Um cenário interessante para um artista que começou na ilegalidade, pintando muros, quer os donos deles gostassem ou não. “Fui do pixo para a fachada da ONU”, afirma Carlos Eduardo Fernandes Leo, o Eduardo Kobra, no painel Criar Horizontes a Partir dos Muros, do São Paulo Innovation Week, parceria entre o Estadão e a Base Eventos, nesta quinta, 14.
De origem periférica, Kobra decidiu fazer das ruas sua grande tela aos 12 anos. Com poucas referências e exercendo uma arte então marginalizada, aprendeu sozinho a desenhar os traços que o tornariam mundialmente famoso no futuro. Aos poucos, começou a ser contratado para pintar muros de estabelecimentos comerciais, mas ainda longe de qualquer tipo de glamour ou perspectiva de que aquilo virasse seu ganha-pão.
“Não havia nenhuma luz no fim do túnel, nada que eu pudesse me inspirar ou entender que esse caminho (da arte) me levaria a pintar esse mural da ONU em Nova York”, disse Kobra.
A primeira grande oportunidade foi de pintar o parque de diversões Playcenter. “Eu saía pelas ruas de São Paulo e pintava desenhos dos mais variados. Eu pintava, por exemplo, um super-herói, porque eu sabia que alguém ia passar ali e ia querer pintar o quarto do filho daquele jeito”, afirmou Kobra. “Um dia, um cara de uma agência viu os muros e me parou, falou que estava acontecendo uma concorrência para (pintar) o Playcenter. Pediu para eu apresentar 3 layouts. Eu apresentei 30, ganhamos a concorrência.”
Nos primeiros dias pintando o parque, dormiu no equipamento de pintura. O caminho de volta para a casa, na periferia, seria longo e custoso demais. Ficou 10 anos trabalhando para o Playcenter e, em paralelo, colorindo muros nas ruas de São Paulo e lapidando seu estilo. De repente, sua arte já estava no mundo todo.
Tudo que conquistou ele atribui a uma busca implacável por aperfeiçoamento, uma inquietude que o faz buscar referências em todos os lugares. Desde cedo, entendeu que a pintura era a atividade para a qual dedicaria a alma e o corpo – diz não sentir dores nas costas após as horas pintando murais monumentais, mas sofre desde os 23 anos as consequências da intoxicação pelos metais pesados presentes nas tintas.
Um preço alto, que o fez não se deslumbrar com o sucesso. “Tenho intolerâncias alimentares. Para vocês terem uma ideia, eu não posso comer nada que tem açúcar, nada que vai leite, nada que vai glúten. Isso por causa da intoxicação”, diz o artista. “Estou falando isso porque, por mais que a minha arte tenha me levado a todos esses patamares, a todos esses lugares que eu jamais imaginei estar, eu, graças a Deus, tenho meu pé no chão. Não tenho apego a questões materiais.”
São Paulo Innovation Week
O São Paulo Innovation Week, maior festival global de tecnologia e inovação, é realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap, até sexta, 15. Entre os mais de 2 mil palestrantes convidados para os três dias do evento, estão especialistas brasileiros e estrangeiros em áreas como ciência, saúde, educação, agronegócio, finanças, mobilidade, geopolítica, esportes, sustentabilidade, arte, música e filosofia, entre muitas outras.

