O governo dos Estados Unidos anunciou, na noite de sexta-feira (14), a retirada da tarifa de 10% aplicada a cerca de 200 produtos agrícolas brasileiros — entre eles carne bovina, café, banana, manga e açaí. A medida, com efeito retroativo a 13 de novembro, foi confirmada ao Ministério da Agricultura e Pecuária e representa um alívio parcial às exportações brasileiras. No entanto, a sobretaxa de 40%, imposta em agosto, permanece em vigor e segue como obstáculo relevante ao comércio bilateral.
A decisão foi tomada pelo presidente Donald Trump em meio ao avanço da inflação nos EUA, que pressiona o consumo interno. Dados do CPI, índice oficial de preços ao consumidor, mostram que o café acumula alta de cerca de 20% em relação ao ano anterior. Produto tradicional na cultura americana, o café brasileiro respondia, antes do tarifaço, por aproximadamente um terço do consumo nacional.
Apesar de representar algum benefício ao Brasil, a ordem executiva não atende diretamente à pauta de negociação apresentada pelo governo brasileiro em 4 de novembro. Segundo o secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Luis Rua, a medida refere-se apenas à tarifa global de 10% aplicada em abril, sem contemplar a sobretaxa de 40% vigente desde agosto.
Reações divididas entre exportadores
A decisão provocou respostas distintas entre os setores afetados. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) comemorou a redução tarifária, lembrando que os EUA são o segundo maior destino da carne bovina brasileira, atrás apenas da China.
“A medida reforça a confiança no diálogo técnico entre os dois países e reconhece a importância da carne do Brasil, marcada pela qualidade e pela contribuição para a segurança alimentar mundial”, afirmou a entidade em nota.
Roberto Perosa, representante da Abiec, classificou a decisão como “uma boa sinalização para o mercado brasileiro”, mas adotou tom cauteloso: “É um motivo de comemoração comedida, mas com perspectiva positiva para que possamos ter a retirada total das tarifas”.
A Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic) também celebrou a retirada da tarifa de 10% sobre o café em todas as suas variações — verde, torrado, moído e descafeinado. “Seguiremos trabalhando para garantir segurança jurídica, competitividade e previsibilidade à indústria brasileira de café”, disse Pavel Cardoso, presidente da entidade.
Por outro lado, o setor cafeeiro demonstrou preocupação com a manutenção da sobretaxa de 40%. Marcos Matos, diretor-geral do Cecafé, alertou que a medida favorece concorrentes como Colômbia e Vietnã, cujos produtos tiveram a tarifa zerada. “Melhorou para os nossos concorrentes e piorou para o Brasil”, afirmou. Márcio Ferreira, presidente do Cecafé, foi ainda mais enfático: “Se a taxa de 40% ficar, continua proibitiva e não muda nada. O Brasil segue fora do jogo”.
Frutas tropicais ganham espaço, mas uva fica de fora
A Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas) avaliou a medida como “um avanço relevante para o setor”, mas lamentou a exclusão da uva da lista de exceções. Segundo o diretor-executivo Eduardo Brandão, mais de US$ 40 milhões em uvas foram exportados para os EUA no ano passado.
A ausência da fruta na nova política tarifária pode intensificar a queda já registrada nas exportações: no terceiro trimestre de 2025, houve retração de 73% em valor e 68% em volume em relação ao mesmo período de 2024.
Governo brasileiro vê avanço, mas mantém cautela
O embaixador Celso Amorim, assessor especial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, classificaram a medida como positiva. Ambos, no entanto, ressaltaram que o governo segue atento aos produtos que continuam sob a sobretaxa de 40%.
A expectativa é de que o gesto da Casa Branca abra caminho para novas negociações e flexibilizações tarifárias, especialmente em relação à sobretaxa que ainda compromete a competitividade dos produtos brasileiros no mercado norte-americano.
A decisão de Washington deve ser lida como gesto político, mais do que como mudança estrutural na política comercial americana. Ao aliviar parte da pressão sobre produtos brasileiros, o governo Trump busca mitigar os efeitos da inflação doméstica, mas mantém instrumentos de barganha relevantes para futuras negociações.
Para o Brasil, o movimento é ambíguo: abre espaço para retomada parcial de exportações, mas preserva um entrave que, na prática, inviabiliza a competitividade de setores estratégicos, como o café. O desafio agora é transformar o alívio pontual em avanço duradouro, evitando que o país permaneça em posição secundária no mercado norte-americano.

