Por Adriana Blak (RJ)
O teólogo e gestor público Dione Caruzo acaba de lançar O Sagrado no Profano: Religião e Política na Constituição do Poder, obra que propõe uma reflexão histórica sobre a influência da religião nas estruturas políticas ao longo da humanidade. Em entrevista ao BC TV desta sexta (15), o autor explicou que o título provocativo foi escolhido justamente para estimular o debate sobre dois temas que, segundo ele, “sempre caminharam juntos”.
“O sagrado representa as religiões, enquanto o profano simboliza a política. Basta olhar para os debates atuais para perceber que essas duas áreas continuam profundamente conectadas”, afirma Caruzo.
Com mais de 30 anos de atuação na teologia e experiência em diferentes áreas da administração pública, o autor destaca que o livro não possui caráter religioso nem partidário. “É um livro de história”, resume. A obra percorre desde os grandes impérios da Antiguidade — Babilônico, Medo-Persa, Grego e Romano — até acontecimentos contemporâneos, analisando como religião e poder político se entrelaçaram em diferentes contextos históricos.
Caruzo também aborda a trajetória do judaísmo, cristianismo e islamismo, destacando as origens comuns entre essas tradições religiosas. Segundo ele, compreender esse percurso histórico é essencial para entender os conflitos e disputas ideológicas da atualidade.
Ao longo da entrevista, o autor defende a importância de discutir religião e política de forma aberta e consciente. Para ele, a ideia popular de que “religião e política não se discutem” favorece justamente a manipulação social e o fortalecimento de lideranças despreparadas.
“Quando o povo se afasta desses debates, acaba sendo governado por corruptos enquanto falsos profetas continuam influenciando a sociedade”, argumenta, citando reflexões atribuídas ao filósofo grego Platão.
Experiência na gestão pública
Além da formação em Teologia, Gestão Pública e Administração Pública, Dione Caruzo possui pós-graduação em Administração Pública e Docência do Ensino Superior. Ao longo da carreira, ocupou cargos de secretário municipal em diversas cidades do interior do Rio de Janeiro, atuando em áreas como Administração, Recursos Humanos, Fazenda, Governo, Assistência Social e Saúde.
Segundo ele, a experiência prática na administração pública influenciou diretamente a construção do livro. O autor critica escolhas políticas baseadas exclusivamente em ideologias religiosas e defende que a gestão pública deve priorizar competência técnica e honestidade.
“Quando a escolha deixa de ser técnica e passa a ser puramente ideológica, o resultado é uma gestão ineficiente, e quem sofre é a população”, afirma.
História como ferramenta de reflexão
Caruzo explica que O Sagrado no Profano é o primeiro volume de uma trilogia. A proposta inicial foi utilizar acontecimentos históricos para demonstrar como erros do passado continuam sendo repetidos na sociedade contemporânea.
Entre os episódios analisados no livro estão a Batalha de Maratona, a Reforma Protestante, o Iluminismo, a Revolução Francesa e o surgimento dos regimes totalitários do século XX. O autor também discute como símbolos religiosos e discursos ideológicos foram utilizados por líderes autoritários para mobilizar populações em períodos de crise.
Apesar das críticas ao extremismo religioso e político, Caruzo afirma que a obra é uma defesa da democracia, da liberdade religiosa e da convivência entre diferentes crenças. Filho de uma família marcada pela pluralidade religiosa, ele destaca que o problema não está na fé, mas no uso político da religião para fins de poder e manipulação.
“Enquanto não entendermos os riscos dessa união descontrolada entre religião e poder político, continuaremos repetindo os mesmos erros da história”, conclui.
A seguir, leia alguns dos principais trechos da entrevista:
Adriana Blak – Como surgiu a ideia de escrever O Sagrado no Profano e por que você acredita que discutir religião e política ainda é tão importante nos dias de hoje?
Dione Caruzo – Resolvi escrever este livro — e faço aqui uma pequena observação sobre o título: O Sagrado no Profano. O nome é provocativo de propósito, justamente para chamar atenção.
Quando falo do “sagrado”, refiro-me às religiões. Já o “profano” representa a política. E, querendo ou não, religião e política sempre caminharam juntas ao longo da história da humanidade.
Precisamos debater essas duas pautas, porque não podemos nos manter afastados de temas tão vitais para a sociedade. Basta observar os jornais: grande parte das discussões atuais gira justamente em torno desse entrelaçamento entre religião e política.
Infelizmente, hoje vemos ideologias religiosas sendo usadas dentro da política pública. Em vez de discutirmos serviços públicos e projetos que beneficiem a população, acabamos presos a debates ideológicos.
Foi por isso que escrevi O Sagrado no Profano: Religião e Política na Constituição do Poder. E faço questão de destacar: este não é um livro religioso, nem um livro político. É um livro de história.
Mas que história é essa? A história do entrelaçamento entre religião e política em diferentes períodos da humanidade. Começo no Império Babilônico, considerado o primeiro grande império da história, passando pelos impérios Medo-Persa, Grego e Romano, até chegar aos dias atuais.
Também abordo a trajetória do cristianismo, do judaísmo e do islamismo. O judaísmo, por exemplo, é a raiz do cristianismo, enquanto judaísmo e islamismo compartilham a mesma origem patriarcal em Abraão. Lá atrás, a raiz era a mesma; ao longo do tempo, os caminhos foram se dividindo.
Trago toda essa construção histórica para mostrar que a união entre religião e política sempre existiu. E uma das estratégias mais antigas do poder é justamente afastar o povo desse debate.
Criou-se até a ideia de que “religião e política não se discutem”, mas isso, na minha visão, é um grande erro. Precisamos discutir, sim, religião e política.
Platão, na Grécia Antiga, já alertava que, quando o povo se afasta desses debates, acaba sendo governado por corruptos enquanto falsos profetas continuam influenciando a sociedade.
Por isso, acredito que precisamos lançar luz sobre essas duas questões. Sei que muitos não gostam desse tipo de discussão, mas ela é necessária. E foi exatamente por isso que escrevi este livro, inspirado também na minha própria história.
Adriana Blak – De que forma sua experiência de mais de 30 anos na teologia e na gestão pública influenciou a reflexão apresentada no livro?
Dione Caruzo – Tenho 31 anos de experiência como teólogo. Sou formado em Gestão Pública e Administração Pública, com pós-graduação em Administração Pública e em Docência do Ensino Superior.
Ao longo da minha trajetória, atuei como secretário em diversas pastas em cidades do interior do Rio de Janeiro. Já fui secretário de Administração, área na qual tenho formação específica, além de ter ocupado as secretarias de Recursos Humanos, Fazenda, Governo, Assistência Social e Saúde.
Tenho a honra de afirmar que, em todas as secretarias e cidades por onde passei, deixei indicadores melhores do que encontrei. Porque acredito que gestão pública é, acima de tudo, competência.
Costumo fazer uma comparação simples: imagine que você possui a empresa da sua família e depende diretamente dos resultados dela. Ao contratar um gerente para administrá-la, quais critérios você utilizaria? Você escolheria essa pessoa pela religião — se é católica, evangélica, espírita ou ateia? Escolheria pela cor, nacionalidade, orientação sexual ou preferência pessoal? Claro que não.
Os critérios principais seriam honestidade e competência.
Infelizmente, quando falamos dos “gerentes” do nosso país — que são os políticos eleitos para administrar aquilo que pertence a todos nós — muitas vezes a escolha tem sido feita com base em ideologias religiosas.
E, com isso, acabam sendo eleitas pessoas despreparadas, sem conhecimento de gestão pública, sem vocação para servir à população e, muitas vezes, sem a competência necessária para exercer a função.
O próprio nome já diz: servidor público. Mas muitos entram na vida pública querendo ser servidos, e não servir.
Quando a escolha deixa de ser técnica e passa a ser puramente ideológica, o resultado é uma gestão ineficiente, e quem sofre é a população.
Foi justamente essa reflexão que me motivou a escrever este livro.
Adriana Blak – Por que o senhor escolheu usar acontecimentos históricos para explicar os riscos da união entre religião e poder político?
Dione Caruzo – Escrevi isso neste primeiro livro porque, na verdade, trata-se de uma trilogia. Este é apenas o primeiro volume.
Nele, abordo a história da relação entre religião e política. Escolhi começar pela história porque acredito que muitos dos erros que cometemos hoje são repetições de erros antigos — apenas com novas roupagens. E isso acontece porque a sociedade desconhece a própria trajetória histórica.
Existe um velho ditado que diz: “Quem não sabe de onde veio não sabe onde está; e quem não sabe onde está não sabe para onde vai.” Vejo que grande parte da população acaba perdida justamente por repetir padrões históricos sem perceber.
Sou totalmente favorável à democracia. Este livro é uma defesa da verdadeira fé, da verdadeira política pública e da democracia — contra os falsos políticos e os falsos profetas.
Também me posiciono contra o extremismo, que cresce cada vez mais. O extremismo é perigoso porque transforma o diferente em inimigo. E a democracia é frágil; por isso, precisa ser constantemente defendida.
Venho de uma família muito plural. Meus avós paternos eram espíritas, tive um tio pai de santo, e meu pai é pastor. Isso mostra como o respeito entre diferentes crenças é algo bonito e possível.
O problema surge quando grupos religiosos — ou falsos religiosos — entram na política movidos por interesses pessoais e manipulação do poder.
Por isso, decidi construir este primeiro livro com base na história. Porque contra fatos históricos não há argumento. Em 213 páginas, procurei reunir acontecimentos históricos de forma cronológica e conectada, criando uma leitura fluida, quase como um romance, mesmo sendo uma obra de não ficção.
Volto aos grandes impérios da Antiguidade para demonstrar que religião e política sempre estiveram interligadas. Também apresento o que chamo de “Encruzilhadas da História” — momentos decisivos que mudaram os rumos da humanidade.
Um exemplo é a Batalha de Maratona. Se o Império Persa tivesse derrotado os gregos, talvez o Império Grego nunca existisse da forma como conhecemos. Alexandre, o Grande, provavelmente não surgiria, e a cultura ocidental seria completamente diferente, já que nossa base filosófica e cultural é profundamente influenciada pela Grécia.
Outro exemplo importante é a Reforma Protestante. Muitos enxergam aquele movimento apenas como um evento religioso, mas ele também foi uma revolução educacional. Durante séculos, o conhecimento ficou concentrado nas mãos do clero, enquanto o povo permanecia analfabeto. A Reforma despertou a necessidade de leitura, interpretação e acesso ao conhecimento. A partir dali, a educação começou a alcançar o povo, que passou a questionar estruturas de poder e manipulação.
E faço uma reflexão importante: naquela época, o povo era enganado por falta de acesso à educação. Hoje, mesmo com informação disponível, muitas pessoas continuam sendo manipuladas.
Também analiso momentos como a Revolução Francesa, o Iluminismo e o surgimento dos regimes totalitários no século XX. Mostro como, em períodos de crise e fragilidade democrática, surgem líderes autoritários que utilizam símbolos religiosos, ideológicos e nacionalistas para conquistar poder.
Abordo ainda o fascismo na Itália, liderado por Mussolini, e como determinados discursos políticos e religiosos foram usados historicamente para combater adversários ideológicos e mobilizar a população.
Ao longo do livro, demonstro como a união entre religião e política influenciou profundamente os rumos da sociedade. E concluo que, em muitos momentos da história, essa mistura gerou perseguições, intolerância, preconceitos e conflitos que causaram mais sofrimento do que progresso para a humanidade.
Acredito que compreender essa história é fundamental para que possamos construir uma sociedade mais consciente, democrática e equilibrada. Porque, enquanto não entendermos os riscos dessa união descontrolada entre religião e poder político, continuaremos repetindo os mesmos erros e elegendo pessoas sem preparo real para governar.
SERVIÇO

O Sagrado no Profano
Autor: Dione Caruzo
Editora: Diálogo Freiriano
Páginas: 212
📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:
Conheça o teólogo Dione Caruzo

Dione Caruzo é teólogo e gestor público brasileiro, com trajetória marcada pela atuação simultânea nas áreas de ensino bíblico e administração pública. Ao longo de mais de três décadas, dedicou-se ao estudo e à docência em temas ligados à teologia e à interpretação bíblica, construindo uma carreira voltada à formação e à reflexão religiosa.
Paralelamente à atuação no campo teológico, acumulou mais de 14 anos de experiência no serviço público. Nesse período, exerceu funções de secretário em diferentes áreas da gestão municipal, incluindo Administração, Assistência Social, Planejamento Econômico e Saúde, com atuação voltada à organização administrativa e à implementação de políticas públicas.
Sua trajetória profissional é caracterizada pela interseção entre fé, gestão e políticas sociais, transitando entre o ambiente acadêmico-religioso e a administração pública. Essa combinação de experiências consolidou sua atuação em temas que envolvem liderança, organização institucional e análise de estruturas sociais.
Além da atuação técnica e administrativa, Dione Caruzo também se dedica ao ensino e à reflexão sobre a relação entre religião, sociedade e poder, integrando essas áreas em sua produção intelectual e prática profissional.


