A investigação conduzida pelo Tribunal de Contas da União (TCU) sobre a decisão do Banco Central de liquidar o Banco Master tem chamado atenção não apenas pelo conteúdo, mas também por quem a coordena: um ministro de 42 anos com raízes políticas profundas e mandato vitalício até 2059.
Jhonatan de Jesus, ex-deputado federal pelo estado de Roraima e integrante do bloco político Centrão, foi nomeado ao TCU em 2023, aos 39 anos. Agora, como o mais jovem integrante da Corte, lidera uma apuração sobre se o Banco Central agiu com precipitação ao encerrar as atividades do Banco Master, instituição investigada por um esquema de fraude bilionária.
O Banco Central apresentou sua resposta formal ao TCU nesta segunda-feira (29) dentro do prazo estipulado por Jesus. Os documentos, ainda sob sigilo, serão analisados pela área técnica do tribunal antes de seguirem para o gabinete do ministro.
A atuação de Jesus tem gerado desconforto entre seus pares. Embora alguns ministros defendam a competência do TCU para fiscalizar atos do Banco Central, outros questionam o tom e os objetivos da investigação. “Há uma percepção de que isso pode ser um exagero”, disse um integrante da Corte sob condição de anonimato.
A intervenção do Banco Central no Master foi motivada por indícios de fraude de R$ 12,2 bilhões envolvendo carteiras de crédito fictícias supostamente adquiridas da empresa Tirreno. A Polícia Federal também investiga o caso, que levou à prisão — posteriormente revogada — do controlador do banco, Daniel Vorcaro.
No despacho que abriu a apuração, Jesus sugeriu que o Banco Central pode ter ignorado alternativas de mercado que evitariam a liquidação e o uso de recursos do Fundo Garantidor de Créditos. Ele apontou uma “demora relevante” na busca por soluções e uma “precipitação” na adoção da medida extrema.
O episódio reacende memórias de outras intervenções do TCU em temas monetários. Em 2015, o tribunal condenou ex-dirigentes do Banco Central a devolverem R$ 520 milhões por um socorro considerado irregular ao Banco FonteCindam. Mais recentemente, durante o governo Jair Bolsonaro, aliados do então presidente tentaram usar o TCU para pressionar o presidente do BC, Roberto Campos Neto, por supostas inconsistências contábeis.
Apesar disso, a iniciativa de Jesus não conta com apoio amplo. Aliados do presidente do TCU, ministro Vital do Rêgo, minimizam a chance de uma ação institucional contra o BC. Caso Jesus tente avançar com medidas mais incisivas, o plenário deverá ser acionado — e a tendência é de reversão.
A própria nomeação de Jesus ao TCU foi cercada de críticas. Médico de formação, ele cumpriu quatro mandatos como deputado federal, com atuação discreta e alinhamento a pautas como o garimpo. Junto ao pai, o senador Mecias de Jesus (Republicanos-RR), indicou gestores para a saúde indígena na Terra Yanomami, alvo posterior de investigação por suspeita de fraudes.
Um mês após assumir o cargo no TCU, Jesus empregou a esposa no gabinete de um suplente — ela foi identificada como funcionária fantasma, segundo revelou o jornal Estadão.
Sua indicação foi articulada pelo então presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), como parte de um acordo com partidos do Centrão para garantir apoio à sua reeleição.
O cargo de ministro do TCU é vitalício, com aposentadoria obrigatória aos 75 anos — idade que Jesus só atingirá em 2059. O salário atual é de R$ 41.808,09.
Procurado por meio da assessoria do tribunal, o ministro não respondeu aos pedidos de entrevista.





