Imagem típica do Brasil, agrupamento de sem-tetos em cidade dos Estados Unidos mostra agravamento social. (Reprodução: TV)


Nos Estados Unidos, a desigualdade econômica atingiu níveis inéditos em pelo menos uma geração. Enquanto bilionários ampliam fortunas e o mercado de luxo registra recordes de vendas de iates, jatos particulares e mansões acima de US$ 10 milhões, milhões de americanos enfrentam dificuldades para pagar aluguel, comprar comida e manter o padrão de vida básico.

Segundo dados do Federal Reserve, a riqueza do 1% mais rico cresceu mais que o dobro da dos 90% mais pobres apenas nos primeiros nove meses do ano passado. Elon Musk, por exemplo, já se aproxima da fortuna histórica de John D. Rockefeller quando comparada ao tamanho da economia americana.

No outro extremo, famílias da classe média relatam pular refeições, vender plasma para complementar a renda e desistir do sonho da casa própria. “Com base na minha experiência e na dos meus amigos, parece que ninguém está melhorando. Na verdade, parece que todos estão piorando”, disse Jeremy Kregar, jovem de Portland que ganha US$ 21 por hora e ainda luta para pagar dívidas estudantis.

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Políticas de Trump ampliam desigualdade

Um ano após o início de seu segundo mandato, Donald Trump cortou programas de assistência alimentar e de saúde, além de impor restrições à moradia popular e aos empréstimos estudantis. Ao mesmo tempo, concedeu bilhões em cortes de impostos para empresas e famílias ricas, flexibilizou regras para bancos e abriu espaço para o avanço das criptomoedas.

“O verdadeiro crescimento no segundo mandato de Trump foi nos lucros corporativos e na riqueza das pessoas no topo da pirâmide”, afirmou Robert Reich, professor emérito da Universidade da Califórnia, Berkeley.

Trump, por sua vez, defende seu histórico econômico. Em discurso sobre o Estado da União, classificou as críticas como “farsa” e disse ter inaugurado uma “era de ouro da América”, citando saldos maiores em planos de aposentadoria e queda nas taxas de hipoteca.

Impacto direto na vida cotidiana

Apesar de alguns indicadores positivos, como inflação mais baixa e salários crescendo acima da média, o mercado de trabalho perdeu força: em fevereiro, 92 mil vagas foram eliminadas em diversos setores. Em 2025, os EUA criaram apenas 584 mil empregos, o pior resultado desde a pandemia.

As tarifas impostas pelo governo também elevaram preços no varejo, atingindo principalmente famílias de baixa renda. “As tarifas estão prejudicando muito mais a base da pirâmide salarial do que a elite”, disse Doug Holtz-Eakin, ex-assessor republicano.

A América que prospera e a que resiste

Enquanto executivos de tecnologia acumulam ganhos com ações da Amazon e da Meta, famílias com renda superior a US$ 100 mil impulsionam o consumo e o mercado imobiliário. Já aposentados como Liz Doyle, de Oklahoma, relatam dificuldades para comprar itens básicos. “Os preços dos supermercados são absolutamente ridículos”, disse ela, vivendo quase exclusivamente da Previdência Social.

O contraste é evidente: apenas 10% das famílias concentram cerca de 90% de todas as ações do mercado, segundo o Federal Reserve.

Essas mesmas famílias foram responsáveis por metade dos gastos do consumidor em 2025, a maior taxa desde 1989.

Consequências políticas

A desigualdade crescente ameaça corroer uma crença fundamental: a de que cada geração viverá melhor que a anterior. Pesquisas recentes mostram aumento da desaprovação à condução da economia por Trump, cenário que pode influenciar diretamente as eleições de meio de mandato.

Para muitos americanos, a promessa de prosperidade parece cada vez mais distante. “Enquanto isso, vamos construir um salão de baile na Casa Branca? Como americano, isso me parece uma afronta”, disse Kregar, resumindo o sentimento de frustração que se espalha pelo país.