Islâmicos fazem orações em meio aos escombros de Teerã e a certeza de que a guerra não tem sentido. (Reprodução: TV)


“As pessoas estão descobrindo que Trump não se importa com os moradores do Irã”, disse um iraniano, em meio sua cidade quase toda destruída pelos ataques por forças militares israelenses e dos Estados Unidos.

À medida que se aproxima o prazo do ultimato dado pelo presidente americano, Donald Trump — que ameaçou destruir usinas de energia e pontes iranianas caso o país não reabra o Estreito de Ormuz — cidadãos iranianos relataram à BBC como veem a escalada da crise.

Em uma postagem nas redes sociais no domingo (5/4), marcada por palavrões, Trump escreveu que “terça-feira será o Dia da Usina de Energia e o Dia da Ponte, tudo junto, no Irã. Não haverá nada igual!!!”. No dia seguinte, reforçou a ameaça: o Irã, disse, regrediria à “Idade da Pedra” se não houvesse acordo até às 21h de terça-feira pelo horário de Brasília. “O país inteiro pode ser aniquilado da noite para o dia”, afirmou.

Continua depois da publicidade

Autoridades iranianas reagiram com ironia, classificando os insultos como fruto de “desespero e raiva”. A BBC conseguiu ouvir moradores — todos opositores ao regime — apesar do bloqueio de internet que já dura mais de cinco semanas.

Em janeiro deste ano, quando violentas manifestações contra o governo varreram o Irã, Trump disse que “a ajuda estava a caminho” para os manifestantes.

Mas ele não interveio quando as forças de segurança iranianas lançaram uma repressão sem precedentes, matando pelo menos 6.508 manifestantes e prendendo outros 53.000, segundo a agência de notícias americana Human Rights Activists News Agency (Hrana, na sigla em inglês).

Algumas das pessoas com quem a BBC conversou inicialmente viram os ataques EUA-Israel como a ajuda que lhes havia sido prometida. Mas a maioria delas agora vê os ataques à infraestrutura energética como o cruzamento de uma linha vermelha.

“Agradeci a Israel e aos EUA por quase tudo o que eles atingiram até agora”, disse Arman, na casa dos 20 anos e morador de Karaj, a oeste de Teerã. A imprensa iraniana informou que 13 pessoas morreram e quase 100 ficaram feridas quando uma ponte em construção em Karaj foi bombardeada na quinta-feira (2/4).

“Eles devem ter tido bons motivos para escolher esses alvos [que foram atingidos]. Mas juro, atacar uma usina elétrica paralisa o país. Isso só beneficia a República Islâmica. Moro a cerca de 1km da maior usina elétrica de Karaj, e se eles a atacarem, será só sofrimento para mim.”

Radin, também na casa dos 20 anos e morador de Teerã, disse: “Se atacar alvos no país derrubar a República Islâmica, para mim está ótimo. Porque se a República Islâmica sobreviver a esta guerra, ela permanecerá para sempre.”

Kasra, jovem de Teerã, descreveu a sensação de impotência: “Parece que estamos afundando cada vez mais em um pântano. O que podemos fazer como pessoas comuns? Não podemos fazer nada. Fico pensando em um cenário em que daqui a um mês estou sentado com minha família sem água, sem eletricidade, sem nada.” Mina, também da capital, contou que sua mãe estoca água em garrafas. “Eu odeio Trump do fundo do meu coração e odeio também aqueles que o apoiam”, disse.

Os ataques recentes já atingiram o Complexo Petroquímico de Mahshahr e universidades em Teerã. Para alguns, como Arman, de Karaj, bombardear usinas elétricas representa uma “linha vermelha”: “Isso só beneficia a República Islâmica. Moro a 1 km da maior usina elétrica da cidade. Se a atacarem, será só sofrimento para mim.”

A pressão econômica também pesa. Engenheiros relatam paralisação de obras, restaurantes enfrentam queda no movimento e o aluguel sufoca empresários. O acesso à internet, vendido de forma clandestina via Starlink ou Telegram, custa caro e pode levar à prisão.

Marjan, jovem de Teerã, resumiu o clima: “Sinto que estou enlouquecendo. Nem renovei meu pacote de internet. Qual o sentido se Trump atacar a infraestrutura energética? Estou angustiada. Meus pais brigam por qualquer coisa agora. Já tive três crises de nervos hoje.”

O tom dos relatos evidencia uma população dividida entre a rejeição ao regime e o temor de que os ataques americanos e israelenses acabem por aprofundar o sofrimento cotidiano.

Muitos dos entrevistados pela BBC estão preocupados com o impacto econômico da guerra.

Bahman, que tem vinte e poucos anos e mora em Teerã, disse: “Acho que Trump está com medo do que o Irã vai fazer.

Tenho certeza de que o Irã atacará toda a região em retaliação.”

“No meu caso, não tenho mais rotina e nem consigo ir trabalhar por causa dessa situação, porque sou engenheiro supervisor de obras e ninguém está construindo nada agora. Algumas empresas menores já começaram a demitir seus funcionários.”

Jamshid, que tem cerca de 30 anos e administra um restaurante em Teerã, disse que seu negócio “não é o mesmo de antes [da guerra]. Não estou otimista quanto à situação. Calculo que consigo aguentar por um mês, talvez dois, no máximo. O aluguel está me sufocando. São 200 milhões de tomans por mês [cerca de R$ 6,5 mil]”.

Isso é muito caro comparado ao salário médio mensal, estimado entre US$ 200 e US$ 300 [R$ 1.028 a R$ 1.542].