A fibromialgia, condição marcada por dor crônica generalizada e por uma série de sintomas que afetam diretamente a qualidade de vida, ainda é cercada por dúvidas, estigmas e diagnósticos equivocados. Mesmo atingindo cerca de 4 milhões de brasileiros, muitos pacientes seguem enfrentando descrença, falta de informação e dificuldade em encontrar tratamento adequado.
Para esclarecer os principais desafios dessa doença complexa, que envolve alterações na percepção da dor, impacto emocional e necessidade de abordagem multidisciplinar o BC TV, do Brasil Confidencial, recebeu nesta terça-feira (2), a médica reumatologista Marina Quaresma.
A conversa foi conduzida pelas âncoras Camila Srougi e Germano Oliveira, a especialista explicou, ponto a ponto, como a fibromialgia se manifesta, por que tantas vezes é mal compreendida, quais tratamentos têm maior eficácia e que papel o suporte emocional exerce na jornada dos pacientes.
A seguir, os principais trechos da entrevista:
Camila Srougi: O que é a fibromialgia. Poderia fazer um panorama sobre essa condição, que é caracterizada pela dor generalizada, mas costuma vir acompanhada de outros sintomas? E o que é essa dor tão debilitante?
Dra. Marina Quaresma: A fibromialgia é uma doença já muito bem estabelecida, não é coisa da cabeça, e está relacionada com uma amplificação de sinal de dor para o cérebro. Nós temos sensores no corpo que captam estímulos e enviam ao sistema nervoso central por neurotransmissores. Assim percebemos, por exemplo, se a cadeira onde estamos sentados é confortável.
No caso da fibromialgia, há uma desregulação desse sinal, uma amplificação — como se um amplificador fosse ligado nesses sensores. A pessoa percebe tudo de forma aumentada, e isso causa dor e contratura muscular. Quanto mais contrai, mais dói. Quebrar esse ciclo só é possível desligando esses amplificadores.
Camila Srougi: A doença envolve muito estigma, e é comum o paciente ser tratado como alguém com “dores imaginárias”. Como essa dificuldade de reconhecimento afeta o tratamento?
Dra. Marina Quaresma: Afeta muito. Esses pacientes muitas vezes são vistos como pessoas com problemas psiquiátricos ou psicológicos, quando na verdade têm uma doença orgânica. É uma sensibilização da via de dor. Toda pessoa com dor fica emocionalmente afetada — e se isso é desprezado pelos outros porque não há lesão visível ou exames alterados, ela passa a sofrer também pelo estigma.
Muitas vezes até colegas médicos desconsideram suas queixas. Isso gera desprezo social e piora muito a jornada do paciente.
Germano Oliveira: A fibromialgia não é inflamatória, então não aparece nos exames. Isso dificulta o diagnóstico? Os médicos erram muito? E depois do diagnóstico, com que medicamentos se trata?
Dra. Marina Quaresma: Não existe exame específico que dê positivo ou negativo para fibromialgia. O diagnóstico é clínico, baseado na história do paciente: sono não reparador, despertares frequentes, dor que impede de voltar a dormir, exaustão ao acordar, sensação de corpo quebrado. Isso afeta o humor.
Exames servem apenas para descartar outras condições, como hipotireoidismo. Esperamos que os exames venham normais, porque a fibromialgia não é doença inflamatória nem autoimune.
Muitos médicos pedem exames de imagem e, ao encontrar protrusões discais, por exemplo, atribuem a dor a isso, gerando diagnósticos e tratamentos inadequados. Anti-inflamatórios e corticoides não aliviam a fibromialgia.
Germano Oliveira: Como diferenciar fibromialgia de artrite ou lesões musculares? Os sintomas parecem parecidos.
Dra. Marina Quaresma: Na verdade, não são. A dor inflamatória dói em repouso e melhora com movimento. Dores mecânicas, como artrose, surgem apenas quando a articulação é usada.
Quem tem fibromialgia sente dor difusa, mal definida, no corpo inteiro. Não consegue explicar se é muscular ou articular. O acolhimento e a escuta são fundamentais para o diagnóstico.
Doenças autoimunes, como lúpus e artrite reumatoide, têm inchaço nas articulações e exames alterados, o que não ocorre na fibromialgia.
Camila Srougi: A fibromialgia atinge mais mulheres. Há fatores hormonais, genéticos ou sociais explicando isso?
Dra. Marina Quaresma: Sim. As transições hormonais são gatilhos para a desregulação da via de dor. No climatério — que vai de 10 anos antes a 10 anos depois da menopausa — a mulher perde o estrógeno como “maestro”.
O estrógeno regula peso, gordura, pelos, metabolismo ósseo e de glicose. Quando ele sai de cena, surgem osteopenia, colesterol alterado, possível diabetes e também alteração da via de dor. A mulher passa a ter insônia e dores, podendo desencadear fibromialgia.
Camila Srougi: Qual o peso do suporte emocional no tratamento?
Dra. Marina Quaresma: A dor gera ansiedade e depressão. Por isso o apoio psicoterápico e, quando necessário, psiquiátrico, ajuda muito. Embora não exista evidência fisiopatológica clara ligando dor, ansiedade e depressão, há uma observação clínica de que tudo se interliga. O tratamento multidisciplinar se justifica justamente por essa conexão prática.
📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:



