O Phd em Economia e especialista em educação, Claudio de Moura Castro, durante entrevista ao BC TV


Por Germano Oliveira (SP) e Adriana Blak (RJ)

A educação brasileira vive um paradoxo: alcançou a universalização do acesso ao ensino básico e multiplicou o número de universitários, mas ainda não conseguiu garantir qualidade e equidade. A avaliação é do economista e educador Claudio de Moura Castro, que vê na formação docente e na falta de integração entre ensino acadêmico e técnico os principais gargalos do sistema.

Em entrevista ao programa BC TV, do portal Brasil Confidencial, nesta segunda-feira (23), Castro disse que até o início do século XX menos de 10% das crianças estavam na escola. Hoje, praticamente todas têm acesso ao ensino básico — um avanço histórico. No entanto, o país teria passado de um sistema “pouco e ruim” para outro “amplo, porém insatisfatório”.

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Desigualdade e perda de prestígio da carreira docente

Segundo o especialista, a rede pública já foi referência, atendendo majoritariamente alunos de classe média e contando com professores altamente qualificados. Com a ampliação das oportunidades profissionais, o magistério perdeu atratividade, o que impactou diretamente a qualidade do ensino.

Outro ponto crítico, segundo Castro, é a formação de professores. Mudanças curriculares teriam fragilizado a preparação prática, resultando em profissionais menos preparados para enfrentar os desafios da sala de aula.

Escola pública do início do século XX no Brasil: estudar era um privilégio de classes sociais. (Reprodução)

Ensino técnico como peça-chave

Castro defende que o fortalecimento da educação técnica e profissional é essencial para alinhar a escola às demandas do mercado de trabalho. “Diferentemente do ensino acadêmico, mais generalista, a formação técnica exige conexão direta com oportunidades reais de emprego”, afirmou.

A proposta é integrar escolas tradicionais e instituições especializadas em capacitação profissional, criando um sistema complementar mais eficiente.

Otimismo moderado

Apesar dos entraves, o educador mantém uma visão moderadamente otimista. Para ele, o Brasil já demonstrou capacidade de avançar rapidamente quando há políticas adequadas. “O desafio agora é transformar o acesso universal em ensino de qualidade, capaz de preparar os estudantes para os desafios contemporâneos”, explicou.

A superação da crise educacional, conclui, depende de reformas estruturais que articulem qualidade, equidade e relevância no processo de ensino-aprendizagem.

A seguir, leia alguns dos principais trechos da entrevista:

Germano Oliveira – Apesar das dificuldades da educação, o senhor não é pessimista sobre os seus resultados. O senhor diz que o seu livro mergulha nos desafios e conquistas do sistema educacional brasileiro, destacando momentos de progresso e períodos de estagnação. O senhor pode dizer sucintamente quais foram os momentos de progresso e os de estagnação da nossa educação?

Claudio de Moura Castro – Veja bem, o grande problema da educação brasileira não é o que nós estamos fazendo errado, é o que nós deixamos de fazer por quatro séculos. Nós emplacamos o século XX com menos de 10% das crianças na escola e, principalmente, as mulheres estavam fora da escola. E nós emplacamos o século XXI com praticamente 100% das crianças na escola.

Isso é um progresso extraordinário. Nós passamos de menos de 10% para praticamente — 100% nunca é, é próximo disso. Então, esse é um grande progresso.

Quando eu fazia faculdade na UFMG, o número de alunos universitários no Brasil era menor do que o número de alunos hoje no Acre, ou em alguma dessas universidades de porte médio. Hoje nós temos nove milhões. É um ganho extraordinário.

E, para resumir, e com um pouquinho de exagero, nós tínhamos uma educação que era pouca e ruim. Hoje nós temos uma educação que é muita e mais ou menos ruim. Quer dizer, é um progresso extraordinário.

Poucos países deram um salto tão grande. Até 1950, nós estávamos particularmente atrasados, mesmo em comparação com países mais ou menos da América Latina. Hoje nós estamos chegando perto de países que há 100 anos já estavam bastante avançados, como Chile, Argentina e Uruguai.

Então, não é tão ruim assim.

Germano Oliveira – Agora, o senhor faz também uma crítica contundente sobre as disparidades entre as escolas públicas e privadas, com as dificuldades que a gente conhece, as diferenças que acontecem, que afetam muito a qualidade da nossa educação. Por que isso acontece? E por que, num passado não tão distante, as escolas públicas chegaram a ter bastante sucesso?

Claudio de Moura Castro – O pessoal que hoje está na escola particular é o mesmo tipo de classe social, é a mesma extração que estava na escola pública há 50, 80 anos atrás. Quer dizer, então, não é de se estranhar.

Naquele momento, a escola era uma escola de classe média e alta, e os professores ou as professoras eram, nesse momento, a única profissão aceitável para uma mulher.

Então, a escola recrutava professores da melhor qualidade possível. Hoje, a mulher pode fazer tudo o que quiser. Então, dadas as dificuldades da escola pública, o magistério se tornou muito pouco atrativo.

Então, não atrai mais aquela qualidade que a gente tinha no passado, que eram alunos de classe média alta e professores de classe média alta.

Aliás, tinha até aquela formação das normalistas, que as mulheres faziam — eram só mulheres — e ali havia um bom desenvolvimento. Os institutos de educação eram bastante bons e, hoje, a formação de professores sofreu um acidente de percurso.

De repente, depois que o Paulo Renato reformulou os cursos de formação profissional e que entrou o novo governo, o governo Lula, houve uma revirada completa e colocaram no currículo da formação de professores exatamente o currículo da formação de orientadores pedagógicos.

Na verdade, é um currículo que não é bom para ninguém, é um currículo para sábio. Só que, para formar sábio, você tem que recrutar pessoas com perfil de sábio, e não é isso que as escolas de educação recrutam.

Na verdade, quando a gente olha para a federal, os alunos que vão fazer pedagogia são os mais fracos que entram na universidade federal. Então, esse é um problema bastante grave.

Adriana Blak – Como educador e escritor, o senhor diz que precisamos de uma educação técnica para o nosso desenvolvimento. Quais são as barreiras para que isso seja implementado de forma eficaz?

Claudio de Moura Castro – A primeira barreira — quer dizer, tem várias barreiras, mas vamos falar de uma — é a educação acadêmica, pela sua definição, serve para tudo. Então, ninguém pode dizer que você está fazendo uma educação acadêmica que não tem mercado para ela, que não tem isso, que não tem aquilo. Ela é genérica, ela prepara para você ser capaz de se desenvolver no que quer que você faça depois.

A educação técnica é muito menos genérica. Ou tem um emprego ali na frente que pode receber essa pessoa ou não vai dar certo. Esse, então, é um problema.

O mecanismo de funcionamento da educação técnica exige uma correspondência bastante estreita entre quem você forma e quem o mercado quer. Então, essa é uma dificuldade.

A outra dificuldade é que, quando você tenta formar profissões, especialmente profissões manuais, qualificadas etc., a escola acadêmica — o etos dela — não é esse. O etos dela é lápis, papel, abstração, decoreba, altas filosofias.

Quer dizer, ela é uma escola que não se sente confortável quando a gente fala de fazer as coisas, quando a gente fala de aprender a fazer. Não é a praia dela, nunca foi em lugar nenhum.

Na Escandinávia, um pouco isso acontece, porque são características da sociedade. Mas, em geral, a escola acadêmica tem dificuldade com formação profissional, inclusive nos Estados Unidos.

A formação profissional que funcionava bem no passado nos Estados Unidos hoje ou migrou para os community colleges, quer dizer, para o nível superior — o que corresponde à evolução da sociedade — ou ela não funciona mais direitinho.

Então, esses são os dois principais problemas.

Então, quando a escola acadêmica, quando o MEC, quando essa cabeça de gente tenta fazer educação profissional, não é a praia deles, não é o que eles sabem. Em contraste, Senai e Senac fazem muito bem.

Por quê? Porque são escolas cuja origem, cujas raízes estão na indústria, na empresa, na economia. A escola regular não se entende bem com o mundo econômico, com o mundo real. Essas são as duas grandes dificuldades que a gente observa na formação profissional.

Adriana Blak – Agora, professor, quais são as suas sugestões práticas e viáveis para superar esses desafios educacionais?

Claudio de Moura Castro – Uma das soluções — claro que não, na verdade, não é uma solução, é um conjunto de soluções caminhando nessa direção — é que a parte acadêmica seja oferecida pelas escolas, públicas ou privadas, ou o que seja, e a parte profissional seja oferecida por instituições cujo etos, cuja alma seja de preparar gente para fazer o que o mercado quer.

O que o Senai faz bem, o Senac faz bem e outras instituições fazem.

Então, se houver uma boa solução ou um conjunto de boas soluções para que essas duas coisas se acoplem, essas duas instituições se acoplem — uma faz o que sabe fazer, a outra sabe o que faz fazer — e são coisas bem diferentes.

Então, acho que esse é o principal desafio numa solução realista.

SERVIÇO

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Sucessos e Fracassos da Educação Brasileira
Autor
: Claudio De Moura Castro
Editora: Qualitymark
Páginas: 406

O que aborda o livro de Claudio de Moura Castro

O livro Sucessos e Fracassos da Educação Brasileira examina a formação do sistema educacional no país desde o período colonial, passando pela criação das primeiras instituições de ensino superior, pela expansão da rede pública e pelas reformas que marcaram diferentes momentos da história.

O autor analisa como avanços pontuais se alternaram com períodos de estagnação e como fatores sociais e culturais influenciaram a estrutura escolar brasileira.

O livro dedica atenção às desigualdades entre escolas públicas e privadas, apontando os efeitos dessas diferenças na qualidade do ensino e na formação dos estudantes. Outro ponto tratado é a educação técnica e profissionalizante, considerada estratégica para o desenvolvimento econômico, mas ainda limitada por barreiras institucionais e de financiamento.

Além da análise histórica e dos diagnósticos sobre desigualdade, Castro apresenta propostas voltadas para ampliar a equidade e melhorar a qualidade do ensino. Entre elas estão medidas de gestão escolar, valorização da formação docente e expansão da educação técnica. O livro também discute perspectivas futuras, indicando caminhos possíveis para que o Brasil alcance um sistema educacional mais eficiente.

📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:

Conheça o educador Claudio de Moura Castro

Claudio de Moura Castro, nascido em 1938, é um dos nomes mais influentes da economia e da educação no Brasil. Economista formado pela Universidade Federal de Minas Gerais, com mestrado em Yale e doutorado em Vanderbilt, construiu uma trajetória marcada pela combinação entre pesquisa acadêmica e atuação em organismos internacionais.

Professor em instituições como PUC-Rio, Fundação Getulio Vargas, Universidade de Brasília e universidades estrangeiras de prestígio, Castro se destacou pela capacidade de traduzir conceitos complexos em análises acessíveis sobre ensino e mercado de trabalho.

Sua carreira inclui passagens pelo Banco Mundial, Banco Interamericano de Desenvolvimento e pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), onde trabalhou em projetos voltados à educação técnica, ao acesso ao ensino superior e à alfabetização.

Autor de livros e artigos, além de colunista em veículos de imprensa como a revista Veja e o jornal O Estado de S. Paulo, tornou-se referência no debate sobre políticas públicas educacionais. Defensor da modernização do ensino superior e da valorização da educação técnica, contribuiu para a formulação de propostas que influenciaram governos e instituições na América Latina.

Com mais de meio século de dedicação à educação, Claudio de Moura Castro consolidou-se como uma voz crítica e respeitada. Seu legado está na formação de gerações de pesquisadores e na defesa de um sistema educacional capaz de preparar o país para os desafios do desenvolvimento.