A Organização Mundial da Saúde (OMS) possui estudos indicando que, até 2050, o planeta terá 1,3 bilhão de pessoas com diabetes. Atualmente, dados da OMS afirmam que existem 800 milhões de adultos diabéticos no mundo.
Para aprofundar a discussão de um tema tão atual e que atinge em cheio o Brasil, o Jornal BC TV, do portal BRASIL CONFIDENCIAL, realizou nesta terça-feira (12) uma entrevista exclusiva com o médico endocrinologista Antonio Carlos do Nascimento, doutor pela Faculdade de Medicina da USP.
Ele é considerado um dos mais importantes especialistas na área no país, autor de artigos sobre o assunto, e tem acompanhado a evolução do quadro do diabetes no Brasil de forma acelerada.
Nascimento, em sua entrevista, abordou os fatores que impulsionam o crescimento do diabetes no Brasil, as diferenças entre os tipos da doença — 1 e 2 — e o papel da indústria farmacêutica no tratamento, com o anúncio de novas drogas como Ozempic e Mounjaro.
A epidemia silenciosa
Antonio Carlos do Nascimento afirmou que a preocupação com o crescimento do diabetes é justificada, mas não surpreendente. Segundo ele, “não vejo assim nenhum motivo para estarmos alarmados”. Para o especialista, a causa principal é clara e tem nome: o avanço da obesidade, impulsionado por fatores como o consumo regular de alimentos ultraprocessados.
No Brasil, diz ele, o cenário já é preocupante, de acordo com a área de saúde pública. “Existe a estimativa de 10% da população adulta diabética. Estamos falando aí de aproximadamente 16 milhões de adultos”, destacou. Desses casos, a grande maioria — “90% são de diabetes tipo 2” — enquanto apenas “10% dos diabetes são tipo 1”.
O endocrinologista esclareceu as diferenças entre os dois tipos da doença:
• Diabetes tipo 1: Conhecido como infantojuvenil, é uma doença autoimune em que “a população de células pancreáticas produtoras de insulina são completamente destruídas com a mediação, a participação do sistema imunológico”.
• Diabetes tipo 2: O tipo mais comum, que Nascimento chamou de “válvula mestra” para o avanço da doença. Ele explicou que o diabetes tipo 2 “está vinculado intimamente à obesidade”, e por isso seu avanço “está muito bem explicado” em todo o mundo.
Ciclo vicioso
O médico detalhou como a obesidade, especialmente a gordura abdominal, desencadeia o diabetes tipo 2. “À medida que nós ganhamos peso, aumentamos a obesidade visceral”, que é a gordura acumulada no abdômen e em órgãos como o fígado — processo que ele chamou de esteatose hepática.
Essa gordura em excesso provoca um processo inflamatório que “dificulta a ação periférica da insulina produzida pelo pâncreas”. Em outras palavras, a insulina perde sua capacidade de levar a glicose para as células. Para compensar, o pâncreas trabalha em excesso e “começa a fazer cada vez mais insulina para vencer essa resistência”.
No entanto, esse mecanismo cria um “ciclo vicioso” em que mais insulina produzida leva ao aumento da gordura visceral, “até que o pâncreas chega ao limite, ele exaure. E aí você tem deflagrado o diabetes tipo 2”.
O especialista ressaltou que esse ciclo pode ser interrompido: “O processo é lento? Ele pode ser bloqueado? Bloqueado pelo cessar do ganho de peso ou, principalmente, pelo emagrecimento”. Por isso, a relação é direta: “É proporcional o aumento do diabetes tipo 2 ao aumento do sobrepeso e da obesidade”.
Complicações e novos medicamentos
Ao abordar o que realmente preocupa no diabetes, o endocrinologista foi categórico: “As complicações que mais nos preocupam se relacionam a padrões cardiovasculares”. Ele listou algumas das consequências mais graves e frequentes do diabetes mal controlado:
• Doenças cardiovasculares: Como arteriosclerose, doença coronariana e acidente vascular cerebral, que são “muito mais frequentes” em diabéticos.
• Amputações: O diabetes é “a principal causa de amputação” devido ao comprometimento da circulação.
• Insuficiência renal: “A principal causa de insuficiência renal crônica é o diabetes”, que afeta os pequenos vasos sanguíneos dos rins.
• Cegueira: A doença também é “a principal causa de cegueira no planeta”, por danificar a microcirculação na retina.
Os novos medicamentos, como os baseados em semaglutida e tirzepatida, combatem a obesidade e, por consequência, o diabetes. Como explicou o endocrinologista, ao focar no emagrecimento, esses tratamentos atacam a causa principal da doença, oferecendo uma abordagem promissora para o controle e a prevenção do diabetes tipo 2.
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