BRASIL EM FOCO
Germano Oliveira*
Fernando Haddad deixou o Ministério da Fazenda na tarde desta quinta-feira, 19, e à noite já vestia as luvas de boxe para duelar contra Tarcísio de Freitas pelo governo de São Paulo. As vestimentas de lutador foram-lhe paramentadas pelo presidente Lula, que lançou sua pré-candidatura a governador paulista pelo PT. Vai enfrentar o governador bolsonarista, candidato à reeleição. Os preparativos da pintura para a guerra foram feitos na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, berço do PT e onde Lula começou sua carreira política na década de 70.
Esta será a quarta disputa que Haddad participará nos últimos quatorze anos, das quais perdeu três (a da reeleição de prefeito em 2016; para presidente em 2018, porque Lula estava preso em Curitiba; e a para governador de São Paulo em 2022, quando perdeu para Tarcísio).
Ou seja, perdeu tantas eleições quanto Lula (foi derrotado nas presidenciais de 1989, na de 1994 e na de 1998). Lula, contudo, ganhou outras três depois e vai se candidatar à quarta este ano. Ele já é o mais longevo presidente da República do Brasil.
Hoje, inclusive, Lula escolheu o ministro Wellington Dias, do Desenvolvimento Social, Família e Combate à Fome, para ser o coordenador de sua campanha no Nordeste.
Haddad com metalúrgicos

Agora, com o lançamento oficial, o ex-ministro da Fazenda não pode mais fugir da batalha. Ele resistia em aceitar o enfrentamento com Tarcísio. Afinal, estava apreensivo com todas as derrotas eleitorais do passado recente. Haddad preferiu ser o coordenador da campanha da reeleição lulopetista. O chefe petista recusou o refugo do seu pupilo na economia e o lançou às feras.
O ex-ministro da Fazenda, porém, acabou convencido de que não tinha mais como fugir da raia e aceitou o “sacrifício”. Mas Haddad rebateu essa análise ontem no ABC: “Quem diz que vou para o sacrifício não me conhece. Nunca tomou um chope comigo”, disse o novo candidato do PT a enfrentar Tarcísio.
Haddad, contudo, é o oposto de Lula, que é supercarismático. O ex-ministro não é nada simpático. Até mesmo os petistas históricos, que vieram do chão das fábricas do ABC, berço do petismo, não têm grande empatia com ele. O chamam de “tucano enrustido”. Outros dizem que ele é “senhor vaidade”.
A fila petista
Polêmicas à parte, ele é considerado por Lula como um dos seus principais herdeiros. Inclusive, é um dos presidenciáveis do petista para 2030, ao lado de Guilherme Boulos, ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência. O prefeito do Recife, João Campos, de 31 anos, é outro que pode entrar na fila, caso se eleja agora para governador de Pernambuco.
Além de Haddad, Lula tenta também fechar sua chapa para o Senado por São Paulo. Este ano, serão duas vagas a serem preenchidas. O chefe petista procura, atualmente, convencer o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento Econômico, Geraldo Alckmin, a ser o principal candidato da sua coligação para o Senado por São Paulo.
O problema é que Alckmin (que foi governador paulista quatro vezes) não quer. O que ele não esconde é o seu desejo de permanecer candidato a vice-presidente de Lula agora na reeleição. Ao contrário de Alckmin, as ministras Simone Tebet (Planejamento) e Marina Silva (Meio Ambiente) querem muito ser as próximas senadoras paulistas. Tudo isso precisa ser combinado por Lula. Nada é feito no PT sem a costura e o aval do petista.

*Germano Oliveira é diretor do BRASIL CONFIDENCIAL.


