O cantor lírico brasileiro Bruno de Sá, atualmente o sopranista de maior projeção na Europa, foi convidado para se apresentar no emblemático Concerto de Paris, realizado anualmente no dia 14 de julho, aos pés da Torre Eiffel. O evento integra as celebrações da festa nacional francesa — data que marca a queda da Bastilha em 1789, símbolo da Revolução Francesa e do nascimento da República. Mais que um espetáculo musical, é uma expressão de liberdade, união e cultura nacional.
Neste ano, Bruno será responsável por interpretar “Bachianas Brasileiras nº 5” de Heitor Villa-Lobos, levando a língua portuguesa ao palco principal da França em um dos maiores eventos de música clássica do mundo. Mesmo habituado a cantar em italiano nos grandes teatros da Europa, o artista revelou a emoção de representar o Brasil nesse momento histórico:
“Vir com essa peça que é tão emblemática, nesse lugar icônico e em português… acho que vou ter que me segurar para não chorar.”
Radicado em Berlim, Bruno relembra com humor sua primeira visita a Paris, marcada por dificuldades como estudante. Dez anos depois, retorna como protagonista ao lado de artistas renomados, como as sopranos Aida Garifulina e Julie Fuchs, a violinista Bomsori Kim e o pianista Saehyun Kim, acompanhados pela Orquestra Nacional da França e o Coro da Rádio França. O Concerto será transmitido para mais de 20 países e antecede a tradicional queima de fogos no Campo de Marte.
Com uma voz rara e fascinante, Bruno desafia padrões: é sopranista, um homem com registro vocal tradicionalmente feminino. Já se apresentou em diversas montagens barrocas e clássicas, e destaca-se por romper barreiras estilísticas e vocais:
“No final das contas, eu sou um soprano. Qual seria o repertório de um soprano? É nesse lugar que fui abrindo caminho.”
A apresentação de Bruno de Sá na Festa Nacional da França é mais do que uma performance: é um símbolo de representatividade cultural e artística brasileira na cena internacional.
De Ibitinga, SP, para o estrelato na Europa, Bruno Sá vem de origem humilde
Bruno de Sá nasceu em Santo André, no ABC Paulista, e cresceu em uma família humilde. Filho de um metalúrgico aposentado e de uma funcionária pública, seus pais se conheceram em um culto da Igreja Assembleia de Deus, onde Bruno fez sua primeira apresentação aos dois anos, cantando música gospel.
Ainda criança, ele se mudou para Ibitinga, no interior de São Paulo, onde começou a estudar piano e clarinete. Aos 15 anos, já demonstrava interesse pela música erudita, inspirado por artistas como Edson Cordeiro. Mais tarde, cursou licenciatura em música na Universidade Federal de São Carlos (UFSC) e, em 2013, ingressou no bacharelado em canto lírico na USP, onde descobriu o repertório ideal para sua voz com orientação do professor Francisco Campos Neto.
Apesar de sua voz extraordinária, Bruno enfrentou resistência no Brasil. Ele conta que não conseguiu espaço na cena da música barroca nacional, que considera restrita e pouco aberta a novos talentos. Foi na Europa que encontrou oportunidades reais de crescimento artístico. Em 2017, mudou-se para Basel, na Suíça, para aperfeiçoar sua técnica vocal, e desde 2020 vive em Berlim, onde consolidou sua carreira.
Bruno é sopranista, um homem com voz de soprano — registro vocal tradicionalmente feminino. Sua voz não é resultado de falsete, como nos contratenores, mas sim de uma combinação genética e hormonal que manteve seu registro agudo desde a infância. Ele mesmo explica: “Não sou alienígena, mas tenho uma voz de mulher num corpo masculino”.
Sua ascensão internacional começou com vitórias em concursos como o Maria Callas (Brasil) e o Spirus Argiris (Itália), além de ter sido premiado como revelação no Oper! Awards na Alemanha. Em 2022, lançou o álbum “Roma Travestita” pelo selo Erato, da Warner, que o projetou mundialmente. O disco revisita árias barrocas originalmente escritas para castrati — cantores que, nos séculos 16 a 18, eram submetidos à castração para preservar a tessitura aguda.
Bruno já se apresentou em palcos como o Palácio de Versalhes, o Théâtre des Champs-Elysées e no Festival de Música Barroca de Bayreuth, onde interpretou papéis femininos e masculinos com igual maestria. Ele também foi o primeiro homem soprano a cantar obras de Wagner e Villa-Lobos, rompendo barreiras estilísticas e vocais.
Apesar do reconhecimento, Bruno ainda enfrenta desafios. Ele diz: “Meu sonho é ser selecionado para uma produção não porque sou a excentricidade, mas pelo que eu, enquanto artista, posso comunicar”.
Hoje, ele divide palco com ídolos como Philippe Jaroussky e Jakub Jozef Orlinski, e segue levantando a bandeira da liberdade artística, defendendo que vozes como a sua não devem ser limitadas por estereótipos.
Se quiser complementar com uma linha do tempo ou uma biografia visual da carreira dele, posso montar para você. Só me dar o sinal.
ASSISTA AQUI UMA APRESENTAÇÃO DE BRUNO SÁ, INTERPRETANDO MOZART:


