Por Adriana Blak e Germano Oliveira
Donald Trump converteu sua administração em um reality show contínuo, seja no Salão Oval, em fóruns internacionais ou no Congresso dos Estados Unidos. Na noite de terça-feira (24), os americanos foram dormir com uma nítida sensação de déjà vu. O discurso do “Estado da União” resgatou o estilo que o hoje mandatário celebrizou no programa O Aprendiz, da rede NBC, no início dos anos 2000.
Com 108 minutos de duração — um recorde que superou sua própria marca do ano anterior —, o pronunciamento improvisado concentrou-se em temas domésticos e na construção de uma realidade particular. Do púlpito, diante de congressistas, juízes e convidados, Trump buscou consolidar o apoio republicano antes das eleições legislativas de novembro, tentando conter a queda em sua popularidade em meio à inflação e às tensões com o Irã.
Trump dedicou grande parte do tempo a apresentar uma nação “de volta” e uma economia “rugindo como nunca antes”.
A promessa
O presidente afirmou que a produção de petróleo aumentou em 600 mil barris por dia e que o gás natural atingiu níveis históricos. Prometeu ainda que novas propostas para reduzir o preço de medicamentos trarão alívio imediato ao bolso do cidadão.
A realidade
Apesar do otimismo presidencial, dados oficiais indicam que a inflação subiu no último ano e a criação de vagas industriais desacelerou. Pesquisas Reuters/Ipsos mostram que 56% dos eleitores desaprovam sua condução econômica, sentindo o peso do custo de vida em alimentos e habitação.
O alerta
Estrategistas republicanos temem que a ausência de uma mensagem mais enfática sobre inflação e juros hipotecários possa custar o controle do Congresso em novembro.
Show político para as câmeras
O presidente substituiu parte de sua habitual fanfarronice por momentos televisivos milimetricamente planejados. Trump utilizou o plenário como um palco de premiações.
Homenagens e medalhas: distribuiu a Medalha de Honra ao suboficial Eric Slover, ferido na operação contra Nicolás Maduro, e a Medalha Presidencial da Liberdade ao goleiro de hóquei Connor Hellebuyck.
Convidados como símbolos: apresentou a equipe de hóquei campeã olímpica para reforçar a narrativa de que o país está “vencendo” e utilizou figuras como a pequena Dalilah Coleman, ferida em um acidente, para ilustrar os perigos que atribui à imigração.
Cenas de auditório: “As pessoas me pedem: ‘por favor, senhor presidente, estamos vencendo demais, não aguentamos mais'”, disparou Trump, em um de seus momentos mais teatrais.
Geopolítica
Apesar da expectativa por detalhes sobre um possível conflito com o Irã, Trump demorou mais de uma hora para mencionar o tema. Repetiu a retórica de que jamais permitirá que Teerã obtenha uma arma nuclear, mas evitou explicar a urgência de uma ação militar imediata, preferindo focar em sucessos passados.
O grande trunfo diplomático exibido foi a Venezuela. Trump celebrou a queda de Maduro como uma “vitória colossal” e destacou a parceria com a presidente interina, Delcy Rodríguez. Segundo o presidente, a nova aliança já rendeu o envio de 80 milhões de barris de petróleo ao mercado americano. Por outro lado, temas espinhosos como a guerra na Ucrânia, a Rússia e a polêmica tentativa de aquisição da Groenlândia foram praticamente omitidos.
Imigração e ataques aos democratas
Trump tentou retomar o controle da narrativa migratória, desgastada após mortes sob custódia e operações de deportação impopulares. Evitou mencionar o trabalho direto do ICE, focando em ataques a crimes cometidos por imigrantes e alegando possuir a “fronteira mais segura da história”.
O encerramento foi marcado pelo tom belicoso contra a oposição. “Essas pessoas são loucas”, afirmou, referindo-se aos democratas, a quem acusou de “destruir o país”. Enquanto os republicanos o aplaudiam de pé em temas como políticas de gênero e segurança, parlamentares democratas como Ilhan Omar e Rashida Tlaib protestaram abertamente, evidenciando uma nação e um Congresso profundamente divididos pelo espetáculo político de Trump.
Direto de Dallas
Para compreender melhor o que está acontecendo com a sociedade americana nesta “Era Trump”, o BC TV, do portal Brasil Confidencial, entrevistou nesta quarta-feira (25) o brasileiro Fabiano Colicchio Lopes, natural do ABC paulista, que vive nos Estados Unidos desde o início dos anos 2000.
Lopes mora na região metropolitana de Dallas, no Texas. Executivo bem-sucedido, tem atuado ao longo das últimas duas décadas em grandes corporações norte-americanas e multinacionais. Hoje é vice-presidente da área de Cost Management & Indirect Procurement na Cardinal Health, companhia de suprimentos de saúde que figura entre as 15 primeiras posições da lista Fortune 500, ranking anual das maiores empresas dos Estados Unidos em receita.
Formado pela Darden School of Business, da Universidade da Virgínia, Lopes construiu carreira sólida, fixou-se definitivamente nos EUA, constituiu família, tem duas filhas adolescentes e conquistou recentemente a cidadania norte-americana. Sua visão é privilegiada: acompanha os acontecimentos locais sem deixar de compará-los com os fatos do Brasil.
Para Fabiano Colicchio Lopes, nesta “Era Trump” a economia dos Estados Unidos caminha para um processo de desaceleração diante da combinação entre tarifas de importação, cortes de impostos concentrados nas camadas mais altas de renda e redução de investimentos sociais promovidos pelo atual presidente.
Segundo ele, a decisão da Suprema Corte de barrar tarifas mais elevadas evitou impactos ainda maiores para parceiros comerciais como o Brasil, que pode até ampliar sua competitividade em setores como carne e soja, beneficiado por alíquotas menores do que as inicialmente pretendidas pela Casa Branca.
Apesar disso, o executivo alerta para o avanço do déficit público norte-americano — que pode atingir 120% do PIB até 2036 — e para o enfraquecimento estrutural da economia americana, especialmente se não houver mudança profunda na política fiscal e no modelo de financiamento da dívida, historicamente sustentado pela hegemonia global do dólar.
Ele destacou a qualidade de vida nos Estados Unidos, ressaltando a segurança para circular em espaços públicos graças à baixa criminalidade. Mencionou ainda a possibilidade de oferecer às filhas educação em escola pública de excelência, entre outros benefícios que, no Brasil, são de acesso mais restrito.
A seguir, leia alguns dos principais trechos da entrevista de Fabiano Colicchio Lopes e assista também, na íntegra, à sua entrevista ao BC TV:
Germano Oliveira – Fabiano, ontem à noite o presidente Donald Trump fez, por quase duas horas, no Congresso americano, o tradicional discurso do Estado da União. Houve ameaças ao Irã, defesa do domínio americano no hemisfério ocidental, confrontos com deputados democratas e um discurso bastante contundente. Como você avalia para onde caminha a economia americana com esse tarifaço agora de 15%? O Brasil será prejudicado ou essa taxa acabou sendo menor do que poderia ter sido?
Fabiano Colicchio Lopes – Vamos separar as perguntas. Quanto ao discurso, é claro que a direita gostou e os democratas não. O presidente está aplicando uma política econômica que, segundo ele, visa proteger os Estados Unidos.
A Suprema Corte rejeitou as tarifas gigantescas que ele pretendia impor, o que gerou tensão interna. A Corte não definiu completamente quem deveria ser ressarcido pelas tarifas já pagas, mas, de modo geral, essa decisão foi positiva para o Brasil e para outras economias que fazem comércio com os Estados Unidos.
Apesar de haver danos — mercados que os EUA perderam nesse processo —, eu vejo espaço positivo para o Brasil. Uma tarifa de 10% ou 15% é muito diferente de 50%. Isso permite que economias como a brasileira voltem a ser mais competitivas no mercado americano, como eram antes.
O Brasil já domina alguns segmentos aqui, como o mercado de carne, e deve continuar competitivo na soja no mercado internacional. Além disso, o agricultor americano pode buscar novas oportunidades em outros mercados, porque as tarifas estavam prejudicando indiretamente o próprio setor agrícola dos Estados Unidos.
Germano Oliveira – Um dos problemas centrais continua sendo a encruzilhada fiscal. O déficit pode chegar a US$ 1,9 trilhão este ano e atingir US$ 3 trilhões até 2036. Isso pode agravar a situação econômica? O PIB e o emprego podem cair?
Fabiano Colicchio Lopes – Em alguns setores, como saúde, não. A população está envelhecendo e isso sustenta crescimento na área. Mas em outros setores pode haver complicações.
Você tem uma combinação perigosa: redução de impostos para empresas e para a população de alta renda, manutenção ou aumento da carga para pessoas de baixa renda e tarifas que pressionam a inflação. Isso tende a levar a economia a um processo de desaceleração.
Também depende muito das eleições de meio de mandato. Se os republicanos mantiverem hegemonia no Congresso, Trump pode avançar com políticas que incentivem crescimento. Se os democratas conquistarem espaço, podemos entrar num período de paralisia legislativa, com poucas aprovações. Isso manteria o status quo — que hoje é mais recessivo do que expansionista.
Adriana Blak – Com a dívida podendo chegar a 120% do PIB até 2036, o que acontece com quem depende de programas sociais e assistência médica?
Fabiano Colicchio Lopes – O chamado “Big Beautiful Bill”, na minha visão, não foi tão “beautiful”. Eu o chamo de “Big Ugly Bill”. Para financiar cortes de impostos, o governo retirou recursos de áreas sociais.
O argumento republicano é que imigrantes ilegais usam infraestrutura pública, mas isso já é regulado por lei. Esse discurso serve para justificar cortes em saúde e educação, compensando a redução de receita.
Já vemos aumento significativo nos planos de saúde adquiridos via Affordable Care Act — o Obamacare — e muitas pessoas estão abandonando o sistema por falta de condições de pagamento. O corte de custos não compensa a perda de receita tributária, e a população de baixa renda sofre.
Há também reduções em programas como o SNAP, de assistência alimentar. Isso deve ampliar a mobilização da sociedade civil para apoiar essas pessoas. Não há expectativa de mudança de trajetória no curto prazo. Mesmo que os democratas avancem nas eleições, dificilmente terão força suficiente para alterar substancialmente a política fiscal.
As reduções promovidas pelo Departamento de Justiça atingiram algo entre 1% e 2% dos gastos totais do governo. Desmantelar estruturas como a USAID ou reduzir funções da Secretaria de Educação não gera economia relevante. Em alguns casos, pode até elevar custos, pois outras estruturas precisam compensar essas lacunas.
Adriana Blak – Esses índices já são comparáveis aos de 1946, logo após a Segunda Guerra Mundial. Há risco de crise semelhante?
Fabiano Colicchio Lopes – Há risco, sim. Em 1946 houve investimento maciço do Estado em infraestrutura e defesa. Nos anos seguintes, o crescimento da dívida exigiu reformas estruturais profundas, inclusive o abandono do padrão-ouro na década de 1970.
Entre 1946 e o período Reagan, houve aumento expressivo da carga fiscal. Agora estamos indo na direção oposta. Se não houver mudança radical na política fiscal e econômica, poderemos enfrentar problemas sérios para sustentar essa dívida.
Além disso, há a questão do petrodólar. Países como Brasil e China discutem comércio em moeda local. Isso afeta a hegemonia do dólar. Parte da força da economia americana está na exigência global da moeda americana para transações internacionais. Se houver migração para modelos que não dependem do dólar, a tendência é de enfraquecimento da moeda, dificultando ainda mais a sustentação da dívida.
Portanto, ou há uma mudança relevante na política fiscal e econômica nos próximos anos, ou os Estados Unidos podem enfrentar um cenário bastante desafiador para manter seu crescimento e sua posição hegemônica.
📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:
Conheça Fabiano Colicchio Lopes

Fabiano Colicchio Lopes construiu uma trajetória marcada pela combinação de sólida formação acadêmica e experiência executiva em consultoria e gestão estratégica. Graduado em Engenharia e Administração, no Brasil, aprofundou seus estudos na Darden School of Business da Universidade, do Estado da Virgínia, EUA, onde concluiu o MBA entre 2003 e 2005. Durante o período acadêmico, destacou-se pela atuação como vice-presidente da Latin American Student Association, reforçando seu perfil de liderança e engajamento multicultural.
No campo profissional, Lopes iniciou sua carreira em consultoria estratégica, passando por empresas de renome como Accenture, KPMG, Deloitte e AlixPartners. Sua capacidade analítica e foco em resultados o levaram a posições de destaque em firmas globais de consultoria, onde atuou em projetos de estratégia operacional, otimização de custos e transformação empresarial. Nesse período, consolidou sua reputação como consultor, liderando iniciativas de melhoria de processos e eficiência corporativa, ampliando sua atuação em projetos de transformação organizacional de grande porte.
Atualmente, ocupa a posição de vice-presidente de Cost Management & Indirect Procurement na Cardinal Health, empresa da Fortune 15 focada em distribuição e manufatura de produtos farmacêuticos e dispositivos médicos. Nessa função, lidera estratégias de redução de custos e aprimoramento da competitividade em escala global. Sua carreira reflete uma trajetória consistente de liderança, inovação e impacto direto na performance de grandes corporações. Ele fica baseado em Dallas, no Estado do Texas.



