Por Germano Oliveira (SP) e Adriana Blak (RJ)
A pandemia deixou marcas profundas em todas as gerações, mas é na adolescência que seus efeitos mais silenciosos se revelam. É esse território de perdas, luto e reinvenção que a jornalista e escritora Mariza Tavares explora em “Pra Continuar Com Ela”, obra recém-lançada que retoma a trajetória de Miguel, personagem criado há uma década e agora confrontado com os dilemas do pós-pandemia. Em entrevista ao programa BC TV, conduzida por Germano Oliveira e Adriana Blak, Mariza reflete sobre saúde mental, envelhecimento e o desafio de narrar tempos de ruptura.
Durante a conversa, a autora, que é jornalista, destacou que sua atuação profissional se divide entre dois universos distintos: a produção de conteúdo sobre longevidade, voltada ao público adulto, e a literatura infantojuvenil, desenvolvida em parceria com o jornalista e escritor José Godoy. Segundo ela, o interesse pelo tema do envelhecimento começou ainda na rádio CBN, com a criação do programa “50 Mais”, e se expandiu para um blog dedicado ao assunto.
O ponto central da entrevista foi o lançamento de Pra Continuar Com Ela, sequência do livro publicado há cerca de dez anos. A nova obra retoma a trajetória do personagem Miguel, agora adolescente, que enfrenta desafios mais complexos após o período da pandemia. “Dessa vez, existe uma história marcada por perdas, mudanças familiares e dificuldades econômicas que muitos viveram”, explicou a autora.
Mariza ressaltou que a pandemia trouxe impactos profundos para os jovens, muitas vezes negligenciados no debate público. “Associamos muito o período ao sofrimento dos idosos, o que é legítimo, mas os adolescentes também foram profundamente afetados, especialmente no campo da saúde mental”, afirmou. A autora citou mudanças de rotina, excesso de conexão digital e casos mais graves de sofrimento emocional como elementos que inspiraram a narrativa.
Ao ser questionada por Adriana Blak sobre o retorno dos leitores, Mariza relatou que muitos adolescentes compartilharam experiências semelhantes às vividas pelo personagem. “Há relatos de isolamento, inversão de horários e até comportamentos autodestrutivos. É um cenário que exige atenção”, disse.
A entrevista também abordou o tema do envelhecimento, área na qual a autora se define como “uma aprendiz da velhice”. Para ela, o conceito deve ser compreendido em sua diversidade. “Estamos falando de um período que pode ir dos 60 aos 100 anos ou mais. Não existe uma velhice única — são muitas, determinadas por condições de saúde, contexto social e histórico de vida”, destacou.
Outro ponto relevante foi a discussão sobre perdas e luto, temas recorrentes em suas obras. Mariza enfatizou que o luto vai além da morte, abrangendo diferentes tipos de rupturas ao longo da vida. “Perdas fazem parte do processo de crescimento, seja na adolescência ou na maturidade. É fundamental aprender a lidar com elas”, afirmou.
Ao final, a escritora defendeu a importância de abordar temas sensíveis na literatura, especialmente para o público jovem. Para ela, livros podem oferecer um espaço mais profundo de reflexão, em contraste com respostas rápidas e superficiais encontradas nas redes sociais.
Com linguagem acessível e abordagem sensível, Mariza Tavares reforça, em sua obra mais recente, a importância do diálogo intergeracional e da atenção à saúde mental — temas cada vez mais centrais na sociedade contemporânea.
A seguir, leia alguns dos principais trechos da entrevista:
Germano Oliveira – Marisa, pelo livro que você lançou na semana passada, em que você escreveu, inclusive, em parceria com o jornalista e escritor José Godoy. Essa obra é uma continuação do livro editado por vocês em 2015, intitulado Para Ficar Com Ela. Marisa, o que você quer dizer exatamente nessas obras que você produziu? É sobre longevidade, que é a tua especialidade? Sobre o que você fala?
Mariza Tavares – São duas coisas diferentes. Desde 2016, esse ano vai fazer dez anos, que eu tenho um blog sobre longevidade. Foi uma história que começou na CBN, como você falou mesmo, quando eu criei o programa 50 Mais.
Minha parceria com o José Godoy, que também é uma parceria de vida, porque a gente é casado, é na linha dos livros infantis e infantojuvenis.
Esse que acabou de chegar, Para Continuar Com Ela, é uma continuação de um livro que a gente fez há dez anos. Mas o personagem tinha dez anos no primeiro livro, agora ele tem 14, e ele passou pela pandemia, que acho que também é um assunto muito importante, porque todos nós que somos mais velhos vimos como isso bateu muito fortemente nos adolescentes, principalmente nos pré-adolescentes, toda essa garotada que teve que ficar confinada em casa.
Então eu brinco que trabalho dos 8 aos 80 — na verdade é dos 5 aos 100 — com livros infantis e infantojuvenis, e também com a minha produção voltada para adultos, principalmente os 50+.
Germano Oliveira – Queria que você falasse um pouquinho desse livro que você lançou agora, no dia 25, Para Continuar Com Ela. Você falou desse adolescente, o Miguel. O que você verificou nessa nova fase? Como foi essa sequência depois da pandemia?
Mariza Tavares – Quando a gente criou o Miguel há dez anos, ele era um menino vivendo o primeiro amor, algo muito comum ali entre 10 e 11 anos. Para conseguir chegar na garota dos sonhos, ele começa a escrever um diário — e, ao escrever, começa também a refletir sobre a própria vida. É uma jornada de autoconhecimento.
O livro foi muito bem, foi adotado por escolas, e a editora sempre sugeria uma continuação. Mas eu não queria fazer algo artificial. Depois da pandemia, eu pensei: “agora existe uma história”.
Esse menino passa a viver uma realidade em que a família enfrenta dificuldades, pais desempregados, necessidade de reorganização — algo que muita gente viveu. Aí o processo de escrita foi rápido.
Eu e o Zé escrevemos juntos: cada um faz um capítulo, o outro revisa, a gente discute, às vezes briga, quase uma DR de casal, mas no final dá certo.
E esse livro, espero, ajuda a refletir sobre esse período tão dramático. Normalmente associamos a pandemia ao sofrimento dos idosos — que foi real —, mas o tempo vai mostrar o impacto profundo nos jovens, que não têm as mesmas ferramentas emocionais dos mais velhos.
Adriana Blak – Queria tocar nesse ponto. Você teve retorno de adolescentes? Histórias que te marcaram?
Mariza Tavares – Principalmente essa questão de inverter rotina — gente virando a noite, porque as aulas eram online. Já é difícil manter a atenção presencialmente, imagina no online.
Muitos jovens passaram a viver conectados o tempo todo, em redes sociais. No livro, o Miguel brinca que ficou como um “urso panda”, sem dormir, querendo saber o que os outros estavam fazendo.
Mas também há histórias mais graves: jovens que chegaram a se ferir, num processo de autodestruição. Foi um período muito duro para todos.
Existe uma tendência de achar que crianças e adolescentes “superam rápido”, mas não necessariamente. Os dados de saúde mental mostram que a situação é bem mais complexa.
Por isso, no meu livro voltado para os 60+, eu começo falando justamente de saúde mental. Porque todo mundo fala de exercício, alimentação, sono — tudo isso é importante —, mas se você não estiver bem mentalmente, não consegue nem começar a cuidar do corpo.
E as pesquisas mostram: o isolamento contínuo faz mal para o cérebro. Isso já é comprovado cientificamente.
Adriana Blak – Você é especialista em longevidade. É correto falar em envelhecimento?
Mariza Tavares – Eu me considero uma aprendiz da velhice. Envelhecer é complexo. E sim, envelhecimento é o termo correto.
O importante é entender que, quando falamos de envelhecimento, estamos falando de um período que vai dos 60 aos 100 anos ou mais — e isso envolve uma enorme diversidade.
Não dá para colocar todo mundo na mesma categoria. Tem gente que chega aos 60 ativa, saudável, correndo maratona, e outros chegam com limitações.
A velhice não é uma só — são muitas. E isso depende, inclusive, do contexto social, do lugar onde a pessoa vive.
Adriana Blak – Seus livros também abordam incertezas e perdas. Como você trabalha isso, especialmente com adolescentes?
Mariza Tavares – Falo bastante sobre isso. No primeiro livro, o personagem já lidava com a perda do avô, alguém muito importante para ele, e ele expressa essa dor no diário.
No segundo livro, isso continua. Mas é importante entender que o luto é muito mais amplo. Ele não se refere apenas à morte.
Luto é qualquer perda: sair da infância para a adolescência, perder um emprego, um relacionamento, até um animal de estimação — algo que hoje já se reconhece como uma dor profunda, às vezes incapacitante.
A vida inteira é um processo de aprendizado contínuo, desde antes do nascimento até o fim. E a perda faz parte desse aprendizado.
Nos livros, tratamos disso com delicadeza, inclusive mostrando adolescentes lidando com depressão, sofrimento emocional, autolesão. São situações reais, do cotidiano.
E é melhor que esses temas sejam discutidos, lidos, elaborados, do que buscar respostas superficiais em redes sociais ou até delegar isso à inteligência artificial. Esse é um caminho preocupante.
SERVIÇO

Pra continuar com ela
Autora: Mariza Tavares, José Godoy
Editora: Globoclube
Páginas: 90
Sobre autora: Mariza Tavares é jornalista e trabalhou em rádio, jornais, revistas e internet. Atualmente tem um blog no portal de notícias g1. Este é seu nono livro para o público infantojuvenil. Pela Globinho, publicou O sofá que engoliu as crianças e O medo que mora embaixo da cama. Pra continuar com ela é a sequência de Pra ficar com ela, ambos escritos com José Godoy, seu parceiro de literatura e vida. Por último, mas não menos importante, é mãe do Bernardo e avó do Gabriel e da Sophie.
📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:


