o vendedor de churros Valdemir dos Santos está desanimado. Uma esperança é que a história deles volte a chamar a atenção, como ocorreu com o documentário a ser lançado nesta terça e também pelo interesse da imprensa em divulgar o caso.


Pelas ruas silenciosas do bairro, ele vaga atrás de clientes e das memórias. Tem saudade do lugar em que criou os três filhos, das conversas com os amigos, do esforço para comprar a casa com a esposa há 23 anos, e até dos sonhos que ficaram para trás. “Eu tenho muita saudade da vizinhança que a gente tinha aqui. Tudo, a praça, a igreja, tudo era importante”.

Casa abandonada pelos moradores em Maceió, num dos bairros atingidos pelo tremor. (Foto Divulgação)