Laira Vieira


Laira Vieira*

Diamante Bruto (2024), primeiro longa-metragem da diretora francesa Agathe Riedinger, nos lança de cabeça num cenário onde o glamour das redes sociais é mais uma arena de sobrevivência do que uma vitrine de autoestima. O filme, premiado em Cannes e estrelado por Malou Khebizi (Enzo) — em uma performance crua e feroz — gira em torno de Liane (Malou), uma adolescente de 19 anos que sonha em se tornar famosa e rica ao entrar no reality show Miracle Island. E Riedinger, ao invés de aliviar a tensão, a transforma numa corda bamba entre empoderamento e autodestruição.

Há quem enxergue na protagonista uma heroína da era digital, tentando usar as próprias armas para se libertar. Mas talvez a obra seja mais cruel que isso: Liane não quer questionar o sistema, ela quer fazer parte dele. E é nesse desejo cego, quase patológico, que Diamante Bruto crava sua lâmina. A heroína se recusa a ser coadjuvante no espetáculo social que consome corpos femininos como se fossem entretenimento reciclável. Seu corpo é seu currículo, seu histórico familiar é uma cicatriz aberta. Riedinger não nos oferece alívio: ela nos convida a assistir, impotentes, à erosão lenta de uma jovem que aprendeu que o único jeito de existir é performar.

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O universo que cerca Liane é plastificado, saturado, e desprovido de qualquer verdade que não tenha filtro. O neon das lojas de conveniência e o brilho das telas são os únicos faróis de uma geração que trocou o afeto por curtidas. Não há espaço para dúvida, nuance ou silêncio: tudo precisa ser dito, mostrado, vendido. E é justamente nesse excesso de exposição que a obra revela seu niilismo elegante. Não há revolução, só adaptação. E não há empatia, só audiência.

A influência de Coralie Fargeat — diretora de Vingança (2017) e A Substância (2024) — é perceptível, mas Riedinger escolhe uma rota menos sangrenta e mais devastadora: ela transforma o corpo da protagonista não em arma, mas em moeda. Ambas cineastas orbitam o chamado neofeminismo estético, que oscila entre denúncia e fetichização. A ambiguidade está lá: filmar o corpo feminino em close é, ao mesmo tempo, dar-lhe centralidade e submetê-lo à mesma lógica de consumo que o longa pretende criticar. É uma contradição desconfortável, mas deliberada. Talvez a única maneira de expor o sistema seja reproduzi-lo até a náusea.

Na segunda metade do longa, Liane começa a se perder na própria performance. Sua busca por validação se torna um ritual de auto mutilação, não só emocional. E o que poderia ser uma ascensão acaba se revelando uma travessia fantasmagórica: nem o estrelato nem a redenção estão no horizonte. Só resta o espelho distorcido, filtrado, ensaiado, onde ela se vê e já não se reconhece. A câmera, cúmplice cruel, não a poupa em nenhum momento.

Cena do filme “Diamante Bruto”. (Foto: Divulgação)

“A felicidade dos povos depende de um engano”, escreveu o filósofo Emil Cioran, mestre em arrancar o véu das ilusões modernas. Sua frase ecoa com brutal clareza no mundo da protagonista. Ela não é vítima de um sistema, ela é sua criação mais fiel: produto final de um algoritmo emocional que recompensa o vazio e pune a complexidade. Diamante Bruto não acusa, apenas expõe. Mas o que é exposto fere. E muito.

O filme não se limita a denunciar ou narrar, ele entalha em nossa pele uma ferida exposta, pulsante e inquieta. Liane não é só personagem, mas metáfora viva: o corpo dela é palco e prisão, sedução e cativeiro. O erotismo, aqui, não é adorno, mas armadilha; a estética, não simples escolha, mas instrumento de poder e renúncia. Fica claro que a beleza, longe de ser libertadora, pode se tornar uma corrente invisível que aperta o pescoço.

Nesse jogo cruel, onde o olhar alheio pesa mais que a própria carne, o corpo feminino se transforma em moeda e arma — negociados numa economia afetiva que exige sangue e suor como tributo. O longa-metragem expõe essa transação com uma honestidade incômoda, mas não definitiva. Fica a pergunta que se arrasta para além da tela: quantos sorrisos falsos e gestos ensaiados escondem a ânsia de existir numa sociedade que só reconhece o que brilha?

É um convite à resistência silenciosa e à reflexão amarga, não há redenção fácil, nem vitórias retumbantes. Só resta o desafio de olhar, despir as máscaras e encarar o espelho quebrado onde nossa própria imagem pode ser a mais estranha e desconhecida. É possível lapidar um sistema podre sem se deixar contaminar pelo brilho falso das suas promessas?

Diamante Bruto é mais que cinema: é um alerta poético para os que ainda acreditam que o brilho na superfície basta. A verdadeira transformação talvez resida na coragem de recusar o preço da aparência: um pacto que nem sempre é tão belo quanto parece, e pode ser perigoso. 

*Laira Vieira é Critica Cultural, Economista e Tradutora. Autora.