Uma semana após a imposição do tarifaço de 50% pelos Estados Unidos contra o Brasil, o governo Lula apresentou nesta quarta-feira (13) um plano de R$ 30 bilhões para tentar atenuar o impacto nas exportações brasileiras.
A medida, vista como uma resposta política à crise diplomática, visa proteger setores-chave como café, carne bovina, frutas e pescados, que agora enfrentam barreiras para entrar no mercado norte-americano.
O Plano Brasil Soberano foi detalhado em na edição desta quarta do “Jornal BC TV”, do portal BRASIL CONFIDENCIAL.
O programa também contou com a participação do economista Nelson Rocha, que analisou a estratégia governamental.
Rocha, presidente da Câmara de Comércio do Rio de Janeiro e diretor da Câmara de Comércio do Brasil, é especialista no assunto e detalhou os pontos fortes e fracos do plano, além de prever os desafios futuros.
Impacto imediato
Rocha, que acompanha de perto a realidade dos exportadores, confirmou que alguns setores já sentem o impacto. Segundo ele, os Estados Unidos são um dos principais mercados do Brasil, atrás apenas da China.
“Há setores mais afetados. O Brasil, de certa forma, tem os Estados Unidos como um dos seus principais destinos e isso é uma situação que deve ser considerada”, explicou. O economista destacou que alguns produtos, como os do setor aeronáutico, foram retirados do aumento de tarifas, o que representou um alívio. No entanto, outros setores, como o de alimentos e carnes, estão entre os mais vulneráveis.
Para mitigar os efeitos imediatos, o governo tenta negociar com os Estados Unidos e, ao mesmo tempo, busca alternativas. Rocha ressaltou que os empresários precisam de tempo e apoio. “Buscar outros mercados é uma alternativa, mas isso não acontece da noite para o dia”, ponderou.
Pilares do plano
Ao analisar o pacote governamental, Rocha destacou que o ponto mais forte é a criação de uma linha de financiamento para as empresas. “A garantia da linha de financiamento para as empresas é fundamental para os setores impactados”, disse. A medida é essencial para ajudar essas empresas que, mesmo sem vender seus produtos, precisam continuar pagando seus passivos, comprando matéria-prima e garantindo a manutenção dos empregos. “Muitas empresas vão deixar de comprar a matéria-prima, por exemplo, e às vezes vão ter dificuldade para colocar esse produto em algum lugar e, no entanto, têm que pagar seus passivos”, explicou o economista.
Outro ponto considerado positivo por Rocha é a possibilidade de o próprio governo federal absorver parte da produção. Ele sugeriu que o governo poderia usar essas compras para compor estoques reguladores, algo que foi se perdendo com o tempo. “Há uma redução desses estoques reguladores. Portanto, poderia se aproveitar parte dessas exportações para retomar e ampliar novamente e ter um nível adequado de estoque, para que, em um momento de dificuldade, você possa usar”, pontuou. Rocha também citou a possibilidade de usar esses produtos em programas como a merenda escolar, em presídios e no programa social “Alimenta a Cidade”, do Ministério da Assistência Social.
Os limites
Apesar dos pontos positivos, o economista alertou para as limitações do plano e os riscos a longo prazo. “O problema é como vai realocar em um primeiro momento. Isso é até positivo no mercado interno, porque você vai ter um excesso de oferta e, com isso, os preços vão cair”, avaliou Rocha. Essa queda de preços poderia, inclusive, ajudar a conter a inflação de alimentos, segundo ele.
No entanto, Rocha enfatizou que essa é uma solução de curto prazo. “As consequências de longo prazo podem ser mais danosas, porque você perde um mercado como esse”, destacou.
A maior preocupação do economista é que a conquista de novos mercados é um processo lento e gradual. “O processo de conquista de clientes e de mercados é longo e não se conseguirá isso de forma rápida. Então, no longo prazo, essas empresas podem ter problemas, como ter que demitir e fazer uma redução de pessoal. E isso não é bom para a economia”, afirmou.
Multilateralismo
Diante do cenário de incerteza, o economista defendeu a necessidade de diversificação das parcerias comerciais. Ele lembrou que, desde os anos 2000, o Brasil vem migrando de uma relação bilateral com os Estados Unidos para o multilateralismo, e que, desde 2009, a China se tornou o principal destino das exportações brasileiras. “Não adianta a gente sair de uma relação bilateral que o Brasil teve durante anos com os Estados Unidos — e isso veio migrando desde os anos 2000 — para que tivesse o multilateralismo”, pontuou.
O economista concluiu que o Brasil precisa se organizar para não depender de um único parceiro, seja ele os Estados Unidos ou a China. “Quanto mais houver pulverização para a África, o Oriente Médio, a Europa, enfim, melhor, para não ficar com dependência”, finalizou.
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